Catedral
Drama
Texto de
JULIO CARRARA
Escrita em 1998
PERSONAGENS:
ADRIANO
LETÍCIA
ALEX
REBECA
TIAGO
PAI DE LETÍCIA (EM OFF)
ÉPOCA: Atual
CENÁRIO:
Apartamento de Adriano. Um tablado de mais ou menos um metro e
meio ao fundo do palco com uma cama de casal em cima, criado mudo,
abajur, guarda-roupa, etc. Uma escada no primeiro plano conduz ao
quarto. Na parede ao fundo, uma grande janela ao centro por onde se vê
a cidade. No primeiro plano, um sofá; na frente deste um tapete
indiano. Do lado do sofá uma mesinha com telefone. Num canto, a cozinha
- uma mesa com três cadeiras, um fogãozinho de duas bocas com forninho
e um aparador onde estão copos, talheres, pratos, etc. Tudo muito
moderno, mas com cara de apartamento de estudante. No proscênio ocorrem
as cenas externas.
CENA 1
(ADRIANO
E LETÍCIA ESTÃO DEITADOS NO CENTRO DO PALCO EM CIMA DO TAPETE.
BEIJAM-SE APAIXONADAMENTE. PELO VISTO, ACABARAM DE FAZER AMOR. ADRIANO
MORDISCA OS LÁBIOS QUENTES E PERFUMADOS DE LETÍCIA.)
LETÍCIA -
(AINDA DEITADA, OLHA PARA O RELÓGIO) Seis horas. Preciso ir embora,
Adriano. Se o meu pai descobrir que eu não dormi em casa, vai me
matar...
ADRIANO - Esquece o seu pai...
LETÍCIA - E de que jeito?
Ele ainda me trata como se eu fosse uma garotinha de cinco anos de
idade. Será que ele não percebe que eu cresci? Por que será que todos
os pais são assim, hein?... Como eu gostaria de chutar tudo pro alto e
sair da minha casa, gozar a liberdade. Não agüento mais a vida que eu
tô levando, de ter que fazer tudo às escondidas e morrer de medo que o
meu pai descubra e me castigue...
ADRIANO - Então arruma suas coisas e vem morar comigo...
LETÍCIA - (ESPANTADA) Morar com você?
ADRIANO
- É. Não agüento mais viver sozinho neste apê. Quando resolvi sair de
minha casa lá no interior, achei que a vida aqui na capital fosse
fácil... Agora eu sei a barra que é...
LETÍCIA - Bem que eu
gostaria, viu? O que me falta é coragem... O meu pior defeito é essa
maldita covardia. Sempre obedecendo às ordens impostas pelo meu pai.
Não vejo a hora desse martírio chegar ao fim... (IMPACIENTE) Agora
preciso ir...
ADRIANO - Fica só mais um pouquinho...
LETÍCIA - Não posso... Tenho que ir...
(TOCA A CAMPAINHA. LETÍCIA SE ASSUSTA. ADRIANO VAI ATÉ A PORTA, OLHA PARA O OLHO MÁGICO E SE VIRA PARA LETÍCIA).
ADRIANO - É a sua irmã...
LETÍCIA - Ah, meu Deus...
(ADRIANO ABRE A PORTA E REBECA ENTRA COMO UM FOGUETE)
REBECA - (DESESPERADA, MAL PODENDO FALAR) Letícia, eu...
LETÍCIA - O que foi, Rebeca? O que aconteceu? (TENTA ACALMÁ-LA) Calma... Respira fundo... Pronto, fala agora...
REBECA
- O papai descobriu que você não dormiu em casa. Ele entrou de
madrugada no nosso quarto e descobriu que você não tava lá. Ele me
acordou e me obrigou a dizer onde você estava. Eu não tive escolha.
Acho que ele ta vindo pra cá...
(LETÍCIA ESCUTA A VOZ DO SEU PAI, EM FRAGMENTOS NA SUA MEMÓRIA).
PAI
- (OFF)... e você não toma jeito mesmo. Não sei mais o que fazer com
você. Vê se arruma um emprego, garota. Talvez assim você cria um pouco
de juízo nesta sua cabeça desmiolada... (...) sai desse telefone. Não
sei onde vocês arranjam tanto assunto. Sabe quanto veio a conta esse
mês? Uma fortuna!!! Pensa que o meu dinheiro é capim? Não
trabalho o mês inteiro como um condenado para pagar os seus
telefonemas... A partir de hoje você está proibida de fazer qualquer
ligação... (...) e não quero mais nenhuma de suas amigas aqui dentro de
casa; e ai de você se eu encontrar alguma dessas vagabundas aqui...
Você vai levar uma surra tão grande que nunca mais vai esquecer.
Arrebento todos os dentes da sua boca e você vai ficar marcada pro
resto da vida...
REBECA - (PARA A IRMÃ) Você tá me ouvindo, Letícia?
LETÍCIA - (“ACORDANDO”) Hein?! Sim! (NUM ROMPANTE) Eu vou lá.
REBECA - Você tá louca?
LETÍCIA - Tô.
ADRIANO - Eu vou com você...
LETÍCIA
- Não, Adriano. Eu vou resolver essa parada sozinha. Enfrentar a
situação de uma vez por todas e que se dane o meu pai. Cansei de ser
uma marionete nas mãos dele...
