Edição 1 · 21 de Maio de 2007

Omelete com tomates e queijo

Bianca Nóbrega

“Será que você podia me vender dois ovos?” O dono da lanchonete insinuou alguma careta, alguma língua sendo mostrada com os olhos. “É que teria de andar mais dois quarteirões para comprar apenas dois ovos e eu moro aqui ao lado... será que o senhor podia me vender?” O dono da lanchonete precisava de ovos para os lanches. Além daqueles cozidos que deixa à mostra, um e outro freguês sempre compra... “Fabinho, pega pra moça dois ovos. É um real.”

Abriu a porta e um ar gelado lhe recebeu de braços abertos. Havia uma corrente de vento que vinha das entranhas da janela. Segurava o ruído dos carros e não segurava o vento frio da tardinha. Abriu as cortinas e deixou que a vida de todos os outros apartamentos vizinhos entrasse enquanto pegava a faca e o prato. A janela também não deixava dividir a música que seu aparelho de som cantava. “You’re not the kind”.

Primeiro picou os tomates. Bem miúdos. Cebola. Uma lágrima sincera e picadinha sobre o prato. Uma fatia e meia de queijo, quase duro, quase bom. Quase há uma semana escondido no fundo da geladeira. Quase não comia em casa. Às vezes ainda errava na medida. Fazia pouco. Fazia muito. Não costumava comer no dia seguinte o que comera no dia anterior. Mesmo porque nunca sabia se no dia seguinte daria pra chegar a tempo de comer tranqüila, ouvindo um de seus discos de coleção. Desde criança colecionava coisas. Agora já estava bem crescidinha. As figurinhas com cheirinho de frutas e as bonecas de porcelana não faziam mais sentido. Depois as bolsas. Até seus vinte e poucos anos tinha uma enorme variedade de bolsas. Pequenas, grandes, de viagem, sociais, esportivas, para noite... Deu tudo. Não fazia sentido guardar aquelas bolsas todas. Comprar outras novas... pra quê? A única coleção que não se havia desfeito e de que muito se orgulhava (e exibia sempre que podia) era a sua coleção de vinil. Jazz. Sua paixão. No começo era apenas para parecer sofisticada. Depois se afeiçoou. Como era elegante o vinho na taça e seu sapato jogado num canto da sala de Paulo enquanto ouviam um jazz de outros tempos e sensações. “You’re not the kind”. Fazia sentido ouvir aquela canção enquanto preparava o jantar.

Cada vez que usa uma colher, lava. Um garfo. Lava. Como é chato lavar louça. Cozinhar parecia um ritual rítmico, lavar louça era recolher os restos da cerimônia. Lava tudo antes de se sentar à mesa. Uma colher de farinha de trigo. Bem cheia. Dividia em duas metades. Sempre teve um caso de aversão com os números ímpares. Todas as medidas, todos os conjuntos, tudo, tudo, tudo o que podia, fazia ser par. Tudo par. Ovos batidos, farinha, orégano, pimentinha, uma e outra folhinha verde para dar um charme ao prato. Aprendera a cozinhar com uma amiga na república. A amiga cozinhava o trivial e seu trivial era um arroz com feijão delicioso. Chegava da faculdade e a amiga havia acabado de acordar. Começava então a mexer as panelas. Ela observava tudo. Um dia, sabia desde sempre, seria só e precisaria saber fazer um almoço. As medidas iriam variar, sempre variam, eram quatro garotas na casa. Ela era a única que não cozinhava. Tratou de aprender e fez melhor do que as outras. Muitas vezes fazia almoço para os amigos todos da faculdade. Foi morar sozinha. A bolsa de estudos exigia dedicação - e a bagunça de quatro mulheres juntas não lhe permitiu ficar mais. Já sabia cozinhar. Podia ser só. Ser só e pronto.

