Carta ao fim da estrada
E
por pensar que nunca, aqui estou eu na minha contradição infindável,
com a arma engatilhada e apontada pra minha própria cabeça de menina
grande. Vendo a mesma cena por vez incontável e veja só, ainda me
surpreendendo (!), e, quem diria, admirando o mundo minimalista que
anda na linha reta do tédio e da falta de percepção.
Pensando
cá comigo sobre a realidade, sobre o caminho ser sempre para fora e
nunca para dentro. Pensando que os segundos de um flerte são muito mais
bonitos do que o amor em si e ao mesmo tempo discordando plenamente,
claro, o amor é a paz, e a paz sempre foi a razão, a minha razão sem
propósito algum senão o de deitar a cabeça no peito de alguém e só
acordar no dia seguinte com uma voz que me relaxe os ombros e me
encubra e ressoe na casa inteira.
Não vai ser mais no teu peito.
Eu sempre soube. Eu sempre soube que eu demoraria muito a ser escolhida
por alguém que valesse. Você sabe, eu fico dependendo do tal do destino
que eu acredito tanto. Por que eu não procuro, acho que não adianta.
Algumas
vezes eu me pego na rua ou num boteco olhando um pessoal passando. Eles
me olham de volta, fazem caras incompreensíveis e eu os vejo irem.
Nunca deixo de pensar que alguém importante pode ter acabado de ir
embora e eu não fiz nada. Quais foram os caminhos que aqueles olhares
cruzaram. Algumas vezes até as imagino sorrindo ou se divertindo ou
gargalhando, sem o ar da pressa e do silêncio, e elas ficam bonitas.
Imagino se elas são do tipo que falam e são ouvidas, que espontaneidade
se esconde atrás dos olhos metropolitanos comuns. E me retenho nesses
pensamentos até o próximo quarteirão ou o próximo copo, ou ainda, até
alguém puxar um assunto. Quem sabe até o pensamento de sempre tomar
lugar aqui na minha cabeça.
Eu penso o tempo inteiro
em como é perder as pessoas, honey. Eu sempre estou pensando em como é
chato perder as qualidades delas, eu adoro as qualidades dos outros.
Não que eu não me apaixone pelas manias delas, pelos vícios delas,
pelas paranóias delas, pelas doenças delas, pelas bebedeiras delas. Eu
me apaixono. Eu acho bonita a confusão. Mas tem mais vida as
qualidades, os jeitos que elas levam pra vida e não percebem, mas eu
percebo e acho lindo, por que eu não levo jeito pra vida.
Por isso
que eu gosto de te ouvir falar de mim, por que eu mesma não sei me ver.
Eu acho legal quando você diz que eu faço isso ou aquilo, ou que eu
gosto ou pareço gostar de tal coisa. Eu gosto da tua visão de fora. Eu
gosto que alguém me toque das minhas manias, dos gestos que faço
repetidamente e nunca repararia se não me dissessem.
Por que
muitas vezes eu acho que eu perdi a essência, mas quando alguém vem e
me descreve, eu vejo que por mais que eu não veja minha essência, ela
está ali escorrendo aos olhos dos outros. Sempre gostei que me
ensinassem sobre mim mesma. Quais são minhas reações, quais são meus
pontos sensíveis. Tudo isso eu não reparo sozinha. Sou por demais
distraída com o mundo lá fora.
Sempre gostei que houvesse pessoas capazes de falar de mim; ouço embasbacada, mesmo que não concorde com a maioria das coisas.
Eu
sempre estou aqui no meu mundo de “e se”, no meu mundo de “seria assim,
caso...”. A vida é um mar de possibilidades. Li essa frase, assim, em
itálico mesmo, no primeiro livro que eu comprei na vida. Hoje o acho
muito chatinho. Mas eu nunca deixei de lembrar dessa frase, que é boba,
é mesmo, mas pra mim não é, por que ela aponta exatamente pra esse
monte de coisas que podemos perder ou não, conforme nossa escolha ou
falta de coragem.
Eu cansei de ver os possíveis homens da minha
vida passando do meu lado na rua, ou tomando café na padaria. Cansei de
ver mulheres que pareciam ter belas almas pra espalhar na minha vida em
meio a conversas de roda ou não.
Assim como canso de ver onde é eu vou parar se eu não começar a me dar conta de que estou no planeta Terra, vivendo.
Me
pegava cotidianamente, me imaginando casada tipo com o carinha que
estava escolhendo o amaciante, cheirando um por um da prateleira do
supermercado, ou com um outro que estava procurando desesperadamente
pelo ticket do estacionamento dentro do bolso da camisa, assim como em
várias outras situações paulistas.
Mas desde que eu conheci você, eu acho até legal, tudo, mas, veja bem, mas, eu sempre penso que eles não são, bem... você.
E é assim que minha vida amorosa vai ser a partir de agora, certo? Então ta.
Parece que caí direitinho e de pára-quedas na armadilha que você não armou.
Se
bem que agora, eu e minha cama já me bastam. Eu dormindo sempre do lado
esquerdo, deixando o outro lado vago como sempre deixo. Não fico à
vontade em passar da minha metade da cama. A verdade é que eu me
assassinei dentro de mim mesma. Mas descobri que o amor também é
assassinável, não por mim, claro, eu nunca assassino nada que não seja
eu, mas o amor é assassinável por quem queira tomar nas mãos umas facas
e concluir.