REBECA - Esfrie primeiro a cabeça, mana. Depois você conversa com ele com calma...
LETÍCIA
- Calma o cacete! Aquele velho vai ouvir tudo o que tá engasgado aqui
na minha garganta há muito tempo. Tudo!!! E que ninguém tente me
impedir... Agora é tudo ou nada...
(SAI DECIDIDA. REBECA E ADRIANO ACOMPANHAM-NA)
CENA 2
(O
PALCO FICA VAZIO POR ALGUNS SEGUNDOS. MUDA LUZ. OUVE-SE UMA CHAVE ABRIR
A PORTA. PORTA SE ABRE E SURGE ALEX, IRMÃO CAÇULA DE ADRIANO COM UMA
MALA NAS MÃOS. VENDO A CASA VAZIA E SILENCIOSA, BATE PALMAS)
ALEX -
(CHAMA) Adriano! Adriano! Ô, mano velho!... (PAUSA) Que recepção!
(TORNA A CHAMAR) Adriano, ô mano velho, sou eu, Alex. (TEMPO) Ninguém.
(SOBE ATÉ O QUARTO) Maravilha! Depois de oito horas de viagem, uma boa
cama... (TIRA O PAR DE TÊNIS E JOGA-OS EM QUALQUER LUGAR) É tudo o que
eu preciso.
(SE ATIRA NA CAMA. COMEÇA A SE ESPREGUIÇAR, BOCEJA, PEGA UM LENÇOL, COBRINDO-SE COMPLETAMENTE. TEMPO. ADORMECE).
CENA 3
(LETÍCIA E REBECA NUM PONTO DE ÔNIBUS. A PRIMEIRA CARREGA UMA MALA).
REBECA - Você tem certeza do que está fazendo?
LETÍCIA - (CHORANDO) Tenho, Rebeca. Eu deveria ter feito isso há muito mais tempo...
REBECA - O papai disse que você pra ele, a partir de hoje, tá morta e enterrada!
LETÍCIA
- Foi melhor assim... (TIRA UMA CARTA DO BOLSO) Entrega essa carta pra
mamãe. Ela deve tá sofrendo muito. Ah, diga também pra ela vir me
visitar quando e a hora que quiser... (REFERE-SE AO PAI) aquele
lá não precisa saber... O Adriano é um ótimo rapaz e a gente vai viver
bem morando junto...
REBECA - Vou sentir sua falta!
LETÍCIA - (ABRAÇA A IRMÃ) Eu também. Obrigada por tudo. Nunca vou esquecer das coisas que você fez por mim...
REBECA - (COM SUTIL IRONIA) Ô Letícia, não querendo ser chata, mas você acha que o Adriano quer mesmo que você vá morar com ele?
LETÍCIA - Claro que quer...
REBECA
- Não sei, não. Tenho as minhas dúvidas. Hoje em dia não dá pra confiar
em homem nenhum. É tudo farinha do mesmo saco. Só prometem algo quando
tão na cama com a gente... Depois disso, quando vamos cobrar o
prometido, a gente acaba ó (SINAL DE “FODEU”) se ferrando...
LETÍCIA
- O Adriano não é como os outros. Ele é especial. Você nunca vai
entender... Você nunca se apaixonou por um homem a ponto de fazer
loucuras como essa... Um dia você vai se apaixonar de verdade e aí sim
vai me dar razão...
REBECA - Se eu fosse você ficaria com um pé
atrás. A gente não deve confiar tão cegamente numa outra pessoa. Ainda
mais pelo que ela diz. Dizer e fazer são coisas bem diferentes...
LETÍCIA
- Você pode tentar me desiludir, mas não vai conseguir. Está perdendo
seu tempo com isso... Eu vou ser muito feliz, Rebeca, do lado do homem
que eu amo e nada nem ninguém vai nos atrapalhar...
REBECA - Então, boa sorte. Vou torcer por você...
(AMBAS SE ABRAÇAM. O ÔNIBUS ENCOSTA. LETÍCIA SOBE PARA O ÔNIBUS).
LETÍCIA - Tchau.
REBECA - Tchau...
(LETÍCIA
FICA OLHANDO PARA REBECA ENQUANTO O ÔNIBUS SAI. REBECA ESTÁ COM OS
OLHOS ÚMIDOS. TEMPO. LENTAMENTE, REBECA ENXUGA OS OLHOS E SEUS GESTOS E
EXPRESSÕES SE TRANSFORMAM)
REBECA - (IRADA) Você não vai ser feliz
com o Adriano, Letícia. Juro por esse Sol que acabou de nascer, que vou
fazer de tudo pra destruir esse romance idiota. Nenhum homem presta...
E se eu não fui feliz no meu relacionamento com o Bruno, você também
não vai ser...
(SAI)
CENA 4
(APÊ DE ADRIANO. ALEX DORME. LETÍCIA ENTRA RADIANTE)
LETÍCIA
- Adriano, Adriano? (CAMINHA ATÉ O QUARTO E SENTA-SE EM ALEX) Ah, é
assim que você me recebe? Acorda, amor! (PUXA O LENÇOL
DESCOBRINDO A CABEÇA DE ALEX. LEVA UM SUSTO E FICA SEM SABER O QUE
FAZER) Desculpa, pensei que fosse o Adriano... (TOTALMENTE SEM JEITO)
ALEX - Sou o Alex, irmão dele. Acabei de chegar de viagem e como não encontrei ele aqui acabei capotando...
