Lá na terra do contrário
Comédia-farsesca-absurda
Texto de:
JULIO CARRARA
Escrita em 1996
PERSONAGENS:
FELIPE
NATÁLIA
CORNÉLIO
CHIFRONÉSIA
AMANDA
LEDESMA
BABY
PADRE
COROINHA
RAPAZ DO CLUBE
MOÇAS E RAPAZES
ÉPOCA: Atual
CENÁRIO:
Vários prédios no fundo do palco representando uma cidade grande. Nos
prédios estão acesas algumas luzes de alguns apartamentos. Esse é a
única parte fixa do cenário. O resto do cenário é móvel. Para a
danceteria duas mesas e quatro cadeiras de bar, um globo e strobo. Para
a praça dois bancos de madeira. Para a casa de Chifronésia um sofá de
dois lugares. Para o clube uma cadeira dessas que ficam à beira da
piscina, com guarda-sol e toalhas de banho. Para o ponto de ônibus, um
caibro pintado de verde e escrito “ponto de ônibus” em preto.
PRÓLOGO
(DANCETERIA.
UMA MÚSICA ALEGRE VIBRANTE É OUVIDA NUM VOLUME QUASE QUE ENSURDECEDOR.
AS LUZES PISCAM DE UMA FORMA QUE NÃO DÁ PARA IDENTIFICAR DIREITO QUEM
ESTÁ LÁ. UM GRUPO DE JOVENS ENTRA PELO LADO DIREITO E UM OUTRO
GRUPO PELO LADO ESQUERDO DO PALCO SE ENCONTRANDO NO CENTRO E SE
ENCARANDO. A PRIMEIRA IMPRESSÃO QUE SE TEM, É QUE SE TRATA DE UMA
BRIGA DE “GANGUES”. MAS É UM TREMENDO ENGANO. OS JOVENS QUEBRAM O
CLIMA E COMEÇAM A DANÇAR, OCUPANDO TODOS OS ESPAÇOS DISPONÍVEIS.
NADA PARECE PERTURBAR A ALEGRIA DELES. FELIPE ESTÁ SENTADO NUMA
MESINHA, SOZINHO E MEIO ISOLADO. BEBE E FUMA. ESTÁ NUMA FOSSA
TREMENDA. DE REPENTE, OLHA PARA A PISTA E OBSERVA NATÁLIA, QUE ESTÁ
DANÇANDO NO CENTRO, ANIMADÍSSIMA, COM SUA AMIGA AMANDA. ELA PERCEBE QUE
O RAPAZ ESTÁ OLHANDO PARA ELA E OLHA TAMBÉM. ELE SORRI MALICIOSAMENTE E
DEPOIS PISCA UM OLHO PARA ELA. ELA FINGE QUE NÃO VIU E COCHICHA COM
AMANDA. FELIPE PEGA UM GUARDANAPO E ESCREVE UM BILHETE. PEDE PARA UM
AMIGO ENTREGAR ESSE BILHETE PARA A MENINA. NATÁLIA RECEBE O
BILHETE E LÊ. MOSTRA UMA CERTA SATISFAÇÃO E EXIBE O PAPEL PARA AMANDA.
FELIPE, IMPACIENTE, ESPERA UMA RESPOSTA. NATÁLIA OLHA PARA ELE E ACENA
AFIRMATIVAMENTE COM A CABEÇA. O RAPAZ DÁ UM PULO DE ALEGRIA E SAI,
FELIZ. NATÁLIA, QUANDO PERCEBE A SAÍDA DO RAPAZ, CORRE ATRÁS DELE, MAS
NÃO O ALCANÇA. VOLTA DESOLADA E CAMINHA PARA O LADO ESQUERDO DO
PALCO. TODOS SAEM E A MÚSICA CESSA)
CENA 1
(QUARTO
DE FELIPE E QUARTO DE NATÁLIA. OS QUARTOS DE AMBOS FICAM NO
PROSCÊNIO. NÃO HÁ MÓVEL ALGUM. O DE NATÁLIA FICA À ESQUERDA E O
DE FELIPE À DIREITA DO PALCO. CADA UM TEM O SEU FOCO DE LUZ. FOCO SOBRE
NATÁLIA)
NATÁLIA - (DÁ SEU DEPOIMENTO PARA O PÚBLICO) Tudo começou
no domingo passado numa danceteria. Eu não costumo frequentar
danceterias porque não sei dançar direito, mas estava de saco cheio de
não fazer nada e só fui porque a Amanda insistiu muito... Graças a Deus
que ela insistiu. Se não tivesse ido, não iria conhecer aquele “pedaço
de mal-caminho”. Pena que ele age como todos os outros meninos. Fica
olhando pra gente com uma cara de bobo e depois dá uma piscadinha. Que
cantada mais furada! E ainda me escreveu um bilhete marcando um
encontro numa pracinha perto do colégio. Ainda estou indecisa. Não sei
se vou ou não vou. Não sei se vai valer a pena. Mas que esse carinha
mexeu comigo, isso mexeu. Ele marcou o encontro pra hoje às nove
horas da noite. Vou precisar matar aula... Mas o maior problema é
que eu não fiquei com nenhum menino antes. Pra vocês terem uma idéia,
eu nunca beijei nenhum garoto na boca Ai, tremo só de pensar como
vai ser... Ah, se pelo menos eu fosse homem. Talvez as coisas seriam
diferentes...
