Edição 1 · 21 de Maio de 2007

Hot-dogs não ladram

Ricardo Carlaccio

Apenas uma cerveja preta e eu estaria totalmente acordado.O bar mais próximo era habitado por dois fugitivos do Pinel e uma garrafa de vodka pela metade.Eles faziam questão que eu tomasse umas doses pra comemorar o fato de estarmos vivos.De vez em quando penso nessa coisa depois da quinta dose,eles possivelmente pensam depois da terceira.Eram seis horas da tarde e eu não queria comemorar coisa nenhuma.Tomei a cerveja preta e sai, talvez voltasse pro asfalto me sugar.A noite tava nonsense.Engoli hot-dogs de cinquenta centavos na Praça da República depois de abastecer minha alma com bom blues.Ouvi um papo sobre saltos ornamentais, saltos dados por pessoas sem a mínima intenção de comemorar o fato de estarem vivas. O cara da voz estragada pediu que não falasse sobre essas coisas num lugar habitado por suicidas.Lembrei que meu maior bem é uma kit alugada no décimo nono, lembrei também que hot-dogs são eternos e os néons brilham pros caras que ouvem blues e vestem jaquetas de couro.Agora eu estava pronto. O cara da voz estragada me convidou prum porre,eu só topei porque ele sabia cantar igual o Tom Waits. O papo sobre saltos ornamentais continuou e um cão sarnento seguiu até o bar. Eu tinha certeza que minha alma ficaria na privada,esse era o pacto.Às vezes a vida parece bem decente prum cara que não existe antes do pôr-do-sol.