LETÍCIA - Eu sou a Letícia... Ele já deve ter falado de mim pra você...
ALEX - A namorada dele?
LETÍCIA - Isso...
ALEX - Falou sim...(ESTENDE AS MÃOS) Muito prazer! Pelo visto, o meu irmão tirou a sorte grande...
LETÍCIA - Por quê?
ALEX - Conseguiu fisgar uma gata como você...
LETÍCIA - (TÍMIDA, MAS COM UMA PONTA DE ORGULHO) Veio... veio.... visitar o irmão?
ALEX
- Não... Vim pra ficar... Como o mano, vim tentar a vida aqui em São
Paulo. Cansei de viver onde eu morava. Não agüentava mais tanta
mediocridade, tanta mesquinharia. Por isso saí de lá. Eu adoro essa
agitação, esse ritmo frenético, essa poluição, barulho, correria,
stress, trabalho, balada...
(ENTRA ADRIANO, COM O SHORT TODO SUJO DE BARRO E MUITO SUADO, CARREGANDO UMA BOLA DE FUTEBOL)
ADRIANO
- (SURPRESO AO VER O IRMÃO) Alex!!! Ô mano velho, dá um abraço aqui,
cara... (SE ABRAÇAM FORTEMENTE) Mas por que não ligou avisando que
chegaria hoje? Eu poderia te buscar na rodoviária...
ALEX - Tava a
fim de fazer uma surpresa... (ABRE A MALA E RETIRA ALGUNS EMBRULHOS)
Olha só o que a “mamma” me obrigou a trazer: vários potes de geléia de
morango que você tanto gosta...
ADRIANO - (SORRI) Ela não perde essa mania...
ALEX - E ela quer saber mais de você, ouviu? Faz quase um mês que você não dá notícia... Telefone existe pra quê?
ADRIANO - De fato dei mancada... Mas e as coisas por lá, como vão?
ALEX - A mesma coisa. Não mudou nada. Sempre a mesma rotina e o mesmo tédio...
ADRIANO - E a Bárbara?
ALEX
- Já era... Acabei levando chifre dela e resolvi terminar... Esse
foi um dos motivos que me trouxe pra cá. É duro ser corneado, meu
irmão... Mas deixa pra lá...
ADRIANO - Essa aqui é a Letícia, minha namorada...
LETÍCIA - (RINDO DISCRETAMENTE) Nós já fomos apresentados...
ADRIANO - Então, você veio pra ficar, Alex?
ALEX - Claro.
LETÍCIA - (MOSTRA A MALA) Adriano... eu também vim pra ficar...
ADRIANO - (ABRAÇA A GAROTA) Que bom... Que bom... (PARA O IRMÃO) E você Alex, vai ficar morando com a gente...
ALEX - Não... Eu vou pruma pensão aqui da Santo Antônio... Não tô a fim de atrapalhar vocês...
ADRIANO
- Que pensão, o quê? Você é meu irmão, caralho. Vai se enfiar naquelas
pensões podres onde a proprietária é uma gorda imensa, mulambenta, que
anda gemendo e arrastando os chinelos? Nem pensar!... E não vai
atrapalhar nada, não se preocupe. Você só não vai ter o conforto que
tinha lá em casa...
ALEX - Já disse que não quero incomodar.
ADRIANO - Não é incômodo algum...
ALEX - Mas vocês estão em plena lua-de-mel...
ADRIANO - Porra Alex, não encana...
LETÍCIA - Vou arrumar minhas coisas... (SOBE ATÉ O QUARTO, TIRA SUAS ROUPAS DA MALA E VAI AJEITANDO-AS NA GAVETA)
ALEX
- (COCHICHA) Cara, vocês precisam de privacidade... Eu não vou me
sentir bem... nem vocês... e se de repente vocês quiserem transar
alucinadamente. Eu iria atrapalhar...
ADRIANO - Vá se ferrar... A vinda de vocês pra cá foi uma das melhores coisas que me aconteceram nesses últimos meses...
(ALEX E LETÍCIA SORRIEM UM PARA O OUTRO. ADRIANO ABRAÇA O IRMÃO).
ADRIANO - Letícia, vem cá...
LETÍCIA - (SAINDO DO QUARTO) O que foi?
ADRIANO - Vamos fazer um pacto, nós três?
(ALEX E LETÍCIA SE ENTREOLHAM)
ALEX E LETÍCIA - Pacto????
ADRIANO
- Sim. Um pacto de fidelidade. Aconteça o que acontecer devemos acima
de tudo, ser fiéis uns com os outros. Mesmo que a verdade nos machuque
e por pior que ela seja, nunca vamos nos trair. NUNCA!... Combinado?
OS DOIS - Combinado!
(O TRIO JUNTA AS MÃOS E SELAM O PACTO)
CENA 5
(AVENIDA 9 DE JULHO. DEBAIXO DE UM VIADUTO, REBECA E TIAGO TRAMAM)
REBECA
- O plano é o seguinte: você vai até a casa do Adriano e diz que é o
namorado da Letícia. Ela naturalmente vai estranhar e vai dizer que
nunca te viu na vida - o que é verdade. O Adriano ficará com dúvida e
você vai arrumar uma briga com ele. Aja realmente como se fosse o
namorado cornudo. Dê umas porradas nela e depois vá pra cima dele.
