Edição 13

Carta ao fim da estrada

Karina Abramovich

E por pensar que nunca, aqui estou eu na minha contradição infindável, com a arma engatilhada e apontada pra minha própria cabeça de menina grande. Vendo a mesma cena por vez incontável e veja só, ainda me surpreendendo (!), e, quem diria, admirando o mundo minimalista que anda na linha reta do tédio e da falta de percepção.

 
Pensando cá comigo sobre a realidade, sobre o caminho ser sempre para fora e nunca para dentro. Pensando que os segundos de um flerte são muito mais bonitos do que o amor em si e ao mesmo tempo discordando plenamente, claro, o amor é a paz, e a paz sempre foi a razão, a minha razão sem propósito algum senão o de deitar a cabeça no peito de alguém e só acordar no dia seguinte com uma voz que me relaxe os ombros e me encubra e ressoe na casa inteira.
Não vai ser mais no teu peito. Eu sempre soube. Eu sempre soube que eu demoraria muito a ser escolhida por alguém que valesse. Você sabe, eu fico dependendo do tal do destino que eu acredito tanto. Por que eu não procuro, acho que não adianta.

 
Algumas vezes eu me pego na rua ou num boteco olhando um pessoal passando. Eles me olham de volta, fazem caras incompreensíveis e eu os vejo irem. Nunca deixo de pensar que alguém importante pode ter acabado de ir embora e eu não fiz nada. Quais foram os caminhos que aqueles olhares cruzaram. Algumas vezes até as imagino sorrindo ou se divertindo ou gargalhando, sem o ar da pressa e do silêncio, e elas ficam bonitas. Imagino se elas são do tipo que falam e são ouvidas, que espontaneidade se esconde atrás dos olhos metropolitanos comuns. E me retenho nesses pensamentos até o próximo quarteirão ou o próximo copo, ou ainda, até alguém puxar um assunto. Quem sabe até o pensamento de sempre tomar lugar aqui na minha cabeça.

 
Eu penso o tempo inteiro em como é perder as pessoas, honey. Eu sempre estou pensando em como é chato perder as qualidades delas, eu adoro as qualidades dos outros. Não que eu não me apaixone pelas manias delas, pelos vícios delas, pelas paranóias delas, pelas doenças delas, pelas bebedeiras delas. Eu me apaixono. Eu acho bonita a confusão. Mas tem mais vida as qualidades, os jeitos que elas levam pra vida e não percebem, mas eu percebo e acho lindo, por que eu não levo jeito pra vida.
Por isso que eu gosto de te ouvir falar de mim, por que eu mesma não sei me ver. Eu acho legal quando você diz que eu faço isso ou aquilo, ou que eu gosto ou pareço gostar de tal coisa. Eu gosto da tua visão de fora. Eu gosto que alguém me toque das minhas manias, dos gestos que faço repetidamente e nunca repararia se não me dissessem.
Por que muitas vezes eu acho que eu perdi a essência, mas quando alguém vem e me descreve, eu vejo que por mais que eu não veja minha essência, ela está ali escorrendo aos olhos dos outros. Sempre gostei que me ensinassem sobre mim mesma. Quais são minhas reações, quais são meus pontos sensíveis. Tudo isso eu não reparo sozinha. Sou por demais distraída com o mundo lá fora.
Sempre gostei que houvesse pessoas capazes de falar de mim; ouço embasbacada, mesmo que não concorde com a maioria das coisas.

 
Eu sempre estou aqui no meu mundo de “e se”, no meu mundo de “seria assim, caso...”. A vida é um mar de possibilidades. Li essa frase, assim, em itálico mesmo, no primeiro livro que eu comprei na vida. Hoje o acho muito chatinho. Mas eu nunca deixei de lembrar dessa frase, que é boba, é mesmo, mas pra mim não é, por que ela aponta exatamente pra esse monte de coisas que podemos perder ou não, conforme nossa escolha ou falta de coragem.
Eu cansei de ver os possíveis homens da minha vida passando do meu lado na rua, ou tomando café na padaria. Cansei de ver mulheres que pareciam ter belas almas pra espalhar na minha vida em meio a conversas de roda ou não.
Assim como canso de ver onde é eu vou parar se eu não começar a me dar conta de que estou no planeta Terra, vivendo.

 
Me pegava cotidianamente, me imaginando casada tipo com o carinha que estava escolhendo o amaciante, cheirando um por um da prateleira do supermercado, ou com um outro que estava procurando desesperadamente pelo ticket do estacionamento dentro do bolso da camisa, assim como em várias outras situações paulistas.
Mas desde que eu conheci você, eu acho até legal, tudo, mas, veja bem, mas, eu sempre penso que eles não são, bem... você.
E é assim que minha vida amorosa vai ser a partir de agora, certo? Então ta.
Parece que caí direitinho e de pára-quedas na armadilha que você não armou.

 
Se bem que agora, eu e minha cama já me bastam. Eu dormindo sempre do lado esquerdo, deixando o outro lado vago como sempre deixo. Não fico à vontade em passar da minha metade da cama. A verdade é que eu me assassinei dentro de mim mesma. Mas descobri que o amor também é assassinável, não por mim, claro, eu nunca assassino nada que não seja eu, mas o amor é assassinável por quem queira tomar nas mãos umas facas e concluir.