Por um hamburger menos gorduroso 2
Eu vi os expoentes deitados na sombra
de uma árvore de frutos podres
que brilhava em rede nacional
para a marmanjada sentada nas poltronas;
guerras ouvidas a distância
na Ásia, África, Europa, América
aviões lançando bombas
caminhões explodindo em feiras públicas;
no microfone soavam vozes firmes
que prometiam políticas externas
reciclagem interna
novas frentes de trabalho;
todos olhavam para os lados
recostados em postes
sentados em bancos
olhando um sol que fervia;
aguardando que as repartições
abrissem as portas
para pegar as senhas
e descolar um trampo;
havia qualquer coisa
de estranha no uniforme
das garçonetes que flertavam
com clientes endinheirados;
esperavam o documento oficial
e o nascimento da cria
para conseguir uma vida nova
de automóveis e carrinhos de compras;
nas vitrines cães furiosos
cheiravam o frango que rodava
vários olhos espreitando um farelo
alcançar a calçada suja;
e falavam sobre aquecimento global
retirada das tropas
sindicalização e terceiro mandato
criando as notícias do amanhã;
nas redações as folhas
imprimiam as grandes matérias
homens honrados destilando veneno
para a opinião nacional;
nas suas fortalezas de vidro
poetas dedilhavam os computadores
contavam histórias
de vida e morte e vida e morte;
putas exibiam as pernas
e o ventre volumoso
em uma tarde fria
de poucos clientes;
no quarto do motel
a garota chorava
depois da primeira penetração
de muitas que viriam;
fanfarrões bebiam a cachaça
e comemoravam o gol da seleção
de algum esporte qualquer
a vitória era sinal da foda noturna;
os presidentes se encontravam
falavam sobre a descoberta do petróleo
a entrada para a Opep
o fim de todas as batalhas;
encapuzados marchavam
perto de um córrego
a carcaça em um saco plástico
um despacho na madrugada;
meninos sentados nas carteiras
ouvindo seus professores
enquanto tentavam espiar
o segredo atrás das saias;
mulheres recolhiam o lixo das ruas
levavam à cooperativa
recebiam seus trocados
e compravam leite e conhaque;
mais um dia estava terminando
quase todos conseguiram sobreviver
entre olhares vazios
e sonhos distantes;
mais uma manhã estava nascendo
desconhecidos sentados à mesa do bar
esperando uma sorte que prometia sempre
um hambúguer menos gorduroso.
*para Norman Mailer, falecido em 10 de novembro de 2007
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