Depois de armar o barraco, saia furioso e diga que nunca mais quer ver
ela na sua frente. Use os seus dotes de ator. E torça para que eles
estejam numa ardente cena de amor - o que não é de duvidar - para te
dar motivação pra cena. Depois venha correndo me contar... Talvez você
volte um pouco estropiado. O Adriano é bom de briga. Mas é pra isso que
eu tô te pagando. (TIRA UM PACOTE PEQUENO COM O DINHEIRO) Pronto! Aqui
tá a metade da grana! A outra metade eu pago depois do serviço...
TIAGO - Tá limpo!
REBECA
- Esse romance não vai durar muito. Logo logo a Letícia vai voltar pra
casa com o rabinho entre as pernas implorando pro papai deixar ela
voltar... (CÌNICA) Coitada... Ela nem desconfia o que vem pela
frente... Quero o serviço bem feito, hein, rapaz? Muito bem feito.
Senão, já sabe!
TIAGO - Confie em mim.
REBECA - Essa minha irmã
vai se arrepender de ter nascido. Ela não podia ter feito o que fez.
Agora eu é que tô pagando pelos erros que ela cometeu. O meu pai não
pára de pegar no meu pé e fica toda a hora me comparando com ela... Vou
transformar todos esses sonhos dela no mais terrível pesadelo... E o
que mais me revolta é saber que livrei a cara dela muitas vezes em
casa. E o que recebi em troca? Nada; só me ferrei. E continuo me
ferrando... Ela ainda vai chorar lágrimas de sangue... (PAUSA) Faça
tudo direitinho, como combinamos... Agora vai.
(TIAGO AGARRA REBECA
PELOS CABELOS COMO UM SÁDICO. DEIXA O PESCOÇO DA GAROTA NU E PASSA A
LÍNGUA NELE, CAUSANDO ARREPIOS NA GAROTA. TIAGO SAI. REBECA FICA UM
TEMPO EM CENA E SAI EM SEGUIDA).
CENA 6
(APÊ DE ADRIANO.
ALEX DORME NUM COLCHÃO NA SALA. ADRIANO E LETÍCIA ESTÃO NO QUARTO. O
RAPAZ CANTA E TOCA NUM VIOLÃO A MÚSICA “CATEDRAL”. QUANDO TERMINA A
MÚSICA, LETÍCIA O ABRAÇA).
LETÍCIA - Esse é o melhor dia da minha vida...
ADRIANO
- Parece um sonho você aqui comigo. Dividindo o mesmo apê, a mesma
cama... Às vezes eu tenho a impressão de que vou acordar e que tudo
isso vai terminar...
LETÍCIA - Pára de pensar bobagens. Esse sonho nunca terá fim...
ADRIANO
- Espero... O mundo dá tantas voltas... (PAUSA) Vou te contar uma
história: quando eu era pequeno, meus pais me levaram para ver o mar
pela primeira vez. Fiquei, como toda criança, encantado ao ver aquela
imensidão de água na minha frente. E na beira da praia, vi um menino de
rua construindo uma catedral de areia. Não era um castelo, não. Era
catedral mesmo. Parecida com a da Sé... Ele tava tão concentrado na
tarefa, isso me chamou atenção e fiquei só observando os seus gestos.
Quando ele terminou, eu me imaginei entrando nesta catedral, e quando
procurei a saída, não encontrei. Tava preso lá. De repente a maré
subiu, as ondas derrubaram essa catedral e fiquei soterrado lá
dentro... Esse pensamento me persegue... Muitas vezes me sinto assim,
preso numa catedral e com medo de morrer soterrado dentro dela. (PAUSA)
Mas o meu maior medo sabe qual é?
LETÍCIA - Não.
ADRIANO - Perder você.
LETÍCIA - Você nunca vai me perder.
ADRIANO - Tenho tanto medo. Tremo só de pensar nisso. Acho que eu morro se um dia acontecer isso.
LETÍCIA - Pára de encher a cabeça de minhoca. Fica frio... Vamos dormir. Amanhã temos um longo dia pela frente.
ADRIANO - Letícia... Você nunca vai me trair?
LETÍCIA - (IMPACIENTE) Que pergunta... Você tá com cada idéia hoje, viu? O que tá acontecendo? Por que essa insegurança toda?
ADRIANO - Não sei. Tenho a impressão de que alguma coisa muito ruim vai acontecer...
LETÍCIA - Credo. Isola. Bate na madeira. (BATE TRÊS VEZES NA MADEIRA DA CAMA) Sai, azar... E você pare com isso...
ADRIANO - Você ainda não respondeu a minha pergunta.
LETÍCIA
- A gente não fez um pacto hoje à tarde? Um pacto de fidelidade? Eu,
você e o Alex? Que vamos sempre dizer a verdade um pro outro por mais
dolorosa que ela seja? (DURA) Ainda tem alguma dúvida? (ADRIANO NÃO
RESPONDE) Dorme. Hoje foi um dia muito agitado pra você. Um bom sono
vai fazer você tirar essas idéias idiotas da sua cabeça.
