Edição 13

Se mexa

Luisandro Mendes

hoje é um dia errado

onde todas as coisas se confundem

mesmo as meias estão sujas

os sapatos enlameados

e toda a craca do mundo grudou em

minhas roupas

nada funciona

a comida queimou

os telefones estão mudos

à espera da chamada inexistente como

se cobrassem antigas dívidas

você não cabe mais no seu corpo

como se a alma se expandisse para

além da sua biologia possível

um novo quarto

um novo abrigo para as tempestades do verão

todas as chaves inutilizaram-se

as portas trancafiaram-se lacradas

de liberdade

vedadas de invasão e curiosidade

os jornais esconderam as novidades

a internet contempla o

mar que não traz a nova onda

é apenas outono

as flores amarelam as ruas

as calçadas

os gramados

e é apenas outono.

* * *

4.

nada me passa

um dia novo

uma velha desgraça

tudo me escapa

novas aventuras

novas praças

novos embalos para

as mesmas emoções

não sei mais

se tenho tudo que guardo

ou se deixo de ter

tudo que me foge.

* * *

5.

os passos caóticos seguem duras linhas

outrora pisadas e escritas

não há limites

as fronteiras foram cruzadas

toda tentativa é

desgraçada

surgem novas dúvidas para velhas perguntas

busco a satisfação imoral de delícias

velhos prazeres e a

mesma novela reprisa

a história de todos

nós a história universal dos homens

quem irá contá-la aos vindouros

vejam

era assim

nos sentíamos assim

a vida está esvaziada de aventuras

mas

os passos insistem

as linhas atraem

como se sedentas do

mesmo

resistissem

austeras a

qualquer possibilidade de revolução

até as revoluções esgotaram-se

de rebeldia

de novidade

de esperança

e

esses passos caóticos

é tudo que tenho nos bolsos

nos vasilhames antigos

nos porta-retratos

* * *

6.

o tempo passa passado

passo passando passados

vastos astros do tempo

tempos

tempestades intempestivas

eis os passos

os passados futuros

os passados novos

já cansados

* * *

7.

A luz do dia me fere

os olhos com a dura

sensatez da realidade.

Apague a luz

Vou dormir até mais tarde.

* * *