O rio
homem sentiu a sílaba surgindo em algum lugar do centro de seu crânio. Não acreditava mais nas mesmas verdades. Em algum momento percebeu que essa sílaba surgia para destruir o passado. Para desestruturar sua lógica e descartar a razão. Obrigando-o a descartar a justiça e a compaixão.
Perplexo esforçava-se por determinar o início de tudo. Olhava para as luzes da cidade pela janela do vigésimo primeiro andar. Aos poucos imagens fragmentadas de uma memória que parecia alheia formavam um caleidoscópio desconexo. Enquanto contemplava a fumaça tênue que subia da xícara em sua mão.
As imagens surgiam na superfície brilhante do líquido escuro, como em um poço infinito. Chamas azuladas vibravam no ar por trás da multidão. Nuvens fosforescentes escondiam o luar. Nas profundezas de sua alma ele sentia o desejo pelo mistério crescer.
Desprendeu-se do peso das culpas que carregava até então. Mesmo em senda perigosa manteve seu curso inalterado. Cruzes e santos desfaziam-se em sua memória. Caminhava solitário entre a multidão apesar dos abraços e afetos compartilhados. Não esperava nada das pessoas ao redor.
Submetia-se a suas escolhas e à determinação de não-ser. Acreditava-se um bom homem, se é que havia alguém bom naquele lugar. Mesmo isso ficara para trás. A morte, agora sua companheira, mostrava-lhe vales muito além dos sonhos. Sucessão de imagens que nunca vira.
Rosas vicejando, pétalas secando, outras murchando. Nos ciclos dos tempos novas e sucessivas rosas. Nunca as mesmas, no entanto rosas. Perpetuando ciclos de possibilidades.