(ADRIANO
DEITA-SE NO COLO DE LETÍCIA. A GAROTA ACARICIA O SEU ROSTO E SEUS
CABELOS. O RAPAZ ADORMECE. ELA, COM MUITO CUIDADO, DEPOSITA A CABEÇA DO
RAPAZ NO COLCHÃO E CAMINHA ATÉ A COZINHA. A NOITE ESTÁ QUENTE. LETÍCIA
SE ABANA. PEGA UMA MORINGA E ENCHE UM COPO D’ ÁGUA. BEBE. TORNA A
ENCHER. CAMINHA ATÉ A SALA, ONDE ALEX DORME. COMEÇA A OBSERVAR O RAPAZ.
ALEX ESTÁ COM UMA CUECA DE SEDA, DESSAS FEITAS PARA DORMIR, E SEM
CAMISETA. LETÍCIA SENTA-SE NUMA POLTRONA E CONTINUA OBSERVANDO-O. BEBE
A ÁGUA. DEPOSITA O COPO NO APARADOR E VAI CHEGANDO PERTO DO RAPAZ. UM
DESEJO TOMA CONTA DE TODO O SEU SER. APROXIMA-SE CADA VEZ MAIS. SENTE A
RESPIRAÇÃO DELE ATÉ BEIJÁ-LO NA BOCA. O BEIJO É SUAVE. QUANDO VAI
ACARICIÁ-LO, ELE SE MEXE, MUDANDO DE POSIÇÃO. ELA SE ASSUSTA. VOLTA
PARA O QUARTO DE ADRIANO E DEITA-SE AO LADO DELE. NÃO CONSEGUE EM
NENHUM MOMENTO, PREGAR OS OLHOS).
CENA 7
(NO DIA
SEGUINTE. LETÍCIA LEVANTA-SE E VAI LAVAR O ROSTO NO BANHEIRO. AO
VOLTAR, COMEÇA A PREPARAR UM SUCO DE LARANJA. COLOCA A JARRA SOBRE O
APARADOR. CAMINHA ATÉ A JANELA, ABRE A CORTINA E SENTE OS RAIOS DA
MANHÃ BANHAREM SEU ROSTO. EM SEGUIDA DIRIGE-SE PARA ALEX E O ACORDA COM
DELICADEZA).
LETÍCIA - Bom dia, Bela Vista! Que dia lindo! Que
sol!... Acorda, cunhado... Vai ficar dormindo num sábado maravilhoso
como esse?
ALEX - (DESPERTA) Ah, dormi pra caralho! E o mano?
LETÍCIA - Também tá dormindo pra caralho...
(ALEX PERCEBE QUE ESTÁ SÓ DE CUECA E IMEDIATAMENTE PÕE UM SHORT)
ALEX - Tava uma noite tão quente, que minha vontade era dormir peladão.
LETÍCIA - Alex, você poderia ir até à padaria aqui da Humaitá comprar uns pãezinhos e mortadela, para o nosso café?
ALEX - Vou passar uma água na cara primeiro... (FAZ O QUE DIZ. VOLTA) Pronto!
(PEGA A CARTEIRA, MAS LETÍCIA O IMPEDE DE PEGAR O DINHEIRO).
LETÍCIA - Não. Hoje é por minha conta.
(PEGA
O DINHEIRO DO BOLSO E ENTREGA PRA ELE. SEUS DEDOS TOCAM SUAVEMENTE OS
DEDOS DA GAROTA. SURGE UM CLIMA. ELES SE OLHAM E SORRIEM UM PARA O
OUTRO. ALEX SAI. LETÍCIA CAMINHA ATÉ A PORTA DA RUA ACOMPANHANDO-O E
DEPOIS VOLTA À SUA TAREFA. ENQUANTO ARRUMA A MESA, ADRIANO LEVANTA-SE
DA CAMA E CAMINHA ATÉ ELA. ELA PEGA UMA FACA, FICA PERDIDA EM SEUS
PENSAMENTOS E SE ASSUSTA QUANDO ADRIANO A ABRAÇA POR TRÁS. ELA O AMEAÇA
COM A FACA).
ADRIANO - Te assustei?
LETÍCIA - (AINDA SOB O EFEITO DO SUSTO) Nossa, tava tão distraída que nem notei a sua presença.
ADRIANO - Desculpe. (BEIJA-A. ELA RETRIBUI) E o Alex?
LETÍCIA - Foi na padaria comprar uns pãezinhos pra gente. Já, já ele está de volta.
ADRIANO - Eu queria me desculpar por ontem à noite. Não sei porque estava tão inseguro.
LETÍCIA - Tudo bem. Mas desculpo com uma condição...
ADRIANO - Qual?
LETÍCIA - Que você pare de encher a cabeça com essas idéias absurdas e que não fale mais nisso.
ADRIANO - Pode ficar tranqüila. Não vou mais tocar nesse assunto.
LETÍCIA
- Acho bom. A pior coisa que existe num relacionamento é a
desconfiança. É terrível saber que a pessoa que a gente ama não confia
na gente...
(FICAM EM SILÊNCIO QUANDO PERCEBEM QUE ALEX ESTÁ NA PORTA. PAUSA TENSA).
ALEX - Pronto, chegou o pão.
