Camélias sinensis
Meus
joelhos doeram muito. Ninguém me convence que os problemas físicos dos
jogadores de futebol é só esforço esportivo. E os inúmeros filhos?
Naquela noite todos os meus amantes tinham gozado em mim ao mesmo
tempo, em disposição circular, enquanto eu sussurrava num palco na Av.
Paulista sobre o Sr. Rosa e suas viagens. Tomo chá verde e o Sr. Rosa
conta as quarenta vezes em que embarcou em um avião. Sua voz embargada
fala das viagens todas a passeio, o que é um orgulho não precisar usar
a palavra trabalho, mesmo que a cargo de a gente dê umas escapadinhas.
E ao ouvi-lo olhava para a ausência de seu pé. Fora cortado por
implicações da diabetes. Tomo mais chá. Leio a garrafa: Camélia
Sinensis. Ele me convence de que não está em débito, por que aproveitou
o que podia da vida. Amanhã eu sei que o Sr. Rosa vai ter que amputar
as pernas. Em solidariedade, sua esposa teve que cortar a língua,
também por causa da diabetes, mas creio que ela queria oferecê-lo certo
conforto. O Sr. Rosa não me conta sobre suas amantes, só fala de como
era lindo Buenos Aires, Santiago, Lima, Caracas. Lugares que todos que
podem viajar estiveram. Não vi fotos, não me importo se é verdade essa
beleza, que pode vir até da miséria e da resistência. E ele estava
firme, apesar de gritar quase o dia todo. Sr. Rosa é meu vizinho e o
escuto, pensando se estou menos pura agora pelo excesso de masturbações
à noite ou por catalogar na cabeça todos os meus amantes, que nunca
foram meus, mas me aproprio deles. Eu e Sr. Rosa compartilhamos das
fantasias. Sei que não vou visitá-lo. Sei também que aquele rapaz que
saiu de casa ontem também não irá me visitar. E isso não posso contar
para o Sr. Rosa. Tomo outro gole. A cura prometida por todos os chás.
Ele discorre nisso, e se engrandece por estar inválido apenas na
velhice, por não ter perdido horas na frente da tevê como seus amigos e
por ter velejado. Eu queria subir num barco com você e a garrafa de chá
verde, você me contaria suas pescarias fracassadas enquanto eu abriria
uma lata de sardinha pensando que o Sr. me deu Aquilo que meus amantes
não deram e dormiria no convés.
A imagem dos meus
amantes não me deixavam em paz. Eles sabiam que eu era incapaz de
namorar, ter uma relação padronizada como quase todo mundo tem. Eles
sabiam que eu não poderia suportar alguém respirando à noite na minha
nuca. Só que me arrisquei a estragar minha saúde à toa, enquanto o Sr.
Rosa fazia elegias à minha vivacidade. Talvez a podridão já me
estivesse amputando por dentro, talvez a doença se instalado sem que eu
percebesse. Na mente as pílulas do dia seguinte me confortaram de eu
nunca ter carregado um aborto nas costas além do meu próprio. Disse ao
Sr. Rosa na mente o que não poderia pronunciar. Restava ao menos a
garrafa de chá verde, promissora de curar os novos males contemporâneos
e os antigos acumulados. Sei que enquanto grita histórias nessa hora o
corpo do Sr. Rosa jaz vivo na minha frente, pronto para no dia seguinte
ser atirado ao mar. Eu digo, você, meu grande e verdadeiro amante, vai
ser afogado como os outros. Meu Amante, meu Belo Pai.