Wake up little Suzie
Mataram o cachorro anteontem pela manhã. As tripas ainda estão sob o tapete de entrada, não deu pra botar na pá e jogar no lixo, eu sinto náuseas. Hoje eu fiquei na cama o dia inteiro, sentindo um cheiro de buceta fora das gavetas. Suzie sempre deixa calcinhas sujas esparramadas pela casa. No banheiro tem aquele roupão encardido que ela gosta de usar depois do sexo. Ela se levanta, chuta as latinhas que estão pelo chão, vai até o banheiro, veste o roupão e acende um cigarro. Ela sempre faz isso. Outro dia me perguntou se eu falava com as aranhas, eu disse que não, “que idéia”, “é que eu converso, quando você não está”. Ela fuma uns cigarros finos, com o cheiro não muito forte e bebe muita vodca. Acho que os vizinhos devem ter matado o cachorro, “o que você acha, heim, Suzie?”. Perguntei sobre esse papo da aranha, ela disse que se sentia muito só, disse que conversava muito com essa aranha, “e porque você não conversa com o cachorro?”, “não gosto desse cachorro”, “não gosta do cachorro? como não gosta do cachorro?”. Eu tinha comprado a porra do cachorro pra ela, foi um presente. “Ele é teu cúmplice, gosto mais da aranha”. Eu já sinto falta do cheiro da fumaça dela, do jeito que batia os cascos no taco da sala. Sabe, a primeira coisa que eu fiz depois foi matar a aranha, Suzie ia ficar puta comigo, ela gostava da desgraçada. Ela não ligava pra muita coisa, o ar quente do secador deve ter queimado os seus miolos, mas agora tanto faz. Há dias Suzie não acorda e no rádio toca aquela canção: Wake up, litlle Suzie, wake up.