A cidade... Sempre a cidade
Eles chegaram muito cansados.
Beberam um resto de conhaque vagabundo e se olharam tristes.
O dia dela tinha sido uma verdadeira tragédia.
Ao sair do trem, tinha sido roubada.
Carteira, com o salário do trabalho de faxineira, RG, CIC, a fotografia dele e do filho de cinco anos.
Enquanto ele ficava olhando para a lâmpada amarela e fraca que pendia do teto,
ela foi buscar o filho que ficara com a vizinha, dona Aurora .
Ela voltou, deu uma banana para a criança e a colocou para dormir.
Ele, estava exausto de tanto bater pernas atrás de emprego em construção civil.
Era um homem de andaimes.
Mas não tinha sequer o ginásio completo, e depois, já passava dos quarenta.
__Ninguém quer um homem de quarenta se equilibrando nas tábuas dos andares em construção._resmungou.
Ela foi se despindo lentamente e ele , que a olhava sem desejo, também começou a tirar as roupas velhas e puídas.
O conjugado, de tão pequeno roubava o oxigênio .
__Vão despejar a gente. Quatro meses de aluguel atrasados.
Eu não te falei mas...estou grávida!__Disse ela, enquanto se deitava na cama.
__Eu sei. A comadre Aurora me contou.__Disse ele, indo calmamente até o fogão e abrindo o gás.
Deitou-se ao lado dela.
Ele a abraçou como jamais havia abraçado, e ficaram respirando fundo.
Um, escutando a respiração do outro.