(APAGA O FOCO DE NATÁLIA. FOCO EM FELIPE)
FELIPE-
Eu tava em casa, vendo TV, quando chegou um amigo meu e me
convidou pra ir na danceteria. Eu tava um bagaço. Tinha trabalhado e
estudado a semana inteira e queria ficar em casa descansando e
vendo as baboseiras de todo domingo na TV. Mas ele acabou me
convencendo e fomos pra lá. E valeu a pena porque acabei conhecendo
aquela gatinha... Uh, fiquei louco!!! No bilhete que escrevi pra ela,
marquei um encontro pra hoje à noite... Tenho medo que ela não
apareça!.. Gozado, nunca senti por ninguém o que eu sinto por ela. Não
dá pra dizer com palavras... Espero que ela não seja como essas meninas
vulgares que a gente encontra toda a hora... Algo me diz que ela tem
alguma coisa que as outras não têm e que tá me deixando louco... Mas se
ela for como as outras, juro que nunca mais vou correr atrás de mulher.
Nunca mais!
(APAGA O FOCO DE FELIPE)
CENA 2
(PRAÇA PÚBLICA. É NOITE. MOVIMENTAÇÃO HABITUAL. ENTRAM EM CENA COM CADERNOS E LIVROS NAS MÃOS NATÁLIA E AMANDA)
AMANDA- Ô Natália era só o que faltava, eu ficar aqui de vela no dia do seu primeiro encontro com aquele carinha...
NATÁLIA
- É que eu preciso de segurança, Amanda. Só de pensar
naquele gostosinho, começo a tremer. Olhe como minhas mãos estão
suadas. (IMPACIENTE) Ah, não quero ficar aqui, não. Vamos embora,
vai.
AMANDA - (FURIOSA) Essa não, Natália, por sua causa eu matei
aula e você sabe que eu tô fodida em Matemática. E aquele viado
do professor não vai com a minha cara e pode até me reprovar. Se
você der mancada comigo e desistir , você vai ver...
NATÁLIA - Então volta lá. Vai assistir à aula de Matemática, vai.
AMANDA - Tudo bem, eu vou voltar. Mas nunca mais conte comigo, viu, sua grossa! (LEVANTA)
NATÁLIA - (PUXA AMANDA PELO BRAÇO, CONFIDENCIAL) Amanda, você tá menstruada!
AMANDA - (APAVORADA) O quê? Menstruada?
NATÁLIA - É, mas por que esse espanto? Vai dizer que você...
AMANDA - (SEM JEITO) Bem...
NATÁLIA - (ADMIRADA; FALA ALTO) Você nunca ficou menstruada???????????
(AS PESSOAS QUE ESTÃO NA PRAÇA OLHAM PARA AS MENINAS)
AMANDA - Natália, você não vai contar isso pra ninguém, né?
NATÁLIA
- Pode ficar sossegada... Bem, vamos pra minha casa. Não tem
ninguém lá, lhe explico tudo a respeito da menstruação e te empresto um
modess. (NATÁLIA TIRA SUA JAQUETA E OFERECE PARA A AMIGA) Põe a jaqueta
na cintura pra disfarçar e vamos embora, vai...
AMANDA - Mas e o carinha?
NATÁLIA - Fica pruma próxima. Quando acontecem esses imprevistos, é porque o relacionamento não ia dar certo...
(SAEM.
DO LADO OPOSTO SURGE FELIPE. ELE OLHA PARA O RELÓGIO, VERIFICA SE
NATÁLIA ESTÁ NA PRAÇA, ANDA DE UM LADO PARA O OUTRO, VOLTA A OLHAR NO
RELÓGIO. SENTA-SE NO BANCO. ESTÁ IMPACIENTE. TIRA UM CIGARRO DO BOLSO.
FUMA. DÁ TRÊS OU QUATRO TRAGADAS E O JOGA NO CHÃO, PISANDO EM CIMA.
DEPOIS CAMINHA ATÉ O SEU FOCO, QUE O ISOLA)
FELIPE - Puta mancada!
Eu estava tão ansioso pra ver ela de novo e ela dá esse furo?! Fiquei
como um trouxa, um panaca esperando por ela... Queria nunca mais me
apaixonar. Mas se eu encontrar com ela novamente, ela vai ter que me
dar uma boa, mas uma boa desculpa mesmo. (APAGA O FOCO DE FELIPE E DO
OUTRO LADO ACENDE O FOCO DE NATÁLIA)
NATÁLIA - Eu não tive culpa.
Como podia adivinhar que justo naquele dia a Amanda fosse ficar
menstruada? Eu não podia deixar ela sozinha, não é? Foi mancada minha,
eu sei. E agora, o que será que ele está pensando a meu respeito? Que
sou uma furona, irresponsável, uma garota indecisa que não sabe o
que quer?!... Não vejo a hora de me encontrar com ele e esclarecer
tudo. Oh, mundo cruel...
(APAGA O FOCO)
CENA 3
(CASA
DE CHIFRONÉSIA. ELA ESTÁ VARRENDO A CASA. ESTÁ MAL VESTIDA, COM CREME
NO ROSTO, BOBS NO CABELO E CHEIA DE PREGADORES DE ROUPA NO AVENTAL.
TOCA A CAMPAINHA. ELA VAI ATENDER. É O ENCONTRO DE BUFÕES. ENTRA
CORNÉLIO, UM CAIPIRA. ELE É ALTO, MAGRO, CABELO VERMELHO, COM OS DENTES
PODRES, PERNAS TORTAS E PEITO-E-POMBO. USA TAMBÉM UM ÓCULOS FUNDO DE
GARRAFA. ELA SE ASSUSTA)
CHIFRONÉSIA - Quem é o senhor? (ELE PÁRA E
FICA OLHANDO PARA ELA) O que é isso? Por que é que o senhor está me
olhando dessa maneira?
