Se mexa
hoje é um dia errado
onde todas as coisas se confundem
mesmo as meias estão sujas
os sapatos enlameados
e toda a craca do mundo grudou em
minhas roupas
nada funciona
a comida queimou
os telefones estão mudos
à espera da chamada inexistente como
se cobrassem antigas dívidas
você não cabe mais no seu corpo
como se a alma se expandisse para
além da sua biologia possível
um novo quarto
um novo abrigo para as tempestades do verão
todas as chaves inutilizaram-se
as portas trancafiaram-se lacradas
de liberdade
vedadas de invasão e curiosidade
os jornais esconderam as novidades
a internet contempla o
mar que não traz a nova onda
é apenas outono
as flores amarelam as ruas
as calçadas
os gramados
e é apenas outono.
* * *
4.
nada me passa
um dia novo
uma velha desgraça
tudo me escapa
novas aventuras
novas praças
novos embalos para
as mesmas emoções
não sei mais
se tenho tudo que guardo
ou se deixo de ter
tudo que me foge.
* * *
5.
os passos caóticos seguem duras linhas
outrora pisadas e escritas
não há limites
as fronteiras foram cruzadas
toda tentativa é
vã
desgraçada
surgem novas dúvidas para velhas perguntas
busco a satisfação imoral de delícias
velhos prazeres e a
mesma novela reprisa
a história de todos
nós a história universal dos homens
quem irá contá-la aos vindouros
vejam
era assim
nos sentíamos assim
a vida está esvaziada de aventuras
mas
os passos insistem
as linhas atraem
como se sedentas do
mesmo
resistissem
austeras a
qualquer possibilidade de revolução
até as revoluções esgotaram-se
de rebeldia
de novidade
de esperança
e
esses passos caóticos
é tudo que tenho nos bolsos
nos vasilhames antigos
nos porta-retratos
* * *
6.
o tempo passa passado
passo passando passados
vastos astros do tempo
tempos
tempestades intempestivas
eis os passos
os passados futuros
os passados novos
já cansados
* * *
7.
A luz do dia me fere
os olhos com a dura
sensatez da realidade.
Apague a luz
Vou dormir até mais tarde.
* * *