(DEPOSITA
O PÃO NA MESA. LETÍCIA COLOCA O SUCO DE LARANJA E O POTE DE GELÉIA NA
MESA. ADRIANO PEGA O POTE E PASSA A GELÉIA NO PÃO, EM SEGUIDA PÕE O
SUCO DE LARANJA NO COPO. LETÍCIA E ALEX FAZEM O MESMO. PORÉM, ALEX É O
ÚNICO A COLOCAR MORTADELA NO PÃO)
ALEX - Pão com mortadela... Há
quanto tempo eu não comia... Lembra quando a gente era pequeno,
Adriano? A gente torcia pra que morresse alguém só para comer pão com
mortadela no velório...
LETÍCIA - Credo, que horror!
ADRIANO - O X-Velório... Claro que lembro. Bons tempos aqueles! (COMEM) Vamos bater uma bolinha lá no campo da Rua Rocha, Alex?
ALEX - Vamos...
(COMEM DEPRESSA. ADRIANO PEGA A BOLA E SE DIRIGE PARA LETÍCIA)
ADRIANO - Tamo saindo...
LETÍCIA - Vai, amor. Assim você se distrai e curte mais o seu irmão. (BEIJAM-SE)
ALEX - (SORRI PRA ELA E BEIJA-LHE A FACE) Tchau, cunhada!
LETÍCIA - Tchau...
(ALEX E ADRIANO SAEM)
LETÍCIA
- (SÓ) Isso não podia ter acontecido. Eu preciso me controlar. Não
posso dar bandeira... Ô Alex, por que você apareceu justo agora?
Eu não posso, não devo desejar você... E o Adriano? Ele já tá
desconfiado. Eu dei minha palavra que nunca o enganaria, mas é mais
forte do que eu... Alex, Adriano... Não posso desejar dois homens ao
mesmo tempo... O que fazer, meu Deus? Me ajuda! Tira esses desejos e
pensamentos que queimam meu corpo, corroem minha alma e ardem como o
fogo dentro de mim. Não deixe que essa doçura do mel se transforme no
mais amargo fel. Me dá uma luz. Me mostra um outro caminho, uma outra
direção... São irmãos, eu sei. (COM A VOZ ESTRANGULADA) O que eu faço?
(CHORA. MUDA LUZ. ENTRA ALEX, TODO SUJO E SUADO).
ALEX - Cheguei...
LETÍCIA - Por que voltou logo?
ALEX - Não tava com saco pra ficar correndo no campo disputando uma bola...
LETÍCIA - E o Adriano?
ALEX
- Ta lá jogando com os trutas dele. Pediu pra eu te avisar que ele vai
demorar. Isso não é de hoje. Quando ele pega uma bola de futebol não há
quem tire ele do campo... (PERCEBE OS OLHOS INCHADOS DA MENINA) Você
tava chorando, Letícia? Por quê?
LETÍCIA - Não. Acho que é alergia...
ALEX - Pra cima de mim? Acha que eu sou tão ingênuo a ponto de acreditar nessa história? O que houve?
LETÍCIA - (CARENTE) Me abrace forte, por favor...
(ALEX ABRAÇA-A COM FORÇA E TERNURA)
ALEX - Pronto... Agora me diz...
LETÍCIA - Alex, a última coisa que eu quero é magoar você e o Adriano.
ALEX - Magoar? Como magoar?
LETÍCIA
- Vou te fazer uma pergunta e eu quero que você responda com toda a
sinceridade... O que você sente por mim? (SILÊNCIO) Responde, Alex.
ALEX - Mas por que você está me perguntando isso? Qual é a razão?
LETÍCIA - Eu preciso te dizer uma coisa muito importante. Se eu não falar e guardar isso por mais tempo eu vou explodir.
ALEX - Diz.
LETÍCIA - Bem, eu...
ALEX - Chega de rodeios e vá direto ao assunto.
LETÍCIA
- Está bem... Queria que você me entendesse e me ajudasse a solucionar
esse problema sem que ninguém saia machucado dessa história. Minha
intenção não é colocar irmão contra irmão, longe disso...
ALEX - Fala...
LETÍCIA
- Alex, eu amo seu irmão. Muito. Não sei como isso aconteceu, mas
eu não consigo tirar você da minha cabeça. Você mexeu comigo de um
jeito que não sei explicar. Você deve tá achando estranho tudo isso. Eu
mal te conheço e nutro um tesão violento por você. Não consegui pregar
os olhos essa noite um segundo sequer. E eu precisava te dizer isso...
Por favor, me abrace!
(ALEX ABRAÇA A GAROTA. DEPOIS DO ABRAÇO ELA
ACARICIA O ROSTO DO RAPAZ. ELE SEGURA NAS MÃOS DA GAROTA E SE ALISA
NELAS. DEPOIS VAI SE APROXIMANDO E BEIJA-LHE A BOCA).
ALEX - (TOMA
CONSCIÊNCIA) Desculpa. Foi mais forte do que eu... Merda! Isso não
podia ter acontecido. Nós traímos o Adriano de uma forma sórdida, da
pior maneira possível... Ele nunca vai perdoar a gente...
LETÍCIA - Agora você me compreende? Imagine como eu tô me sentindo...
ALEX
- Tô no mesmo barco que você. Eu também te desejo muito. Morro de
tesão por você... Desde o primeiro instante em que te vi, fiquei
encantado com o teu sorriso, com seus olhos. Mas estava te amando em
segredo porque não queria trair o meu irmão...
