Edição 12

Um prenúncio de partida

Nicole Louise

de você é como andar numa estrada à 40km por hora e ainda sim ser lembrada de que o limite é 80... É como querer fazer tudo direitinho, andar na via certa, na velocidade certa, com o farol ligado, respeitando todas as regras, e ainda sim ter que observar dezenas de placas, e sinalizaçções luminosas insistindo em me lembrar que devo ficar atenta para nãão sair da reta, para não ultrapassar os (seus) limites, para não te machucar...

Sou eu quem está dirigindo, o que significa que se eu me distrair com a múúsica e bater numa árvore, se eu acelerar numa curva e perder o controle, ou não freiar na hora em que um jegue atravessar a pista de repente: quem vai se estrepar sou eu! Eu, euzinha aqui, mais ninguém.

Mas você não pensa como eu, e eu só penso em você. E continuo a viagem em sua direção. Pensando nos seus medos, nos seus limites, nos seus traumas, nos seus obstáculos. Você, Vocêê, Você. Maiúsculo mesmo. Porque te coloquei em primeiro lugar, acima de tantas coisas, o que acabou sendo tão fatal quanto qualquer barbeiragem no trânsito.

Mesmo assim me vi disposta a continuar, até que te alcançar provou-se tão impossível quanto atravessar o deserto do Atacama de barco... Você é tão vazio, tão seco, tão árido... sem qualquer previsão de chuva. A chuva que me faria ver em seus olhos que você sofreria se percebesse que eu me afastava cada vez mais do ponto em que, ao final dessa viagem, finalmente nos encontraríamos.

Depois de percorrer umas 10 mil léguas eu desandei. Parei de aproveitar a viagem. E se quer saber: eu tinha planos pra ela. Dezenas de planos... Eu queria aproveitar a vista, apoiar meu braço esquerdo na janela do carro, baixar o vidro pra sentir meus cabelos esvoaçando com o vento que entraria pela janela e tomaria conta de todo o interior do carro; eu queria cantar bem alto as músicas do New Order e sorrir feito boba imaginando como seria passar minha primeira noite com você.

Mas as placas estavam por todos os lados e continuavam a chamar a minha atenção: “cuidado”, “pare”, “diminua”, “declive”, “desvio”... Fui obrigada a ficar atenta a cada ruído, cada vulto, cada movimento; a estar preparada para reagir a qualquer coisa, a qualquer momento, e logo me dei conta de que aquilo não era uma viagem, aquilo se quer era vida...

Podia ter sido qualquer outra coisa, mas no final não passou de uma chance para anunciar a minha partida. Ao manter os olhos abertos para as placas, acabei observando tantas outras coisas...: “cuidado”, “pare”, “diminua””, “declive”, “desvio”... - desvio???

Desviei. Dirigi pra bem longe, perdi o melhor da viagem... e até agora não te perdoei.