Edição 1 · 21 de Maio de 2007

O Doce Som da Vingança

Randall Neto

26 de novembro de 1995, 21:00 hs, aniversário de 50 anos do meu pai; eu já corria pelos meus 22. A comemoração seria, não só oportuna, como também única: o show do mestre João Gilberto.
Era uma situação que se repetiria pela segunda vez: eu fazer algo inédito junto com meu pai. O primeiro fato foi quando, aos 16 anos de idade, eu votei para presidente pela primeira vez; pela primeira vez também, meu pai escolhia o presidente da república pelo voto direto, aos 44 anos. Coisas do Brasil...
Agora, após mais de trinta anos de adoração e idolatria pelo gênio excêntrico da bossa-nova, meu pai teria a oportunidade de ver uma apresentação ao vivo do intérprete de “desafinado”; eu, em solidariedade ao coroa e por ter ganho um ingresso do Pescoço, também veria o inédito show que meu pai tanto sonhava. Coisas de Goiânia...
Estamos agora no hall do teatro Rio Vermelho, centro de convenções de Goiânia, onde já começam a surgir as eventuais indagações entre as rodinhas de pseudo intelectuais do cerrado:
- Ele vem?
- Será que ele vai cantar uma, duas músicas e ir embora?
- E se ele grilar com alguém ou algo?
Em face do inconveniente atraso de 40 minutos e da vida pregressa do semi Deus, que em outros tempos não compareceu a um show por não saber se iria com a calça roxa ou a amarela, as perguntas e a aflição dos virtuais espectadores eram procedentes. E o meu pai parecia, aos meus olhos, o mais fissurado de todos...
O que meu pai sentia era medo e esse medo era plenamente justificado, uma vez que ele já se encontrava naquele estágio provecto da idade, em que os ídolos da juventude começam a trocar este mundo pelo Jardim do Éden. Vinícius, Elis, Garrincha, Tom Jobim, e outros já haviam ido. O João Gilberto deveria esperar mais um pouco.
O fato é que, quase uma hora depois do horário marcado, o João Gilberto apareceu com seu violão, sentou-se ao banquinho, resmungou qualquer coisa contra “horários” e começou a fazer o que sabe com extrema maestria: tocar e cantar!
Ele abriu com “A Primeira Vez” e eu pude perceber que meu pai se arrepiava de exaltação. Era a divindade em pessoa lá no palco, que, com um violão e a voz, recebia as homenagens dos fiéis súditos.
A surpresa ficou por conta de uns comentários elogiosos sobre Goiânia que o “Pelé da bossa-nova” fez, contrariando a tradição de não falar em shows. Depois de “fazer a média”, vieram “Sandália de Prata”, “Isso Aqui O Que É?”, “Meditação”, “Fotografia” e “Eu Sei Que Vou Te Amar”, que arrancou suspiros da devotada platéia.
O ápice ocorreu em “Desafinado”, minha favorita. Mas tão favorita que eu me peguei cantando baixinho, tamanha era a minha empolgação. De repente, eu olho pro lado e vejo meu pai me encarando com um risinho de puro escárnio e uma expressão de vitória no olhar que eu não conseguia entender por quê. O ídolo dele estava lá na frente e ele insistia em me fuzilar com aqueles olhos verdes querendo dizer “te peguei”!
Foram necessários alguns segundo prá eu sacar o por quê daquela manifestação insana de triunfo; puxando pela memória, eu me lembrei de quando ouvi João Gilberto pela primeira vez, há uns dez anos atrás...
- Pô, pai, você vai cortar o meu som?
- Escuta música de verdade, bossa-nova!
- Bosta-nova?
- Bossa-nova, imbecil! Isso aqui é João Gilberto, escuta e vê se aprende o que é música!
Se eu não me engano, foi exatamente “Desafinado” que ele pôs, ao que eu disparei:
- Quê isso, pai?! Não tô nem ouvindo a voz desse cara direito! E a bateria, cadê o som da bateria?
- Ao fundo, bem baixinho...
- Tá curtindo com a minha cara? Bateria, bem baixinho? Qualé!?
- Pois saiba que foi esse tipo de música que revolucionou a maneira do mundo inteiro cantar! Eu sou capaz de apostar que você ainda vai dar valor na bossa-nova!
- Pode apostar! Quando eu tiver a sua idade, sua careca e sua pança, talvez eu também adquira o seu mau-gosto musical! João Gilberto. Sonzêra é rock´n´roll!
- São esses discos aqui? Você quer que eu leve a sério alguma coisa que se chama... é isso mesmo, “Echo e os homens coelhos”? Deixa eu ver esse outro “Jesus e Maria acorrentados” !?!
- Falô, pai, fica aí escutando esse cara que canta parecendo que tá com diarréia...
Mal sabia eu que nada nem ninguém no mundo faria meu pai abrir os olhos pro rock, pois quando eu fui, todo cheio de razão, mostrar-lhe a letra de “Índios”, da Legião, ele massacrou minha empolgação inicial, já que estava em lua de mel (eterna) com o Chico Buarque, que acabara de conseguir inserir a palavra “paralelepípedo” numa música ( “Vai passar”) .
O jeito foi ir me rendendo aos poucos ...
Dez anos depois, sem pança, sem careca e ainda curtindo rock, eu abria espaço nas minhas preferências musicais, para aquele senhor de óculos que tornara imortal o fato de “Fotografar alguém com sua Rolley-flex...”
Meu pai, de quem eu herdei uma infalível memória, parecia alheio ao mais afinado dos intérpretes da bossa-nova, contentando-se em saborear a desforra do incidente de dez anos atrás.
Só eu e meu pai entendemos aquele breve momento silencioso, marcado por um sorriso e um olhar vitorioso por parte dele, e uma expressão de pura resignação da minha parte, indicando que eu aceitava pacificamente a derrota.
Continuei cantando “Desafinado” até o final, afinal de contas, eu imagino que, em algum lugar, Renato Russo, Kurt Cobain, Marcelo Fromer e Cazuza devem sentar na mesma mesa que Elis, Vinícius, Tom...

20/05/96 Valeu!
A meu pai...