Edição 12

Casamento

Natanael de Alencar

de Alencar Fim: Seu casamento, feliz no fim, quando os pés são leves como bonecas infláveis de pelúcia. Seu marido, o espelho das leis e convenções, tinha um modo de puxar as cadeiras nos restaurantes, semelhante à maneira de colocar o travesseiro embaixo das costas para dar prazer ao coito.

Sua família apoiara a união, louca pra se livrar de mais uma boca. Mais sobra nos sábados em que churrascos chiavam em harmonia com os cliques das latas de cerveja. Mais espaço para as fodas sorrateiras nos recantos da casa, escuros e em construção. Em casa, a recém-casada esperava o marido.

A princípio, o peso que sentira à cabeça não era digno de nota. Pensara ser o cabelo a causa da alteração gravitacional. Uma vizinha inocente creditara a culpa ao deslocamento atmosférico. No entanto, eram tantas as hipóteses, palpites, piadas, que decidira recorrer ao esotérico.

Satisfeita com a resposta abstrusa, cheia de complicações sintáticas, transformara o acontecido numa vantagem, alugando seus chifres como quarador. O inconveniente era que o teto precisava ser aumentado infinitamente, chegando a tocar no sobrado dos deuses desacreditados, adrede confundidos com anjos caídos.

Uma vez despencara um deus por sua galha, que amorteceu a queda. Foi a partir dessa visita bombástica, da qual o deus nu soube tirar proveito, que sua sexualidade ficara incontrolável e a galha foi diminuindo até sumir. Então, a história terminando pelo início.

Era uma vez uma esposa que conheceu – no sentido bíblico – um deus desconhecido e pediu o divórcio e saiu pelas ruas dando pra deus e o mundo, afirmando o selvagem impulso dionisíaco de ouvir o grelo falante.