LETÍCIA - Me ajuda...
ALEX
- Já que isso aconteceu... vamos abafar o caso por um tempo. Vamos
fingir que nada disso aconteceu até criarmos coragem e abrirmos o jogo
com o mano.
(BEIJAM-SE NOVAMENTE. NESSE INSTANTE ENTRA TIAGO SEM QUE NINGUÉM O VEJA. AO VER A CENA, SORRI DIABÓLICAMENTE E SAI DE CENA)
CENA 8
(REBECA
ESTÁ DEBAIXO DO VIADUTO DA 9 DE JULHO, AFLITA. ANDA DE UM LADO PARA O
OUTRO. VEZ OU OUTRA OLHA PARA O RELÓGIO. APARECE TIAGO CORRENDO)
TIAGO - Rebeca, tenho uma bomba.
REBECA - Deu certo o nosso plano? Fez tudo direitinho como combinamos?
TIAGO - Não...
REBECA - E eu te pago pra quê, porra?
TIAGO
- Calma, deixa eu contar... Eu fui até o apê do Adriano e quando fui
tocar a campainha percebi que a porta estava entreaberta. Abri com
muito cuidado e entrei. E o que vejo? A sua irmã se esfregando num cara.
REBECA - Seu idiota. Ela tava com o Adriano.
TIAGO - Não, não era ele. O Adriano eu conheço... Era outro cara.
REBECA - Alguém te viu?
TIAGO - Não. Garanto.
REBECA - Você tem certeza que não era o Adriano?
TIAGO - Absoluta...
REBECA
- Quem diria... A Letícia chifrando o Adriano... Isso ele vai ter que
saber. Vamos precisar mudar todos os nossos planos... Vai ser melhor do
que eu esperava. Hoje à noite você vai dar um telefonema anônimo pro
Adriano e vai dizer que a Letícia tá botando chifres nele. Depois
desligue... Como eu gostaria de ser uma mosquinha só pra ver o circo
pegar fogo. A Letícia vai ter o que merece...
(SAEM)
CENA 9
(NOITE.
LETÍCIA ESTÁ LENDO UMA REVISTA. ALEX ESTUDA UMAS APOSTILAS. AMBOS SE
OLHAM VEZ OU OUTRA. ENTRA ADRIANO, TODO SUADO E SUJO).
ADRIANO - Tô
exausto... (SENTA-SE NA ESCADA) Ai que dor na perna. (MASSAGEIA AS
PERNAS) Nunca joguei como hoje. (PARA ALEX) Você perdeu a melhor parte
do jogo, mano. Demos um banho naquele time cuzão. 8x3 no placar. (RI)
Os pernas-de-pau saíram com o rabinho entre as pernas. Acho que nunca
mais vão querer jogar uma pelada com o nosso time...
(APROXIMA-SE DE LETÍCIA E A ABRAÇA. TENTA BEIJÁ-LA).
LETÍCIA - (EMPURRA O RAPAZ) Ai Adriano... Você tá todo sujo, todo suado e fedendo cerveja...
ADRIANO - (FORÇA A GAROTA A BEIJÁ-LO) Me dá um beijinho, vai. Um só...
LETÍCIA - (EMPURRANDO-O) Não.
ADRIANO
- Vocês e suas manias... Mulher, mano, é o bicho mais complicado e mais
traiçoeiro da face da Terra. Nunca queira entender uma mulher, senão,
você tá fodido... Vou tomar uma chuveirada. (SAI)
(LETÍCIA E ALEX SE APROXIMAM)
LETÍCIA - Você acha que ele desconfiou?
ALEX - É só você não dar a letra...
LETÍCIA
- Eu não consigo. Me sinto mal. A gente não pode continuar com essa
farsa por mais tempo. Precisamos abrir o jogo de uma vez...
ALEX - Nem pensar. Hoje ainda não. Vamos dar tempo ao tempo.
(O TELEFONE TOCA)
LETÍCIA
- Ué, quem será? (ATENDE AO TELEFONE) Alô... alô... (PÕE O TELEFONE NO
GANCHO) Caiu a ligação... Deve ser a Rebeca. Acho que meu pai apareceu
e pra não causar problemas, ela desligou.
ALEX - O seu pai é de morte, hein?
LETÍCIA
- Um chato, isso sim. Um insuportável. Frustrado. (O TELEFONE TOCA
NOVAMENTE. LETÍCIA ATENDE) Alô... alô. (DESLIGA) Droga... Desligou de
novo... Fico puta com isso. Dá vontade de dizer tudo que é
palavrão.
(ADRIANO APARECE COM UM SHORT E ENXUGANDO OS CABELOS MOLHADOS NUMA TOALHA)
ADRIANO - Quem era?
LETÍCIA - Algum idiota que não tem o que fazer e fica passando trote.
(ENTRA
TIAGO COM UM CELULAR. ESTÁ NO PROSCÊNIO E FICA ISOLADO POR UM FOCO DE
LUZ. DISCA UM NÚMERO. O TELEFONE DE ADRIANO TOCA NOVAMENTE).
ADRIANO - Deixa eu atendo. (TIRA O TELEFONE DO GANCHO) Alô?...
TIAGO - (DISFARÇA A VOZ) Adriano...
ADRIANO - Quem fala?
TIAGO - Isso não vem ao caso agora.
