Edição 1 · 21 de Maio de 2007

Leon Tolstói e suas chinelas de couro cru

Camilla Lopes

Ia sempre naquele bingo cravado ao fim de Copacabana. O bingo que se faz de cassino onde fez por outra, Catarina arrumava confusão. Eu jogava sozinha, não apostava muito. Tenho e pretendo conservar o meu jeito de apostar - aposto pouco, nunca ganho na última jogada. Mas o clima do bingo era bom, naqueles dias de marasmo onde eu não conhecia ninguém e tentava digerir o que me foi dito há tempos atrás;
“Não adianta você sempre perde.”
Sabe quem disso isso? O Leon Tolstói que calçava chinelas de couro cru.
Infelizmente nada tinha a ver com jogos, eu perdia. Resolvi seguir a risca e ao menos fui perder o dinheiro. Eu tinha dinheiro, ele sempre chegava sem que eu fizesse o menor esforço, contanto que eu nunca me casasse perante a lei, a mesada militar do meu pai chegaria até o fim dos meus dias. E como eu nada mais precisaria fazer, poderia perder o quanto quisesse. O problema é que eu não me sabia perdedora, perder não é nada até que você se descubra perdedor.
Catarina era alguma outra perdedora, ou na melhor das interpretações, desocupada, tanto quanto eu. Conheci no bingo e ela disse que já que parecíamos ser as únicas garotas de vinte e poucos anos daquele lugar, tínhamos que sentar juntas. Tanto fazia, e ela foi ficando. Passava o tempo enquanto esperava para ir morar com Luis Augusto o namorado virtual, chefe de cozinha em Londres. Não que eu gostasse de Catarina, mas ela sempre aparecia. Era um tanto má, um tanto imperdoável, com suas tatuagens e seu problema com banho. Reclamava das coisas e atirava papéis higiênicos na varanda de Clóvis Bornay, meu vizinho - não perdoava a grande vida que teve o dançarino e portanto, não seria o suficientemente inteligente para perceber a minha apatia solitária no grande apartamento iluminado pelo sol poente;
Certa vez quase ganhei um carro no bingo, mas quem levou foi um japonês de férias no Rio. Catarina derramou sua caipirinha na máquina digital dele, disse que nós não iríamos sair de lá com as mãos abanando. Engraçado suas atitudes de ganhar com o prejuízo alheio. Eu gostava disso. De repente, sem o menor esforço, eu tinha alguém que me era tão fiel a ponto de vingar -se por mim. Nesse dia eu cheguei a conclusão de que sim, vale sempre a pena vingar - não trair o sentimento, ainda mais o de inveja.
Tive um amor com um homem que eu fantasiei ser russo, mas que não passava de um carioca meio hippie, meu Leon Tolstoi de Botafogo com seus olhos fortes e barba negra. Cheguei a ir a rodas de samba por amor, não que fosse por generosidade, era egoísto tudo em nome dos meus devaneios - Transformo idiotas em celebridades e atribuo a eles as características dos meus ídolos. Teve o porteiro Al Pacino, o açogueiro Benício Del Toro e por fim o Leon Tolstoi estudante de faculdade pública que usava chinelas compradas na feira dos Nordestinos e não comia carne... Leon Tolstoi me chamou de perdedora conheceu uma universitária de educação artística e eu conheci Catarina, que todo dia me mostrava fotos de Luis Augusto e que por questões que eu nem sequer me dei ao trabalho de perguntar e que eram totalmente indiferentes, ela foi morar na minha casa. Depois de Leon Tolstói eu jurei parar com isso.