CORNÉLIO - É que eu tô que num güento mai de vontade de casá. A sinhora num qué sê minha marida?
CHIFRONÉSIA- Se o senhor repetir essa bobagem eu chamo a polícia. Fique quieto!
CORNÉLIO
- Mai ficá quieto na frente da sinhora eu num güento... Se a sinhora
pará num sinar de trânsito, ninguém mai vai passá...
CHIFRONÉSIA - Por quê?
CORNÉLIO - Ah, o sinar vai ficá vermeio pra tudo os lado, né?
CHIFRONÉSIA - (RI) O senhor é engraçado!
CORNÉLIO
- Engraçado é ligá ventiladô em piquenique de baiano, né? Só farofa que
avoa!... (CHARMOSO) Sabe que a sinhora é bunitona? Se fosse um porco
dava pra fazê uns quinhentos metro de lingüiça... Ah, dona-muié, casa
com eu. Tô tão doido de vontade de casá que inté tô ficano um bestaião.
CHIFRONÉSIA - Eu não. Vou casar com um moço que é uma jóia... Ele é contador...
CORNÉLIO - Ah, se qué marido pá contá pega eu, né, qui eu sei contá inté vinte!
CHIFRONÉSIA - Então fugiu da escola!
CORNÉLIO - Fugi coisa ninhuma. Só de jardim da infância fiz uns oito ano.
CHIFRONÉSIA - ...E o senhor não tem namorada?
CORNÉLIO - Quando eu tive a úrtima namorada o Corcovado inda era um montinho de areia... E o Minhocão uma minhoquinha...
CHIFRONÉSIA - Onde foi que o senhor aprendeu tanta bobagem?
CORNÉLIO - Lá na minha casa. A sinhora num qué conhecê minha casa pra vê se serve prá mora lá como minha marida?
CHIFRONÉSIA - Mas o senhor é horrível! Parece uma bananeira...
CORNÉLIO - A sinhora num qué virá macaco e me estraçaiá, dona?
CHIFRONÉSIA- Chiii, essa conversa tá engrossando! Acho melhor parar por aqui... E o senhor é um caipira!
CORNÉLIO - Frango tamém é caipira, né, mai ele dá suas bicada...
CHIFRONÉSIA- Chega. O senhor perdeu o seu tempo comigo... Vá embora daqui.
CORNÉLIO
- (TRISTE) Num faiz mar, puxa vida, num faiz mar... Um dia eu acerto e
caso cuma muié que nem que seja de prástico... Eu já tentei com uma.
Mas na nossa primeira noite de amor, ela já me decepcionou. Deitei ela
de bruço, agarrei e quando dei uma mordida na bunda dela, ela soltou um
peido na minha cara e ainda saiu voando pela janela...
CHIFRONÉSIA -
(PARA O PÚBLICO) Como é chato ser gostosa. (O CAIPIRA VAI SAINDO)
Espera... (ELE PÁRA) eu aceito me casar com o senhor...
CORNÉLIO - (FELIZ) Iuhh! Num falei? Falam di mim, mai eu num nego fogo!
(PEGA CHIFRONÉSIA NOS BRAÇOS, LIMPA A BOCA COM A MÃO E LHE BEIJA, FAZENDO UM ENORME BARULHO. BLACK-OUT)
CENA 4
(FOCO
SOBRE FELIPE. ELE ESTÁ DEITADO NO CHÃO, SEM CAMISA E COM UM MINÚSCULO
SHORT. ESTÁ DORMINDO E TENDO UM SONHO ERÓTICO. SE MASTURBA. DO SEU LADO
ESTÁ UMA MULHER. ELA ESTÁ DE CALCINHA E SUTIÃ E PROVOCA O RAPAZ. ELA
DEVE ESTAR ILUMINADA POR UMA CONTRA-LUZ AZUL. OUVE-SE BATIDAS NA PORTA
DO QUARTO DO RAPAZ)
MÃE DE FELIPE - (VOZ EM “OFF”) Felipe, acorda!!!!!! Tá na hora de ir pro colégio...
FELIPE-
(ACORDANDO ASSUSTADO. A MULHER DESAPARECE) Saco!!! Já vou mãe!... (PARA
A PLATÉIA) Porra, essa garota não sai da minha cabeça. Fico
virando na cama, de um lado para o outro, só pensando nela!!! Naquela
pele macia, naqueles lábios, naquele olhar... Até quando vou ficar
nessa agonia?
(APAGA O SEU FOCO E ACENDE O FOCO DE NATÁLIA QUE
CONVERSA COM LEDESMA, UMA GAROTA QUE FOI PICADA PELA MOSCA TSÉ-TSÉ, A
MOSCA DO SONO E VIVE SONÂMBULA)
NATÁLIA - ...Até quando, Ledesmaçã
LEDESMA - (BOCEJA, FALANDO MOLE) E eu sei lá!
NATÁLIA
- Não consigo parar de pensar nele. Onde quer que eu olhe eu vejo ele:
no meu caderno, no prato de comida, no vaso sanitário... Em tudo que é
lugar!
LEDESMA - Quem mandou se apaixonar?
NATÁLIA - Eu não tive culpa, Ledesma. Rolou, não deu pra segurar...
