Edição 10

Sobre a fuga do amor e seus mistérios

Célia Musilli

Bateram à minha porta em 7 de julho, eu já havia partido.

Mas um dia estive ali, frente a frente com o seu assombro e o seu encantamento. Seu ímpeto de navegar como um marinheiro sem porto, vendo apenas o oceano.

Sentimos o gosto salgado da impagável aventura, reinventamos beijos, palavras diáfanas, versos profanos, enquanto você lambia meu ventre de odalisca que fez arder seu juízo. Depois não havia mais ninguém.

Ulisses se desfez do barco róseo do meu afeto e, quando dei por mim, minha alma também havia partido.

Salas e quartos fechados. A solidão do sótão de janela única a ligar com luz o embrião do êxtase à fuga promissora da minha liberdade de loba, a que contempla a vida das montanhas, sem nenhum passado e sem exercitar futuro.

O amor é uma paisagem que perdi tantas vezes. Mas se desisto dela, talvez a reencontre. É sábio e triste o coração humano.