Edição 10

As flores mortas a me contemplar

Bárbara Lia

Quando eu era menina

tinha medo da cortina

que lembrava

o quintal do mal.

Era adornada de pecado,

rosas em gritos menstruais

sangrando folhas descomunais.

Durante o dia, eram bizarras;

na noite me assombravam

formando rostos

na contra luz da lua azougue.

Eu farfalhava no colchão,

cerrava os olhos

encolhia-me em posição fetal.

Nunca disse à minha mãe

(que trocaria a cortina – para minha paz)

Nasci de frente para os fantasmas.

Contemplo.

Não expulso.

Não acendo a lâmpada.

Enfrento.

No quarto escuro

(agora da alma)

os mil rostos

de rosas mortas

a me contemplar.

(A última chuva –

 ME ed. alternativas, 2.007