LEDESMA - Você acha que ele te esqueceu? (VAI DEITANDO NO CHÃO)
NATÁLIA-
Não sei. O que sei é que não sei quando vou ver ele de novo... Ai, o
amor é um sentimento tão filho da puta. A gente ama e não é
correspondida. Fica dias, semanas, meses, anos esperando pela
pessoa amada, e ela nem sabe que você existe! Mas o meu caso foi
diferente. Fui eu que furei. (FURIOSA) Droga, justo naquele dia tinha
que chover na horta da Amanda?? (LEDESMA ESTÁ DORMINDO E RONCANDO) Ô,
mosca-morta... Ih, o casamento do Cornélio com a Chifronésia é hoje!!!
(FOCO DESCE EM RESISTÊNCIA ATÉ O BLACK-OUT)
CENA 5
(MÚSICA
DE CASAMENTO: “CARRUAGENS DE FOGO”. LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA REVELANDO
UMA IGREJA. O PADRE ESTÁ NO CENTRO DO PALCO COM UMA BÍBLIA NA MÃO. DO
SEU LADO ESTÁ O COROINHA OUVINDO JOGO DE FUTEBOL NUM RADINHO DE PILHA.
O PADRE, VEZ OU OUTRA PEDE PARA ESCUTAR PARA SABER O RESULTADO DO JOGO.
LEDESMA ESTÁ COM AMANDA E NATÁLIA E DORME NO OMBRO DE NATÁLIA.
CHIFRONÉSIA ESTÁ À ESPERA DO NOIVO NO ALTAR, TRAJANDO TERNO E GRAVATA,
UM BERMUDÃO DO HAWAI E UM SAPATO DE BOIADEIRO. ELA ESTÁ BRINCANDO COM
UM “MINI-GAME”. LUZ NA PLATÉIA. CORNÉLIO APARECE NO FUNDO TRAJANDO UM
VESTIDO DE NOIVA E SEGURA UM ESPANADOR DE PÓ NO LUGAR DO BUQUÊ DE
FLORES. SEUS PASSOS SE ASSEMELHAM AOS DOS ATLETAS NA CORRIDA DE
SÃO-SILVESTRE, SÓ QUE ELE REALIZA ESSES MOVIMENTOS EM CÂMERA
LENTA. ATRAVESSA A PLATÉIA E SOBE AO PALCO. CHIFRONÉSIA ENTREGA O
MINI-GAME A NATÁLIA, QUE CONTINUA O JOGO. O PADRE REALIZA A CERIMÔNIA,
FAZ TODAS AS PERGUNTAS NECESSÁRIAS E APÓS DECLARAR O TRADICIONAL “EU
VOS DECLARO MARIDO E MULHER”, FICA ATENTO AO RADINHO E GRITA:
“GOOOOOOOOOOLLLLLLL”. TODOS SE ASSUSTAM. CORNÉLIO JOGA O ESPANADOR E
DUAS MOÇAS DISPUTAM A POSSE DO MESMO. NA SAÍDA, OS CONVIDADOS
JOGAM FEIJÃO NOS NOIVOS, QUE SAEM. UMA MÚSICA BREGA É TOCADA E
TODOS DANÇAM, FAZENDO COREOGRAFIAS DE ACORDO COM A MÚSICA, ATÉ
DESAPARECEREM. NATÁLIA COMEÇA A RIR SEM CONTROLE E LEDESMA, QUE TINHA
DESABADO NO CHÃO, ACORDA E VAI ATÉ A AMIGA)
LEDESMA - Do que você tá rindo, Natália?
NATÁLIA
- (RINDO SEM CONTROLE) É muito engraçado, Ledesma. Eu queria ser uma
mosca só pra saber como vai ser a noite de núpcias deles. Deve ser a
maior comédia...
CENA 6
(TOCA A MÚSICA “DOCINHO, DOCINHO”
NA VITROLA. CORNÉLIO E CHIFRONÉSIA ADENTRAM NO PALCO, UM PELO LADO
ESQUERDO E OUTRO PELO DIREITO. CHIFRONÉSIA ESTÁ COM UMA CAMISOLA
HORROROSA E CORNÉLIO AINDA ESTÁ VESTIDO DE NOIVA. COMEÇAM A DANÇAR E
VÃO SE DESPINDO FICANDO APENAS COM A ROUPA DE BAIXO. CORNÉLIO FICA SÓ
DE CEROULA E PERCEBE-SE UM ENORME CORAÇÃO NA PARTE TRASEIRA DESTA COM
UMA FLECHA ATRAVESSANDO-O. CORNÉLIO CORRE ATRÁS DA MULHER QUE, MEIO QUE
FOGE. A SITUAÇÃO SE INVERTE E AGORA É ELA QUE CORRE ATRÁS DELE.
QUANDO CONSEGUE AGARRÁ-LO, JOGA-O NO CHÃO E PULA EM CIMA DELE.
BLACK-OUT)
CENA 7
(LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA. NATÁLIA ESTÁ NO CENTRO DO PALCO E CONTINUA RINDO)
NATÁLIA- Deve ser muito engraçado, Ledesma.
FELIPE
- (DIRIGINDO-SE A LEDESMA) Ô garota, você não viu o... (A GAROTA DESABA
NO CHÃO. O RAPAZ FICA SURPRESO AO VER NATÁLIA) Você?
NATÁLIA- Sim, sou eu... (REPETE COMO FELIPE) Você?
FELIPE - Sim, sou eu. Pensei que nunca mais fosse te encontrar.
