Edição 14

Por baixo desse assoalho

Jarbas Capusso Filho

Por baixo desse assoalho carcomido pelos cupins e traças que emana dos pensamentos genealógicos, dos conselhos e das virtudes familiares, descansam crânios castelhanos rachados. Crânios emigrados dos primeiros umbrais. Crânios fugidos dos bordeis mais cristão que se têm noticia. E de suas rachaduras brota uma luz opaca dos velhos quintais de Franco. O grande evento familiar além dos cânceres e dos velórios dominicais é a velha cortina incendiar. Assisto à velha cortinar incendiar desde os úteros tempos. Desde que a maldita placenta afogava-me. Afogava-me por caridade. Afogava o otário sem escapatória. O feto-cristão sem a opção do não. Todos os cristãos nascem condenados a dizer sim. Não por temerem à deus, mas por temerem o outro lado do muro, o oficial de justiça, o obstetra, e qualquer adjetivo que não achem no dicionário. O meu destino, desde então, era a luz. A mesma luz opaca castelhana. O destino era a luz negra dos becos e porões. O fim para baixo. Era o maldito eco dos ancestrais natais. No principio era o fim. Nasci pelo fim das coisas. Nasci de mim. Mas existem os incêndios. As janelas em chamas. O parapeito febril, esperançoso do pulo. Não há tv à cabo e nem pinturas de Goya. Mas há cortinas em chamas e ódio brotando do assoalho. Os cupins arrotam as infâmias dos crânios iluminados de uma coisa negra e pegajosa vinda do velho umbral. Arrotam cinzas e brasas da velha cortina passada de pai para filho. Os crânios, lá embaixo, estocam palitos de fósforo e roem o outro lado da velha madeira. O assoalho está fraco. Os crânios habitam o fim.