Edição 10

A janela

Me Morte

Paulo
era ranzinza, mal humorado. Parecia carregar o desgosto do mundo nas
costas. Por vezes ouvira seu colega de trabalho dizer:
___Relaxa. Já experimentou olhar o amanhecer? O canto dos pássaros? O pôr do sol? Abra a janela da vida meu caro!
___Isso
é coisa de quem não tem o que fazer. Ou de quem enlouqueceu de vez,
prefiro entrar para o Partido Verde... E seguia assim, xingando a mãe
do mundo. Era segunda-feira. O dia conspirava contra ele. Odiava as
segundas-feiras.
___Merda! Ele havia levantado às pressas e
escorregou no skate que o filho mais jovem esquecera no corredor. Caiu
de frente para a janela, estava precisando ser pintada. Por um momento
lembrou do amigo:" Abra a janela...". Abriu.
De cara viu os
carros passando numa correria desenfreada. Buzinas e xingamentos:
"Barbeiro". Uma freada brusca. Uma mulher quase fora atropelada. Mais
na frente uma propaganda de cuecas, um enorme modelo quase nu
desfilando num outdoor. “Mais uma freada brusca:” Vá pra casa motorista
de fogão!" Uma mulher havia ultrapassado o sinal vermelho.
É...Com certeza os pássaros tinham fugido junto com toda a paisagem.
Ele fechou a janela com força e olhando em direção à cozinha gritou:
___ESSA PORRA DE CAFÉ SAI OU NÃO SAI???