NATÁLIA - Pois é. (O DIÁLOGO DOS DOIS DEVE SER MONÓTONO, POIS PROCURAM ASSUNTO PARA CONVERSAR)
FELIPE - Você não foi na praça, né?
NATÁLIA- Pois é. Eu fui, mas uma amiga tava junto comigo e o chico dela chegou...
FELIPE - Chico? Quem é Chico?
NATÁLIA
- (À PARTE) Ih, falei bobagem. (TENTA CONSERTAR) O chico é o... é o...
ah, meu Deus... é o... ah! é o namorado da minha amiga... Pois é.
FELIPE - O dia está quente, né?
NATÁLIA - Eu acho que vai chover.
FELIPE - Mas não tem nenhuma nuvem carregada no céu...
NATÁLIA - Nunca se sabe...(SILÊNCIO) ) Você se chama Felipe, não chamaçã
FELIPE - E você Natália, não é?
NATÁLIA - Hum, hum... (SILENCIO MORTAL)
FELIPE - Natália (APONTA O CÉU) o que é aquilo?
(NATÁLIA
OLHA PARA CIMA E FELIPE DÁ UM BEIJO NA SUA BOCA. A GAROTA SE ASSUSTA E
QUANDO ELE AFASTA SEUS LÁBIOS DOS LÁBIOS DELA, ELA O AGARRA E LHE BEIJA
APAIXONADAMENTE. O RAPAZ CHEGA A FICAR ROXO, VAI PERDENDO O FÔLEGO E
SOLTA UM PEIDO BARULHENTO. SE SOLTA DA GAROTA, INCOMODADO)
NATÁLIA - O que foi, Felipe?
FELIPE - Natália... peido pesa?
NATÁLIA
- (PENSA) Hum... pelas leis da Física... deixa eu ver... O peido
é constituído de gases. Uns fedem e outros não, uns são barulhentos e
outros silenciosos, uns são peidos secos e os outros peidos molhados...
Acho que só os peidos molhados pesam... Por quê?
FELIPE - Então eu acho que fiz besteira. Tchau, Natália.
NATÁLIA - Pega o meu telefone!
FELIPE - Não, hoje não. Me encontre amanhã no Clube de Campo, na piscina lá pelas três horas da tarde...
NATÁLIA - Eu te espero.
(FELIPE SAI CORRENDO. NATÁLIA CORRE PARA O SEU FOCO PULANDO DE ALEGRIA)
NATÁLIA
- Eu beijei, beijei. Dei o meu primeiro beijo. Foi o maior beijaço!!!!
Coitado do Felipe, até cagou na calça... (PARA A PLATÉIA) Sentiram o
poder da gostosa aqui?! (SUSPIRA) Pelo menos agora eu sei o que é
beijar. Não vou precisar ficar mentindo para as minhas amigas...
Eu sei que elas também nunca beijaram. Que sensação estranha! O
beijo até que era bom, quentinho e molhadinho. O que mais me incomodou
foi aquela língua assanhada, que quase me deixou engasgada.
(APAGA O SEU FOCO. ACENDE O FOCO DE FELIPE)
FELIPE
- (ANGUSTIADO) Tem uma coisa que está pesando na minha consciência...
Há alguns meses eu... Bem, é difícil conversar com alguém sobre esse
assunto. É um assunto muito delicado. Um assunto que não tive coragem
de falar pra ninguém. Nem com os meus pais. Acho que se eles soubessem
disso, me colocavam pra fora de casa. O problema é relacionado a
minha... identidade sexual. A Natália nunca vai me perdoar. Vai levar
um choque quando souber que eu sou... bicha! Pô, é difícil explicar.
Nunca consegui sentir atração por menina nenhuma, mas quando via um
menino, subia pelas paredes de tanto tesão. Até o dia em que um amigo
meu tirou aquele pau duro da cueca e pediu pra que eu o masturbasse.
Fiquei com medo, mas realizei meu desejo. A gente se via frequentemente
e transamos uma vez, depois uma segunda, uma terceira, uma quarta, uma
quinta, uma sexta, um sábado, um domingo... Eu procurei sair com
meninas, mas na hora H o “bicho” não se animava e eu passava a maior
vergonha... Até pensei que me transformaria num homem, pois me amarrei
na Natália. Eu tava conseguindo, quando de repente aparecem os
fantasmas do passado. É foda você ficar com uma menina e estar pensando
num cara... A Natália é uma garota especial e preciso me abrir com ela
e ver se ela me entende. Seria bem pior se eu contasse pra ela depois
de estarmos namorando sério. Aí... aí eu não iria me perdoar nunca. Não
dá pra tapar o sol com a peneira. Amanhã vai ser um dia infernal
pra mim...
(CHORA. FOCO DESCE EM RESISTÊNCIA)
CENA 8
(ENTRA
CORNÉLIO COM UMA ENORME BARRIGA. ELE ESTÁ SENDO AUXILIADO POR
CHIFRONÉSIA, POIS A BARRIGA PARECE ESTAR PESADÍSSIMA. ESTÁ COM UM
VESTIDO DE GESTANTE E FAZ A RESPIRAÇÃO DE CACHORRINHO. A CABEÇA DA
CRIANÇA JÁ APARECE. CHIFRONÉSIA PÕE O MARIDO DEITADO NO CENTRO)
CORNÉLIO - Ai, Chifrô, chama arguém pá me ajudá. A borsa estorô e o bacuri já vai nascê.
CHIFRONÉSIA- Calma, meu amor, vou ver se chamo alguém...
