Por baixo desse assoalho
Por baixo desse
assoalho carcomido pelos cupins e traças que emana dos pensamentos
genealógicos, dos conselhos e das virtudes familiares, descansam
crânios castelhanos rachados. Crânios emigrados dos primeiros umbrais.
Crânios fugidos dos bordeis mais cristão que se têm noticia. E de suas
rachaduras brota uma luz opaca dos velhos quintais de Franco. O grande
evento familiar além dos cânceres e dos velórios dominicais é a velha
cortina incendiar. Assisto à velha cortinar incendiar desde os úteros
tempos. Desde que a maldita placenta afogava-me. Afogava-me por
caridade. Afogava o otário sem escapatória. O feto-cristão sem a opção
do não. Todos os cristãos nascem condenados a dizer sim. Não por
temerem à deus, mas por temerem o outro lado do muro, o oficial de
justiça, o obstetra, e qualquer adjetivo que não achem no dicionário. O
meu destino, desde então, era a luz. A mesma luz opaca castelhana. O
destino era a luz negra dos becos e porões. O fim para baixo. Era o
maldito eco dos ancestrais natais. No principio era o fim. Nasci pelo
fim das coisas. Nasci de mim. Mas existem os incêndios. As janelas em
chamas. O parapeito febril, esperançoso do pulo. Não há tv à cabo e nem
pinturas de Goya. Mas há cortinas em chamas e ódio brotando do
assoalho. Os cupins arrotam as infâmias dos crânios iluminados de uma
coisa negra e pegajosa vinda do velho umbral. Arrotam cinzas e brasas
da velha cortina passada de pai para filho. Os crânios, lá embaixo,
estocam palitos de fósforo e roem o outro lado da velha madeira. O
assoalho está fraco. Os crânios habitam o fim.