Fez o suco de manga (essa mania da faculdade não perdera, o suco de pozinho...). Tentava acompanhar a música com o tilintar da colher na jarra. Encantador como todos os gestos humanos tendem às belas criações musicais, arrumou a mesa. Um prato, um garfo, uma faca. Um copo. Ainda tinha um filé de peixe que se não comesse naquele dia... talvez não comesse mais. Omelete e peixe? Com suco de manga! Riu quando começou “He’s my guy” Já fez misturas muito mais inexplicáveis. Como ele elogiava sua maneira de abrir a geladeira e, de coisa alguma, sair um belo jantar. Sempre ouviam um de seus vinis, largavam os pratos na mesa, os copos pelo chão. Cozinhar depois de uma semana inteira de trabalho. Estava esgotada. Lembrou-se de prazos. Lembrou-se de anotar na agenda um Congresso que faria. Precisava deixar tudo acertado antes da viagem. Ainda há tempo. Depois anotaria. Agora era a hora do jantar.

Juntou os tomates, a cebola e o queijo. Que beleza de massa. O peixe no ponto. Peixe era outra especialidade. Aprendeu a tirar o cheiro do peixe das mãos com uma garota que conheceu por acaso num sarau entre amigos na casa de alguém que não se lembra direito. Com a garota aprendeu até remedinhos caseiros para o problema de estômago que desenvolveu na época de sua defesa de mestrado. A tensão sempre se concentrava no seu estômago. A garota trabalhava num navio. Era uma festa as histórias que contava de lá. As dicas eram igualmente ótimas Ela havia feito hotelaria e disse com voz tão determinada quanto doce: “prefiro viver num navio, trabalhar dia e noite naquela fantasia toda, a ter de aportar em algum empreguinho de hotel e viver todos os dias de minha vida uma vida só”. O peixe estava mesmo no ponto. A voz arrastada de Sarah Vaughan “He’s my guy”. O problema era que depois de “Lullaby...” vinha “April in Paris”. Lembrou-se do filme de desencontros. A voz de uma outra diva. Aqui ela tinha Sarah, no filme a interpretação da francesa para uma Nina Simone. Percebeu que muito tempo havia passado. Um desencanto e outro havia desencontrado seus sonhos dos sonhos de Paulo. Havia aprendido a cozinhar. Podia ser só. Sentia a liberdade até os fios de seus cabelos ao entrar em sua casa e ligar a voz arrastada de Sarah ou enquanto frita a omelete com tomates e queijo. A escolha da liberdade. Gostava de manter os pares entre todos os seus utensílios. Gostava de ter seus livros em ordem de tamanho. Gostava de ter uma cerveja em casa para tomar bem ao cair da noite, depois de chegar de um trânsito incômodo e de buzinas inconformadas. Que perfume tem a liberdade em forma de omelete com tomates e queijo. Adorava estar só em sua casa. Talvez saísse de São Paulo no próximo ano. Em Abril talvez estivesse em Paris. Talvez ouvisse os conselhos de seu amigo e fosse mesmo passar uma tempo no Rio. Talvez largasse tudo, tudo, tudo, tudo e voltasse para São Paulo no fim de cada tentativa de viver só. Era ali que precisava estar. A omelete estava pronta. Também o peixe e o suco de manga. Mastigou a solidão e a liberdade. Olhou através do suco de manga e viu na parede os quadros. Mudavam a cor. O suco era forte. O copo tinha desenhos. Compôs outra imagem. Digeriu a voz arrastada de toda a sua coleção de vinil.

Ficou ainda um momento na mesa ouvindo a última música do lado B. Um disco inteiro para o jantar. E uma ou duas vezes que tinha repetido “You’re not the kind”. Levantou-se para lavar um prato, um garfo, uma faca e um copo. Como é desagradável lavar a louça. Guardou o suco na geladeira. Depois iria escovar os dentes. E por último torcer para que o refluxo não trouxesse de volta, durante toda a noite, o gosto e as lembranças da omelete com tomates e queijo.