CORNÉLIO - Rápido que tá nasceno. Ai, num guento mai.
(ENTRAM AMANDA E LEDESMA)
CHIFRONÉSIA - Ledesma, ajuda que o meu filho tá nascendo.
LEDESMA - Mas o que vou fazer. Eu não sou parteira.
CORNÉLIO - Ai, vai nascê.
AMANDA - (ESTRANHA) Ei, Chifronésia não era pra você ter a criança?
CHIFRONÉSIA- Era, né. Mas não sei o que aconteceu que ele é quem acabou engravidando.
(LEDESMA DORME NUM CANTO)
AMANDA
- Só gostaria de saber por onde a criança vai nascer... (VAI XERETANDO,
AO VER QUE A CRIANÇA ESTÁ SAINDO PELO ÂNUS DE CORNÉLIO) Ah, meu
Deus.
CORNÉLIO - Ai, tá nasceno.
CHIFRONÉSIA - Pega a criança, Ledesma. (A MULHER VÊ LEDESMA DORMINDO E FICA BRAVA)
AMANDA - Deixa eu pego a criança.
(CORNÉLIO
GRITA E A CRIANÇA NASCE. NO ÁUDIO O SOM DE UM PEIDO ENSURDECEDOR.
A CRIANÇA SAI DE DENTRO DELE COMO UMA ROLHA DE GARRAFA DE CHAMPANHE
QUANDO É ABERTA. COMO UMA BOLINHA DE BORRACHA, BATE NA PAREDE QUICANDO
DE UM LADO PARA O OUTRO E CAI NO COLO DE LESDEMA, QUE ACORDA. TODOS
TAPAM O NARIZ DEVIDO AO ODOR. O BEBÊ É VERDE, TEM OS DENTES
PODRES, BARBICHAS E DUAS ANTENINHAS DE MARCIANO)
AMANDA - (CAI DURA)
Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o que é isso? Deus que me
perdoe, mas isto não é uma criança, é um ET!
BABY - (ENGATINHA PARA CHIFRONÉSIA) Eu quero chupar uma teta.
CHIFRONÉSIA - (TRAZ BABY PARA O OUTRO LADO DO PALCO) Meu filhinho querido do coração da mamãe, ai que gutegute.
AMANDA
- Não faz isso, Chifronésia que não foi cortado o cordão.. (O CORDÃO
UMBILICAL ESTÁ ESTICADO E TEM MAIS OU MENOS TRÊS METROS DE COMPRIMENTO.
AMANDA VAI FALANDO E PONDO A MÃO NELE) ...um-bi-li-cal! (DESMAIA)
CORNÉLIO
- Corta o “imbigo”, Chifrô... (CHIFRONÉSIA PEGA DA MALA UMA TESOURA DE
JARDINEIRO E O CORTA) Ô porquera do pai...
BABY - Baby que tetê...
CORNÉLIO- (TIRA SEU SUTIÃ. UM ENORME PEITO FLÁCIDO CAI NA BOCA DO FILHO) O pai tem bastante leite.
(O MENINO MAMA BASTANTE. APÓS A REFEIÇÃO SOLTA UM ENORME ARROTO. BLACK-OUT)
CENA 9
(CLUBE
DE CAMPO; À BEIRA DA PISCINA. NATÁLIA ESTÁ SENTADA NUMA CADEIRA, DE
BIQUINI E COM UM RAIBAN PRENDENDO O CABELO. LÊ UMA REVISTA. ESTÁ
ESPERANDO FELIPE CHEGAR. SEU OLHAR POSSUI UM BRILHO ENORME. SEM QUE ELA
PERCEBA, FELIPE APARECE TRAJANDO UMA SUNGA, E FICA OBSERVANDO-A, ATÉ
TOMAR CORAGEM E SE POR NA FRENTE DELA)
NATÁLIA - (ABRAÇANDO-O, SORRIDENTE) Felipe, meu amor...
FELIPE - (SE SOLTA DELA; FRIO) Não me abrace, Natália.
NATÁLIA - (ESTRANHANDO) Por quê?
FELIPE - Eu preciso te dizer uma coisa muito importante...
NATÁLIA - Fala.
FELIPE - (MEIO EMBARAÇADO) Eu quero terminar com você.
NATÁLIA - Mas a gente nem começou direito... E por quê?
FELIPE - (PROCURA UMA RESPOSTA) Porque... porque... porque eu não sinto mais nada por você. Estou apaixonado por outra menina...
NATÁLIA
- Bem, se você quer assim... (MENTE) Ainda mais agora que eu tava
saindo com o... (NÃO ENCONTRA O NOME) Com o... com o... com o...
FELIPE - Com o...?
NATÁLIA - Ninguém. Eu tô saindo com o NINGUÉM.
FELIPE - Tenta me entender, Natália. Você é bonita, legal, inteligente, mas não serve pra mim...
NATÁLIA-
Tudo bem, Felipe... E fique sabendo que tem mais de mil homens querendo
me namorar. Pena que eu ainda não os encontrei! (CHORA E ABRAÇA FELIPE)
Por que você fez isso comigo, hein?
FELIPE- Não chora, Natália. Não chora senão eu choro também... (ASSOA O NARIZ NO OMBRO DELA)
NATÁLIA-
Não consigo compreender. A gente tava tão bem! Lembra quando a gente se
beijou pela primeira vez? A emoção que você sentiu foi tanta que até
cagou na calça, lembra?
FELIPE- Natália... Eu... eu... jogo água fora da bacia...
NATÁLIA - O quê?
