Na esquina
Hoje vou
me atirar em ruína e desgraça espontaneamente devido minha falta de
juízo. Vou me suicidar. A vela vai ficar acesa pra dar impressão de que
ainda estou terminando a leitura daquele livro. Rosana nem vai perceber
que não respondo suas batidas na porta, vai ficar puta da vida e vai
embora arrastando todo aquele amor pela calçada. A melhor parte vai ser
quando vierem arrombar a porta e descobrirem meu corpo caído perto da
pia da cozinha. Resolvi morrer na cozinha porque é o lugar que mais
estive dentro dessa casa. Rosana preparava cozidos, ficava em pé de
olhos fixos em suas dimensões, ela era bem gorda, ainda é. Passei horas
na frente do espelho naquela noite tentando ensaiar uma cara de espanto
pra disfarçar meu esgotamento. Mas ela é louca e fez tudo errado.
Chorou, quebrou coisas e se jogou no chão segurando minhas pernas. O
problema não eram as dobras da cintura nem a sua bunda enorme e caída,
não me incomodava com isso. O grito, o choro convulsivo e aquela
dependência foram sempre os maiores problemas. A dificuldade de ouvir e
de falar na hora certa. Muitas desculpas, desculpas demais quase o
tempo inteiro. Ela foi a sujeita mais bela, mas não posso dizer que a
amei. Caiu do precipício quando quis se esconder na minha sombra. Não
segurei, continuei encarando o espelho fingindo espanto, dor,
arrependimento e tantas outras coisas que não senti, pra dizer que
jamais, eu disse bem assim mesmo JAMAIS, queria aquele amor todo
descansando em minha sombra.
É muito pra mim, que nunca soube
dizer uma frase certa, pra mim que nunca acreditei nesse negócio de
amor e carinho. Agora o jeito é me suicidar e deixar que tomem conta de
tudo, porque eles vêm fazendo isso há tempos. O coração é um músculo
safado que acelera nas curvas perigosas e bem nessa hora, como deveria
ser, o desgraçado não pára. Veneno não vai ser, muito menos gilete nos
pulsos. Isso já tá muito batido, todo mundo quer morrer do mesmo jeito.
Vou inovar e fazer história. Vai ser o maior barato ver a cara de uns
trouxas que acreditavam serem meus futuros assassinos. Um beijo pra
minha mãe que tá no céu, provavelmente não é lá que vamos nos ver. A
minha mãe era grande e eu não conseguia ver seu rosto lá no alto, não
lembro do seu rosto redondo de mãe.
Torci pra que as folhas
parassem de cair. Não sobrou nada que faça diferença. Escrevi uma carta
com caneta de tinta preta, pra não apenas parecer coisa séria. Assinei
com a data de ontem e botei em cima da mesa num envelope sem lacre. Não
disse nada sobre amor, ódio ou motivos pra me atirar em ruínas e
desgraça no chão da cozinha bem próximo da pia. A carta curta, quase um
bilhete, não está endereçada mas é preciso que alguém a encontre. Não,
não fiz um testamento. Deixo tudo aí, dinheiro, móveis, roupas e uma
dispensa farta, quem quiser faça bom proveito.
Um rascunho
lamurioso daquilo que fará falta, a única coisa que fará falta.
Despedi-me do meu cachorro, este sim me dava boas lambidas.