Conflito
A porta bate. Música de Beethoven. Conflito doméstico. Pega pelo braço.
-Por que você é tão bonita? Vi como a fulana te olhava. E tu dando confiança.
Desvencilha sem dificuldades.
- Quer saber. Tou cheia. A gota d’água. Nossa árvore já deu fruto.
Mais beleza. Menos músculos. Leva um safanão em câmera lenta.
- Bate mais.
A vítima, mão na cintura, coxas finas, bufando, estalando mandíbulas. Língua sangrando.
- O quê?
Uma faca perto. Servira pro bolo. Melada de chocolate. Ao lado de um consolo.
- O que o quê?
Olhos fuzilando. Punho direito se ajeitando para o porte da lâmina.
- Ah, se eu pudesse prever.
- Esse mundo é mesmo assim. Porca magra não tem rim.
- Você deu o bote, eu caí.
- Você não. Eu sim.
- Agora, fica aí, espalhando o sacramento.
- Um bagulho, graças a ti.
No chão, uma revista erótica mostra uma imagem de Calígula fazendo cuspindo no pênis do seu cavalo.
- Me reduziu a nada.
- Peço o penico e entrego o disco do Pixinguinha. Tchau.
- Espera.
Há muito, a relação perdeu o brilho, rompeu as comportas, arrebentou o cabaço.
A outra não aguardou.
- Depois, volto pra pegar as coisas.
Assumiram
sua condição lésbica, enfrentando a todos. Mas foi indo, foi indo,
gelou. O esfriamento foi paulatino. Surgiram ciclones, furacões, as
lavas do vulcão do desinteresse tomaram tudo.
Rosilene ficara sem gosto para Jovenilda.
Jovenilda, na janela, esquece com facilidade. Flerta com a empregada de buço fino e pernas grossas, na sua medida.
Ela não percebe o avião desgovernado que avança na direção do seu apartamento. Beethoven: TAM TAM TAM TAM.