FELIPE - Jogo em outro time.
NATÁLIA - Não sabia que você jogava num time... Que interessante. É time do quê? Futebol, vôlei, basquete...
FELIPE - Não é nada disso, porra...
NATÁLIA - Então o que é?
FELIPE
- (RÁPIDO) Eu sou bicha... É isso, pronto, falei! (MAIS DEVAGAR) Eu sou
bi-cha! Sou mona! Gosto de dar ré no quiabo, sentar no pepino...
NATÁLIA- (CHOCADA, AGE COMO QUEM RECEBEU UMA PAULADA NA CABEÇA) O quê?
FELIPE
- É isso mesmo, Natália. Você não faz idéia do que estou passando
agora. Você seria a última pessoa do mundo que eu queria magoar. Eu
pensei que fosse sentir mais tesão por você, mas não consegui... Queria
que me perdoasse!
NATÁLIA - Perdoar! Eu não tenho nada que te perdoar.A escolha é sua, bicha...
FELIPE
- Então vai um convite... À noite eu trabalho numa boate gay, e
meu nome artístico é Odete Furacão.. (SOLTA A FRANGA) Menina, tem
cada bofe lá. Cruzes!!!! Fico doidinha ao ver o tamanho das necas.
(VOLTA A SI) Desculpa por não ser o macho que você gostaria que eu
fosse. Eu te iludi! Desculpa. (ESTENDE A MÃO) Amigas, então?
NATÁLIA - (ABRAÇA-O) Amigas! Você é sensacional!
FELIPE - Você também.
(AMBOS
CHORAM. FELIPE VAI SAINDO LENTAMENTE E ELA FICA SENTADA, CHORANDO EM
SILÊNCIO. ENTRAM LEDESMA E AMANDA CONDUZINDO BABY, QUE TEM NO PESCOÇO O
CORDÃO UMBILICAL FEITO COLEIRA DE CACHORRO)
LEDESMA - (AO VER NATÁLIA) Olha a Natália ali, Amanda.
AMANDA- É mesmo... Nossa, ela tá com uma cara tão esquisita. O que será que aconteceu?
LEDESMA - (BOCEJANDO) Acho que brigou com o namorado.
(BABY ENGATINHA ATÉ NATÁLIA, QUE NÃO O VÊ)
AMANDA - Ué, cadê o Baby? (PROCURA) Baby, Baby. Onde esse menino se meteu, meu Deus?!
(BABY CUTUCA NATÁLIA E ELA AO VÊ-LO, GRITA ASSUSTADA. O MENINO COMEÇA A CHORAR)
AMANDA
- (ENCONTRANDO-O) Ô Baby, você está aqui... (PARA NATÁLIA) Oi, Natália,
não se assuste. Esse aqui é o Baby, o filho do Cornélio com a
Chifronésia. (PARA BABY, QUE SOLUÇA) Calma, calma. Ai, meu Deus, e a
Chifronésia que não aparece? E você, Natália, o que está fazendo
sozinha aqui?
NATÁLIA- Vim me encontrar com o Felipe, mas... a gente terminou.
AMANDA - Mas, por quê? Vocês estavam tão bem!
NATÁLIA- Ele não curte mulher...
AMANDA
- (TENTANDO ENTENDER) Peraí, você tá querendo me dizer que aquele deus
grego, todo musculoso... que aquele gostoso... é gay?
NATÁLIA- Pois é.
AMANDA
- (SUSPIRA) Ai, que desperdício! Como é que pode, hein? Tem tão pouco
homem no mundo e os que ainda restam são florzinhas... Imagine,
Natália, dois homens se beijando, os pêlos das coxas se enroscando e
aquela coisa dura entrando no... (COM ÂNSIA) Ainda bem, Natália que ele
foi sincero. Imagina se quando vocês fossem para cama, em vez de
cumprir seu papel, ele virasse o rabinho e pedisse para você enfiar o
dedinho? ... (VOLTA A SI) Desculpe... Mas me diga, como isso é
possível?
NATÁLIA - Nem eu mesma sei. Mas não quero conversar sobre
isso. Pretendo esquecer tudo... Ledesma, você passa o bronzeador
em mim?
(LEDESMA QUE ESTAVA DORMINDO, ACORDA E COMEÇA A PASSAR O
BRONZEADOR NA MENINA. APARECE UM RAPAZ ALTO E ATLÉTICO E FICA
OBSERVANDO NATÁLIA. AMANDA CAMINHA ATÉ ELE E COCHICHA ALGO EM SEU
OUVIDO. ELE SORRI, MALICIOSO.AMANDA TIRA O BRONZEADOR DAS MÃOS DE
LEDESMA E ENTREGA ESTE AO RAPAZ, QUE IMEDIATAMENTE FAZ A TAREFA QUE
LEDESMA ESTAVA FAZENDO, E COLOCA LEDESMA PERTO DE UMA CADEIRA. A GAROTA
IMEDIATAMENTE “CAPOTA” POR CIMA DA CADEIRA E DORME)
AMANDA -
Natália, você me desculpa, mas eu preciso ir embora. Tenho que levar o
Baby pra mamar. O Cornélio já deve ter chegado.
NATÁLIA- Mas não é a Chifronésia a mãe dele?
AMANDA - É, mas quem amamenta é o Cornélio. Tchau, amiga. A Ledesma vai ficar aí te fazendo companhia...
