Edição 13

A cidade... Sempre a cidade

Paulo de Tharso

Eles chegaram muito cansados.

Beberam um resto de conhaque vagabundo e se olharam tristes.

O dia dela tinha sido uma verdadeira tragédia.

Ao sair do trem, tinha sido roubada.

Carteira, com o salário do trabalho de faxineira, RG, CIC, a fotografia dele e do filho de cinco anos.

Enquanto ele ficava olhando para a lâmpada amarela e fraca que pendia do teto,

ela foi buscar o filho que ficara com a vizinha, dona Aurora .

Ela voltou, deu uma banana para a criança e a colocou para dormir.

Ele, estava exausto de tanto bater pernas atrás de emprego em construção civil.

Era um homem de andaimes.

Mas não tinha sequer o ginásio completo, e depois, já passava dos quarenta.

__Ninguém quer um homem de quarenta se equilibrando nas tábuas dos andares em construção._resmungou.

Ela foi se despindo lentamente e ele , que a olhava sem desejo, também começou a tirar as roupas velhas e puídas.

O conjugado, de tão pequeno roubava o oxigênio .

__Vão despejar a gente. Quatro meses de aluguel atrasados.

Eu não te falei mas...estou grávida!__Disse ela, enquanto se deitava na cama.

__Eu sei. A comadre Aurora me contou.__Disse ele, indo calmamente até o fogão e abrindo o gás.

Deitou-se ao lado dela.

Ele a abraçou como jamais havia abraçado, e ficaram respirando fundo.

Um, escutando a respiração do outro.