Décalo
pai e mãe Moisés 13 anos. Olhando a pele pálida branca esticada e sem vida, os olhos fechados, o corpo solto dentro da caixa, o funcionário colocando as flores com a indiferença requerida pela profissão. Mais um sábado perdido enfeitando defunto, deve estar pensando...
me fixo naquelas mãos cruzadas, no terno novo, comprado para a ocasião, que de especial não tem nada. A primeira onde me embarga a garganta e chega leve aos olhos, nariz vermelho e fina camada de lágrima nos olhos. Conto três segundos e chega a segunda onda, mais forte, destruindo toda e qualquer barreira.
Irrompe em um soluço forte que faz o funcionário se intimidar com seu trabalho. Me olha por baixo da aba de seu boné, cabeça baixa no respeito profissional indiferente da sua profissão. Não o vejo, não quero, não posso, só olho para a pele amarelada na minha frente, a imagem do fim.
Vejo o que as lágrimas ainda permitem. Os lábios tremem, cruzo os braços para esconder a convulsão, um chiado surdo atravessa a boca e ganha o ar. Um grito contido de dor, o som que demarcava o antes e o depois. O limite ali, naquele momento, na minha frente.
Uma mão me puxa para o outro lado, de onde nunca mais ninguém pode voltar. Me tira da sala, vejo os parentes se confraternizando como uma festa. A dor é minha, a mão me puxa para si. Me abraça. A mão da mãe, o braço, o colo para onde eu não poderia mais voltar, não depois daquele dia.
A lágrima que molha o colo, a lágrima que sinto na cabeça, lágrimas derramadas pelo mesmo motivo, por ele... Me solto e corro para o carro. Me fecho. Sento no banco do motorista, banco pessoal e intransferivelmente dele. Lugar onde posso chorar, onde posso deixar transparecer para o nada aquilo que não quero mostrar para ninguém, pessoal, intransferivelmente meu.
Moisés 17 anos Ontem encontrei-a dormindo sobre a mesa da cozinha. Passavam das 3 da manhã. Um copo de café já frio, um pedaço de pão passado e muitas, muitas contas. Luz, água, gás, telefone, prestações de uma e outra coisa, IPTU, IPVA e uma multa atrasada – já não existia mais o carro, mas seus fantasmas ainda nos perseguiam.
Ao lado de sua cabeça a calculadora ainda marcando o total. Muito dinheiro. Mais do que ganhava em um mês, mais do que ganhava em dois ou três juntos. Ainda zonza de sono acordou assustada, imaginando que havia perdido a hora. Suas obrigações lhe perseguiam até no sono.
Me olhou com os olhos vermelhos e cansados, sorriu e recolheu a papelada de um braçada só. Foi para o quarto tentando manter o equilíbrio. E eu também. Cheguei vinte minutos mais cedo e fiquei esperando na recepção. Nem a recepcionista havia ainda chegado.
Um ou duas pessoas passaram por mim sem sequer me notar e entraram. Futuros colegas de trabalho. Em poucas semanas conheceria bem aqueles rostos, saberia quais nomes cada um carregava e certamente os odiaria. Office-boy interno, dizia o anúncio. Nunca ouvi falar desse cargo, só o que me chamou a atenção foi a frase “Não precisa de experiência”.
E eu não tinha nenhuma. Mas precisava de dinheiro, muito. Para ajudar a diminuir a papelada jogada em cima da mesa onde mina mãe dormia nas madrugadas preocupadas. A garota da recepção chegou, entrou como todos os outros, me ignorando e depois voltou, sentou, ligou o computador, fez uma ou duas coisas, deu um sorriso para a tela e só então virou-se para mim.
“Pois não?”, com a indiferença requerida pela profissão. Expliquei que havia visto o anúncio e lhe estendi o currículum. Depois de alguns segundos, em que ela passou sorrindo para a tela e digitando alguma coisa, pegou o envelope, rasgou o lado onde não estava aberto e leu.
“Você tem 17 anos?” balancei a cabeça. “Desculpe,” enfiou o currículum de volta no envelope, dessa vez pelo lado certo, e me estendeu de volta. “Não contratamos ninguém em fase de pegar exército,” falou com sua indiferença profissional e voltou a prestar atenção na tela do computador.
Fiquei ainda alguns segundos parado em pé na sua frente, mas ela não percebeu. Soltei um “tchau” sem graça mas ela não respondeu. Voltei para casa com um misto de decepção e angústia no peito. E foi inevitável pensar nele e na falta que nos fazia, assim como foi inevitável amaldiçoá-lo, a ele e a quem o levou, por tudo que estava acontecendo.
De fato, se ele estivesse por ali tudo seria diferente. Tudo seria melhor. Caminhei por duas horas até chegar em casa