(AMANDA SAI PUXANDO BABY PELO CORDÃO UMBILICAL. O RAPAZ CONTINUA PASSANDO O BRONZEADOR NAS COSTAS DE NATÁLIA)
NATÁLIA
- (PENSA QUE QUEM ESTÁ LÁ É LEDESMA) Ledesma, como sua mão é grande e
caleijada. Nossa, que pegada gostosa, Ledesma. Ai, que delícia...
(OLHA PARA A PERNA DO RAPAZ, SE ASSUSTA) Nossa, Ledesma que perna
grossa e... peluda. Quanto tempo você não se depila? (O RAPAZ
SEGURA A RISADA) Se você quiser, vamos lá em casa e eu faço uma
depilação pra você com cera quente!. (FICA ARREPIADA) Ai, Ledesma, que
mão pesada... tô toda arrepiada... Desse jeito eu vou virar
sapatão... (TEM UMA CRISE SUCESSIVA DE ARREPIOS.
RELAXA) Por que você tá quieta, Ledesmaçã (AO VER O RAPAZ, SE
ESPANTA) Que gato!!!
(DESMAIA NOS BRAÇOS DELE. O RAPAZ SAI DE CENA CARREGANDO A GAROTA COM UM SORRISO MAROTO. BLACK-OUT)
EPÍLOGO
(LUZ
SOBE EM RESISTÊNCIA. VEMOS FELIPE NO PONTO DE ÔNIBUS VESTIDO COMO ODETE
FURACÃO. VESTIDO CURTO, MEIA-CALÇA, SALTO ALTO E UMA PERUCA LOIRA. LIXA
AS UNHAS. ENTRA CORNÉLIO E AO VER AQUELE “PEIXÃO”, FICA BOQUIABERTO. O
CAIPIRA CAMINHA ATÉ FELIPE E BELISCA SUA BUNDA)
FELIPE - (FALA COMO
ODETE) Ai ,atrevido! (AO VER CORNÉLIO) Que horror! Meu senhor, há
quanto tempo o senhor não escova os dentes, hein? O seu bafo está pior
do que o bafo de dinossauro! Sai de perto de mim, sai.
CORNÉLIO - Mai nunca. Isso aí é muié de esvaziá o Pacaembú em dia de jogo de São Paulo e Corinthians, né?
FELIPE-
Se o senhor continuar me enchendo o saco eu chamo o meu bofe e
ele vai te quebrar a cara, ouviu, seu trash? Não tô podendo, ouviu?
CORNÉLIO - Ouvi, mai num me importo. Pra ficá cocê largo inté a Chifronésia e o Baby que acabou de nascê.
FELIPE-
E quem disse que a mona aqui vai ser louca o suficiente pra casar com o
senhor. Se me casar com você terão que me internar no Hospital dos
psiquiátricos, porque aí vou estar pinel de vez. Desaqüenda,
vai... Se não tem aqüé, desaquenda...
CORNÉLIO - (AGARRA O RAPAZ) Ocê vai casá cumigo custe o que custá, muierão bão...
FELIPE
- Me solta seu caipira fedorento. Me solta, seu rascunho do demônio.
Socorro... Polícia. Pára de me assuntar, seu ocó trash.
CORNÉLIO - Vou te levá pra casa!
FELIPE - (CONSEGUE SE SOLTAR) Mas antes preciso lhe esclarecer algumas coisas... Primeiro: meus cabelos não são da cor natural.
CORNÉLIO - Num faiz mar.
FELIPE-
(PROCURA SEMPRE UMA DESCULPA PARA SE SAFAR) Eu fumo, fumo o tempo todo.
Pareço uma maria-fumaça: Piuí... tchuc, tchuc, tchuc, tchuc...
(IMITA UMA MARIA-FUMAÇA) Piuí....
CORNÉLIO - Num me importo.
FELIPE - Eu tenho um bofe. Vivo há três anos com um guitarrista de punk-rock.
(FAZ OS GESTOS DE QUEM TOCA GUITARRA E TIRA SONS DESCONEXOS DA BOCA)
CORNÉLIO - Num sô ciumento...
FELIPE - (FAZ UM DRAMALHÃO MEXICANO) Nunca poderei ter filhos...
CORNÉLIO - A gente adota uns par deles.
FELIPE- (PERDE A PACIÊNCIA) Ô anta, você não entende... (TIRA A PERUCA E ENGROSSA A VOZ) Eu sou homem...
CORNÉLIO- (PEGA FELIPE NO COLO E DIZ COM A MAIOR NATURALIDADE) Mai ninguém é perfeito...
FELIPE - (OLHA PARA A MÃO) Ai...
CORNÉLIO - O que foi, muié?
FELIPE - Quebrei minha unha!!!!
(CORNÉLIO
SAI COM FELIPE NOS BRAÇOS, QUE ESPERNEIA. TODOS OS JOVENS INVADEM O
PALCO E FAZEM A MESMA COREOGRAFIA DA CENA DA DANCETERIA NO PRÓLOGO. ATÉ
CHIFRONÉSIA E BABY ENTRAM NA DANÇA. ESTÃO FELIZES, À EXCEÇÃO DE FELIPE,
QUE FOI OBRIGADO A VIVER COM CORNÉLIO ETERNAMENTE)
FIM
OBS.:
Esse texto é um besteirol que trata de uma forma “light’ alguns
assuntos considerados tabus como a homossexualidade, por exemplo. O
espetáculo a ser montado não deve ser preconceituoso. O texto deve vir
de uma forma natural sem cair em piadas gratuitas. O público deve fazer
parte do jogo e rir, mas sem esse nome horrendo que se chama
preconceito.