Edição 11

Punhos cerrados

Ricardo Carlaccio

Eu tenho o hábito de fumar uns três cigarros seguidos antes de dormir, lá pelas quatro ou cinco da manhã. Se eu não faço isso simplesmente não durmo. E se durmo, tenho pesadelos terríveis. Fazer isso é quase como uma oração. Eu passei dos trinta, e as manias começam a aparecer aos poucos. Outro cara, também adquiriu seus hábitos. Provavelmente alguns a mais do que eu por causa de sua idade avançada. É um velho vagabundo de uns sessenta anos. Ele sempre passa diante de meus olhos na hora que eu tô matando a última chupeta do diabo. Ele passa, e na hora que depara com a minha presença ele para, encara, anda em círculos, fuça no lixo e depois para de novo e olha fixamente nos meus olhos, ainda que a uma certa distância que separa a rua da minha janela. É seu ritual diário, e nos encanamos mutuamente. Dou minha última tragada e deito, faço uma oração quebrada e fecho os olhos. Depois começo a imaginar a longa trajetória do vagabundo, pra onde ele vai. Se nesse lugar vai ter outros vagabundos como eu pra ele estranhar como dois cães que se esbarram e tiram suas diferenças. Se ele está averiguando as marcas de sangue da rua Vernon. Penso na mulher suicida do pianista, penso em Cassidy sendo engolido a seco por uma vida recheada de enxofre. Penso que o Goodis deve ter sido um grande cara que percebendo a merda toda à sua volta perdeu o medo e foi até o fim numa briga de bar. Eu sinto o cheiro de mofo e o desespero daqueles becos da Filadélfia. Mas de alguma maneira me sinto tranqüilo. Mesmo sacando que tudo está destruído e o quanto a vida é parecida com a rua Vernon pra maioria das pessoas. Me sinto tranqüilo porque alguns homens tem culhões pra irem até o fim, mesmo que esse fim seja uma lata de lixo cercada de ratos.