Décalo
dorme na sua cama. Você quer paz e sossego. É sábado à noite e a vida não lhe oferece nada a não ser algumas cervejas, um colchão velho no chão, uma preguiça desgraçada e a namorada, mal humorada, sentada no sofá, lendo algum de seus livros. A namorada é um problema.
Ela se diz atriz. Faz alguns comerciais, se envolve em projetinhos que não dão em nada, anda com pessoas chatas, faz pose aqui e ali e arrota uma intelectualidade artística hippie chata que me faz querer regurgitar o almoço de segunda passada. Mas ela é gostosinha, e acho que isso supera tudo, não supera?
- Eu não sei como você consegue ler um troço desses. Puta porcaria. Sexista, reacionário. É o tipo de coisa que meu avô escreveria – ela gritou, agitando o livro no ar e me fazendo despertar do começo do sono. - Raul! Raul! Raul, que merda! Olho para ela com o coração disparado e certamente com a mesma expressão que teria se um grupo de hunos invadissem meu kitinete com lanças e tochas de fogo.
Ela me encara de maneira desafiadora. Pelo brilho em seu olhar vejo que qualquer resposta que eu dê vai nos atirar numa coisa maior ainda. E pelo bom Deus, é sábado à noite. - Que foi Mia? Onde foi o estupro? - Merda Raul! A gente nunca fica junto e quando temos tempo você prefere dormir?
Ah meu saco. - Mia, foi você quem pegou o livro e começou a ler. Lembra? - Nem por isso você precisa dormir. É cedo demais para mandá-la dormir e tarde demais para fingir que a conversa não aconteceu. Então me sento na cama e resolvo pegar o touro pelo chifre.
-Tá bom, o que você quer? - Como você consegue ler uma merda dessas? – ela sacode o livro no alto e vejo as páginas amassando e as orelhas formando. Respiro fundo e penso antes de responder, o que leva uns dois segundos antes do... - Raul! - Que merda!
- Esse livro? É chato, sexista, reacionário, o autor não tem o menor respeito pelas mulheres. Como é que alguém pode gostar dessa merda? - Mia, essa “merda” – e eu faço as aspas com as mão, para me igualar a Mia no fator irritante – que você está lendo é Henry Miller.
Ela fica em silêncio por um piscar de olhos, talvez pensando num argumento melhor do que o meu, o que não é tão difícil. - E daí? Só porque ele é famoso eu tenho que gostar? É ofensivo. - Sinceramente Mia. Eu não queria levar isso a sério. É noite de Sábado, passa das dez e você está encrencando por causa do Henry Miller.
As pessoas estão por aí bebendo, conversando, fodendo. É isso que as pessoas fazem. Mas não você. Você quer discutir o indiscutível num Sábado à noite e eu, num rompante de benevolência e paciência universal vou ouvir os seus argumentos. Ou estou apenas ficando louco.
Portanto fala logo. - Seu grosso. Dou de ombros. Ela bate o pé até a poltrona, se joga com o livro no colo, cruza as pernas e começar a balançá-las. Dá uma longa e sonora inspirada e eu me preparo para a retaliação. - O que me deixa puta é a vulgaridade, falta de assuntos edificantes e nas quinze páginas que li, tudo o que ele fez foi apenas vomitar pedaços da sua cabeça doente e sexualmente compulsiva em cima de mim.
Eu me sinto ofendida como mulher. Como pessoa. Como ser humano! - Pega leve, Mia. - Pega você. Finalmente crio coragem para me levantar do colchão e me encaminho até a cozinha. - Eu fico estupefato com sua inabilidade de entender certas coisa. Quer uma cerveja?
Abro a geladeira, pego uma geladeira e mantenho a cabeça por alguns segundos lá dentro, com intuito de refrescar um pouco a cabeça. Mas Mia não dá folga. - Você está me chamando de burra? - Em nenhum momento eu disse isso. Só disse que te falta habilidade para sacar certas coisas.
Coisas pequenas, sem importância. Saca? - Não. - Pois é. - Olha, Raul, eu não admito que você me ofenda. Seu brontossauro. - Ah meus bagos. Sábado à noite, gente se divertindo, bebendo, fudendo e você realmente quer brigar? - Se você ouvisse o que eu falo, e se se importasse comigo eu não estaria brigando, estaríamos fazendo uma dessas malditas coisas que você tanto quer.
Ou será que você não deveria voltar a dormir? Assim seria mais divertido. - E você poderia voltar a ler e se preocupar com o caralho do Henry Miller. - E você poderia ao menos se trocar para me esperar. - Eu faria se você não preferisse passar a tarde com seus amigos gays ao invés de passá-la com seu namorado.
Pausa no arco dramático para explicar que toda a vez que um namorado fala mal dos amigos gays da namorada – nem precisa falar mal, é só falar dele – a terceira bomba nuclear explode no recinto palco da discussão. - Você sempre fala dos meus amigos gays!
Eles são uns queridos – ai. Se me desse atenção como eles me dão isso não aconteceria. - Só que sou eu que te como. E agüento as paranóias. Eles ficam com os sorrisos e sugam seu bom humor, de modo que para mim só ficam as reclamações e a cara feia. - É o mínimo que você faz.
E merece. - Que merda! Vou até a janela e vejo as luzes dos prédios, as janelas e algumas pessoas que passam na rua. Mais especificamente um casal que passa de mãos dadas. A garota fala muito e gesticula uma das mãos enquanto o rapaz continua serenamente olhando para o lado.
Mia está na poltrona folheando o livro com uma fúria decrescente. Ao chegar na última página se vira e me pega olhando para ela. Claramente está cansada de discutir, como eu. Escuto a garota lá embaixo falando alto para o namorado que ele não lhe dá atenção.
As coisas devem ser assim mesmo, sempre serão. A única coisa que nos torna diferentes é isso, e se não fosse isso talvez não houvesse o menor interesse. - Raul... - Mia... - Quer trepar? Mais um fundo suspiro. Sorrio, pego-a pela mão, deito no colchão, abro os braços e com um sorriso ela se ajoelha e se deixa cair em meus braços.
Pois é assim que as coisas funcionam na maior parte das vezes.