Retalhos
As
garotinhas do meu coração apertado na porta do metrô. Nós com nossos
cachecóis de lã. Com nossas moedas nos bolsos pra tomar uma cerveja
quente no mercado. Eu, com o coração despido. Elas, com os joelhos e
corações. Me recuso a machucar meus joelhos, disse. Mentira. Por isso
não uso saias.
Mas claro que eu aprendi a esconder os meus pedaços, pois quando eles ficam expostos, os outros levam embora.
Eu
lembro que todo dia de manhã, a única coisa da qual eu tinha certeza
era de que eu ia acordar e dar a ração pro meu gato. Agora eu não tenho
mais um gato. Sequer sei se eu vou acordar pra fazer alguma coisa. Mas
eu tenho certeza de algumas coisas, e eu pensei ‘eu tenho que sair
correndo’, mas deu medo de você vir atrás de mim. Por que eu não sei
dizer não. Eu não sei. Eu tenho medo da cor da sua pele engolindo a
minha, tão ofuscada. Eu não sei mais se dá certo não ouvir a sua voz
entusiasmada num domingo de manhã. Eu não sei mais se dá certo fugir,
se dá certo sem você espiando meu quadril. Presa entre seus braços e a
nossa cama. Eu não sei mais se vai dar certo.
Eu já fico com medo da juke box do boteco no lado de casa. Medo do meu horóscopo. Medo do meu desejo por tudo que não dá.
É por isso que eu fico esperando você vim me costurar. É por isso todas essas canetas em volta.