Edição 11

Retalhos

Karina Abramovich

As garotinhas do meu coração apertado na porta do metrô. Nós com nossos cachecóis de lã. Com nossas moedas nos bolsos pra tomar uma cerveja quente no mercado. Eu, com o coração despido. Elas, com os joelhos e corações. Me recuso a machucar meus joelhos, disse. Mentira. Por isso não uso saias.
Mas claro que eu aprendi a esconder os meus pedaços, pois quando eles ficam expostos, os outros levam embora.
Eu lembro que todo dia de manhã, a única coisa da qual eu tinha certeza era de que eu ia acordar e dar a ração pro meu gato. Agora eu não tenho mais um gato. Sequer sei se eu vou acordar pra fazer alguma coisa. Mas eu tenho certeza de algumas coisas, e eu pensei ‘eu tenho que sair correndo’, mas deu medo de você vir atrás de mim. Por que eu não sei dizer não. Eu não sei. Eu tenho medo da cor da sua pele engolindo a minha, tão ofuscada. Eu não sei mais se dá certo não ouvir a sua voz entusiasmada num domingo de manhã. Eu não sei mais se dá certo fugir, se dá certo sem você espiando meu quadril. Presa entre seus braços e a nossa cama. Eu não sei mais se vai dar certo.
Eu já fico com medo da juke box do boteco no lado de casa. Medo do meu horóscopo. Medo do meu desejo por tudo que não dá.
É por isso que eu fico esperando você vim me costurar. É por isso todas essas canetas em volta.