Beijos de aguarrás e sopros incompreendidos
Muitas coisas me prenderam os calcanhares com grilhões e de cabeça pra baixo.A voz mandando eu me foder e o carinha cutucando minha pele com aquele pedaço de ferro em brasa, esse demônio novo que se mudou com as malas dele pra cima do meu ombro direito, que tava vago. Eu tenho um milhão de textos burbulhantes dentro da minha cabeça que não sei mais juntar e separar pra juntar de novo pra depois, ainda, separa-los novamente pra colocar nesse espaço todo em branco. Fiquei tentando bancar a poeta e não deu certo. Eu não sei fazer poesia e o que está aqui dentro da minha cabeça é tudo, absoluta e pura poesia. Sempre páro no meio pra esticar as costas e quando volto apago a linha inteira. Fico pensando que é uma pena você não saber de tudo. Tudo com as palavras que eu quero usar. Eu te faria entender direito. Eu te faria querer deitar um pouco a cabeça aqui no meu ombro, falar meu nome um pouquinho, tipo entre um “bonequinha” e outro. Mas você chega e me segura e me olha nos olhos e vai embora. Depois volta. E se demorar, i’ll wait for you . Vou cortando esse monte de flores que crescem aqui nessa terra que tem cara de morta. Vou segurando minha vontade de sentar no teu colo e deixar você desamarrar aquele nó da minha blusa. Também a vontade matar aquela garrafa de vinho com você escutando baladas de Ritchie Vallens. Dançando no tapete da sala com a janela aberta, luas grandes, mil delas. Pelo menos trinta, só nossas. Oh, baby... i wanna be yours tonight .
Eu fico escutando o seu piano crescendo entre suaves e avalanches. Tempestade chovendo em cima de mim. Em cima de mim, logo eu, tão romântica, dobrável, petulante, descuidada. Palestrante convincente e não-praticante, péssima poeta, fisionomista vulgar, excelente vigarista-puritana da casa abandonada com paredes pixadas num dia de semana qualquer rabiscando no chão o teu nome, escondendo as pontas que sobram nos buracos da parede. Eis o pior e o melhor de mim. Uma cadela pedinte da porta alheia que late late late e uiva pra lua grande perguntando por que ela não pode crescer mais, descer aqui e olhar pra minha cara, só pra eu ver ela de frente uma vez e não só de baixo.
Supõe uma garota que se curva inteira na cama de casal vazia e olha o amor de frente e não o recusa, enfim, não obedecendo nenhuma das babaquices que me enfiaram quando eu estava xarope, tentando me convencer de que o mundo tinha que girar pro lado contrário só por que eu queria. Ta na cara, não vê? Sou porta bandeira de mim .
Supõe um cara que tem força e paixão dentro dos olhos e mãos que tocam o mundo nas teclas que gritam, e as pessoas travam assim como eu travo, mas eu travo por que eu sou cafona, por que eu prefiro pieguices na minha vida à olhar pra minha cara no espelho e ver que é isso aí e é assim que vai continuar. Um cara que tem cor de sol, mãos de deus e olhinhos de lobo espreitando por trás dos óculos escuros só por que alguém um dia inventou que ia ser errado ele fazer isso, bater o olho numa mina que tava ali na dela fumando um cigarro e esbravejando contra o mundo e ele viu e ele prestou atenção e acabou passando por cima daquele monte de coisa que a gente cresce ouvindo que estão erradas e deu a mão pra ela e levantou ela daquela bagunça, daquele chão sujo, daquele papel em branco e do seu próprio monte de asneira interior que gruda em tudo com cola pegajosa e eles estão andando por aí juntos esperando alguma coisa qualquer acontecer, esperando o que? Esperando, esperando... olhando nos olhos. Engolindo bocas.
Eu tenho andado com você na cabeça como se a tua lembrança fosse uma valise que contém diamantes e ninguém desconfia disso por que eu sempre fui vista só carregando tralhas, da sala para o quarto, da padaria para o prédio, da cama para o chuveiro.
Eu tenho tudo que eu preciso dentro dessa cabeça completamente revirada e devastada – tudo em cacos, mas eu sei o lugar de cada caquinho e ando comigo mesma me segurando carinhosamente pela mão ainda acreditando que eu posso dobrar a esquina e a minha vida se resolver pela sorte ou pela magia simples de um ‘estava na hora’. O mundo é portátil pra quem não tem nada a esconder.
Eu não gosto do gosto dessa liberdade quando eu lembro que tudo isso sacrifica você. Mas você me sacrificou primeiro, acho que foi por isso.
Com mil anos de idade vai ser o brilho dos seus olhos que os meus vão estar procurando. Lembra disso e tenta não fugir de mim na próxima. Eu vou estar com a chave.