Vermelho cor de mel
Doce não lar
Reparei que nestes cálidos dias a água ferve mais rápido. Corri para fechar a janela, mas já não havia nada a fazer. Quando lembrei as roupas estavam mesmo molhadas. E o varal: sequinho.
Córdax
Perdidamente desvanecendo-se em luxúria etal. Suando estilo em bicas. Navegando Impalas no cigarro dos astros. Uma verdadeira cachoeira de toxinas despudoradas. Uma Foz de noitadas que pingam, precipitando-se, rumo ao abismo do corpo que lhe afaga os pecados, acolhe os fetiches e lhe engole o sumo do fel de amargo e vida. Não há metafísica nos elevadores. Há apenas uma película de clichê em meus olhos quando estrelo por desconhecidos corredores carpetados rumo à odes mundanas. E coletâneas, mentais, cinematográficas. Entre o feixe azul e o vermelho do luminoso que rutila lá fora e estaciona alternadamente numa das quatro paredes, encontro uma enxurrada de verbos. Um bilhão de motivos para não dizermos um A. Mais um gole desse prosseco e uma pose de gargula, nu, diante do ecosistema de concreto e antenas que furam o rabo do céu, almejam a lua anil, cagam para a humanidade que transmitem. ...O anjo caricato, lixa as paredes, tropeça, cai de cara na lama, levanta, abre as asas: "A cidade é minha" e abraça a solidão. Tudo fica escuro.
Tresnoitância
Mesmo precavidamente deixando meu coração em casa, não estou livre de ferir-me em um platonismo de meia hora qualquer, ou em meras veleidades da cabeça debaixo. Dilacero a flor da minha pele com cacos de auto-flagelo para lhe mostrar o tutano passional, o maldito paradoxo que compõem meu universo de dez metros disformes. Minhas tolas megalografias. Minhas inutlidades mais charmosas, como um blues sem solo. Deleito meus olhos em seu corpo, num pequeno hiato de distração sua. Mil músicas. Uma miragem. Sua miragem! Um holograma apetecente e essa dolorosa tendência de meu ombro a se deslocar. De sonhos a decepcionar. De nada acontecer quando realmente deve. Pérolas? Não, meu amigo. Aqui só mexemos com diamantes! Permita-se a tudo o que deus não permite! Grite a hipocrisia de nossa forjada sinceridade às santas autoridades. Defenda teses imbecis que só dizem respeito a si mesmo. Ligue-me às 11:34 P.M. de uma terça-feira e diga aos berros (e sem medo do Pasquale): "Aí, irmão, cê qué chadurdá no lúdico?", pois é assim que funciona a luz embaixo deste fosco spotlight. Pisando o Push que há talhado na táboa. Surfando em tubos de néon e mares de psicotropia. Pintando setes na tela noturna de casas que nos compreendem a carne. O mote de nossas vidas: Drinques coloridos, luzes extravagantes, divas fuosforescentes e ardência no canal da urétra após três ininterruptas horas castigando a danada. A noite não é minha, mas minha vida é meu show. Protagonizo o nada. Coadjuvo tudo.
Teletransporte
Lavar a alma na enfudecida água da hidro. Coquetel e cópula. "Porra, tem preços no frigobar"...
-Eu sei tudo sobre você, sabia?!
-Não, não sabia - tento não parecer sarcástico (tô de saco cheio dos "sarcáticos").
-É! Eu sei tudinho sobre você - ela inclina a cabeça um pouco para a direita, passa o pé macio sobre meu peito desnudo e submerso, abre um sorriso típico de quem acha ter uma boa carta em mãos -. Você tá duvidando? Pode perguntar. Vai, pergunta. Pergunta o que quiser que respondo - traga o cigarro com calma, faz pose de francesa esnobe -. Eu sei tudinho sobre você, seu "Escritor"... Tudo!
Os bicos de seus seios emergiram sobre as borbulhas... Nestes momentos tenho a falsa e palativa impressão de ter ME "encontrado".
-(...) O Problema é exatamente esse...
-Qual...?
-As pessoas andam sabendo mais de mim do que eu mesmo!
Retrovisando
O que o espelho reflete não é nada bom. Há um homem alto, moreno, olhos magenta-devil, entre vinte e três e vinte e cinco anos, carregando sentimentos numa individualista balisa de mesquinhez. Ele manda o mundo às favas e ateia fogo na própria áura. Não em oblação aos deuses, nem nada. Mas por "anestesia"... Deus dever ser muito míope para não enxergar esse incomensurável S.O.S flamejante - ou ele só não liga pra nós mesmo. No backstage dos textos. Onde a vida pode sim acabar. E as pessoas têm gripe. Cometo meus pequenos e errôneos atos de meditação a tapa, a base da violência. Encontrando a desventurada redenção nos excessos da lava-louças e tranquilidade nos pisos da perversão. Talvez eu seja doido demais até para mim mesmo.
Pornografia de nossas chanchadas
A vida anda boa demais. Pensei em descer no velho poço para visitar minha afônica caixa de música, dar umas dedadas naquela bailarininha safada, colocar o pau onde não foi chamado. Quando viver torna-se pecado, o niilismo (ou uma bela 45) é o caminho para a salvação. Escrevendo no corpo dela Atravessamos toda a Paulista rumo ao além. Ela aperta minha mão em forma de protesto ao excesso de "modernismo" que há na calçada mais importante dessa joça de país. Abraça-se à meu braço. Sorri para poluída atmosfera. Seus olhos são faróis verdes. E, no além, os vultos viciados anunciam assalto (logo pra cima de muir?!). Mas o californimano aqui conhece a dialética do crime. E o que seria um assalto virou um "respeito por um desconhecido 'sangue-no-olho' que foi confundido com um boy". Ela pira. Diz: "Meu Herói" e eu penso: "Você ainda não viu nada... baby". Ela diz que sente-se segura ao meu lado. E eu só me sinto seguro quando estou só! Abrimos as pontas de nossas vidas sobre a mesa de jogos. Andamos feito cães desgovernados, sem rumo. Tragamos grande parte da noite andando até nos depararmos com um velho casarão abandonado. "Tem coragem de entrar ali:?", perguntei. Perguntei e entendi seu silêncio pensativo como um sim. Mão na mão: o arrasto. -Não era pra gente tá fazendo isso! -Então por que estamos fazendo - perguntei ousado, dei um tapa forte em seu rabo pra mostar quem manda e me perdi novamente. A lua é a merda de um clichê eterno. Não há como fugir de clichês eternos.
Entre astros e latas
A inumanidade de meus solúveis desejos pervaga solitária em meu sangue corroído. Esfriando apenas o peito deste corpo que usa o indiscreto do céu como teto para melifluir noite afora. Não sei. Às vezes acho que há muitas pessoas sofrendo de vazio pré-frabricado . Como se tarja preta fosse status para esses milhões de "cópias alternativas". O mundo realmente está perdido. Há caretas dizendo ser louco e redes servindo de "carapuça em massa". Há inúteis correndo atrás do sonho alheio. Há xerox nas filas de cinema. Há prostitutas no hall de entrada, e, novamente: não há toalhas nessa joça!