Edição 13

Na esquina

Paula Klaus

Hoje vou me atirar em ruína e desgraça espontaneamente devido minha falta de juízo. Vou me suicidar. A vela vai ficar acesa pra dar impressão de que ainda estou terminando a leitura daquele livro. Rosana nem vai perceber que não respondo suas batidas na porta, vai ficar puta da vida e vai embora arrastando todo aquele amor pela calçada. A melhor parte vai ser quando vierem arrombar a porta e descobrirem meu corpo caído perto da pia da cozinha. Resolvi morrer na cozinha porque é o lugar que mais estive dentro dessa casa. Rosana preparava cozidos, ficava em pé de olhos fixos em suas dimensões, ela era bem gorda, ainda é. Passei horas na frente do espelho naquela noite tentando ensaiar uma cara de espanto pra disfarçar meu esgotamento. Mas ela é louca e fez tudo errado. Chorou, quebrou coisas e se jogou no chão segurando minhas pernas. O problema não eram as dobras da cintura nem a sua bunda enorme e caída, não me incomodava com isso. O grito, o choro convulsivo e aquela dependência foram sempre os maiores problemas. A dificuldade de ouvir e de falar na hora certa. Muitas desculpas, desculpas demais quase o tempo inteiro. Ela foi a sujeita mais bela, mas não posso dizer que a amei. Caiu do precipício quando quis se esconder na minha sombra. Não segurei, continuei encarando o espelho fingindo espanto, dor, arrependimento e tantas outras coisas que não senti, pra dizer que jamais, eu disse bem assim mesmo JAMAIS, queria aquele amor todo descansando em minha sombra.
É muito pra mim, que nunca soube dizer uma frase certa, pra mim que nunca acreditei nesse negócio de amor e carinho. Agora o jeito é me suicidar e deixar que tomem conta de tudo, porque eles vêm fazendo isso há tempos. O coração é um músculo safado que acelera nas curvas perigosas e bem nessa hora, como deveria ser, o desgraçado não pára. Veneno não vai ser, muito menos gilete nos pulsos. Isso já tá muito batido, todo mundo quer morrer do mesmo jeito. Vou inovar e fazer história. Vai ser o maior barato ver a cara de uns trouxas que acreditavam serem meus futuros assassinos. Um beijo pra minha mãe que tá no céu, provavelmente não é lá que vamos nos ver. A minha mãe era grande e eu não conseguia ver seu rosto lá no alto, não lembro do seu rosto redondo de mãe.
Torci pra que as folhas parassem de cair. Não sobrou nada que faça diferença. Escrevi uma carta com caneta de tinta preta, pra não apenas parecer coisa séria. Assinei com a data de ontem e botei em cima da mesa num envelope sem lacre. Não disse nada sobre amor, ódio ou motivos pra me atirar em ruínas e desgraça no chão da cozinha bem próximo da pia. A carta curta, quase um bilhete, não está endereçada mas é preciso que alguém a encontre. Não, não fiz um testamento. Deixo tudo aí, dinheiro, móveis, roupas e uma dispensa farta, quem quiser faça bom proveito.

Um rascunho lamurioso daquilo que fará falta, a única coisa que fará falta. Despedi-me do meu cachorro, este sim me dava boas lambidas.