ADRIANO - (ESTÚPIDO) Quem é?
TIAGO - Um amigo... Tome muito cuidado Adriano... Você está sendo traído na sua própria casa.
ADRIANO - Vá se foder. Eu tenho mais o que fazer...
TIAGO
- A Letícia tá te traindo... Fique de olho nela. A Letícia tá te
traindo na sua própria casa... traindo... traindo... na sua própria
casa... (DESLIGA E SAI)
ADRIANO - (TENSO) Espera. (DESLIGA) Desligou.
ALEX - Quem era?
ADRIANO - Não disse... A única coisa que disse foi sobre você, Letícia. Que você está me traindo...
(ALEX E LETÍCIA SE ENTREOLHAM ASSUSTADOS)
LETÍCIA - Você vai acreditar nisso, Adriano? Num telefonema anônimo?
ALEX - Fica frio, cara. É algum engraçadinho passando trote.
ADRIANO - Eu perdôo tudo. Tudo. Só uma coisa eu não perdôo: traição. TRAIÇÃO, NUNCA! Sou até capaz de matar...
LETÍCIA
- (Á BEIRA DO DESESPERO) Em quem você vai acreditar, Adriano? Em mim ou
num telefonema anônimo? Anda, responde! Eu quero ouvir. Responde,
Adriano. Em quem?
ADRIANO - (DEPOIS DE UMA PAUSA) Em você...
ALEX
- Você anda muito stressado, Adriano. Precisa relaxar... Vamos fazer um
picnic amanhã na Cantareira? Ficar o dia inteiro fora onde possamos
respirar o ar puro, sentir o cheiro da terra, ouvir o canto dos
pássaros, tomar banho de cachoeira. Vamos? O que você acha da minha
idéia, Letícia?
LETÍCIA - Eu acho ótimo. Isso vai fazer muito bem pra gente...
(OS TRÊS SE ABRAÇAM FORTEMENTE)
ADRIANO - (PUXA LETÍCIA) Letícia, vem comigo?
LETÍCIA - Pra onde?
ADRIANO - Pro quarto. Vem...
(LEVA A GAROTA PARA O QUARTO. A GAROTA OLHA PARA ALEX, QUE FICA NA SALA, SOZINHO)
ALEX
- Não posso mais continuar com esse teatrinho. Amanhã vou por tudo em
pratos limpos, dizer toda a verdade pra ele. Doa a quem doer.
(NO
QUARTO, ADRIANO E LETÍCIA ESTÃO NA CAMA DEITADOS. BEIJAM-SE. ADRIANO
PASSA AS MÃOS NAS COXAS DA GAROTA E VAI SUBINDO ATÉ O SEU SEXO. ELA
RESISTE)
LETÍCIA - Não, Adriano. Eu não tô legal!
ADRIANO - O que tá acontecendo? Por que tá me tratando assim?
LETÍCIA - Eu... eu tô menstruada... é isso...
ADRIANO - Não tem nada a ver. Deixa, amor...
LETÍCIA - Não, Adriano. Por favor, não insista! Eu não tô me sentindo bem...
ADRIANO
- Por que essa frieza agora? Você me evitou o dia todo. Eu quero pelo
menos uma explicação. Talvez eu entenda o que tá se passando com você.
LETÍCIA
- Adriano... aconteça o que acontecer, eu quero que saiba que eu te amo
muito. Eu acabei de sair de casa e preciso colocar a minha cabeça no
lugar. Não force a barra. Me dá um tempo. Só por hoje, está bem? Aquele
telefonema também me deixou bastante preocupada. Alguém por alguma
razão, tá querendo separar a gente... Mas isso não vai acontecer, não é?
(ADRIANO SE PERDE EM SEUS PENSAMENTOS)
ADRIANO
- Hoje depois do jogo, quando vinha pra cá, eu tive uma visão: você
estava beijando um outro homem. Não conseguia ver o rosto dele. Mas me
lembrava alguém muito próximo. Ele acariciava suas coxas, baixava sua
calcinha e ficava dedilhando sua buceta, enquanto você deixava-o
encharcado com o seu néctar. Você ria como uma puta, enquanto ele dizia
sacanagens no seu ouvido. E você gritava bem alto: “Tô chifrando o
Adriano...” E do jeito que você tá me tratando ultimamente, desconfio
que tem outro na parada.
LETÍCIA - (HISTÉRICA) De novo esse papo?
Você me prometeu que não iria mais tocar nesse assunto. Isso já virou
idéia fixa. Parece que você quer que eu te traia... Não adiantou
nada o papo que tivemos hoje de manhã. Você ainda continua desconfiando
de mim. Eu já estou por aqui. (INDICA A TESTA) de suas desconfianças.
Não agüento mais...
ADRIANO - Eu também não.
(O RAPAZ COLOCA UMA CAMISETA E FAZ MENÇÃO DE SAIR)
Letícia - Aonde você vai?
ADRIANO
- (ESTÚPIDO) Em qualquer boteco tomar uma cerveja, esfriar a cabeça e
procurar uma vagabunda. Vou procurar na rua o que não encontro em casa.
LETÍCIA
- (GRITA) Estúpido! Grosso! Eu pensei que você fosse diferente dos
outros homens, mas você é pior do que todos juntos... Egoísta! Sujo!
Imundo!
ADRIANO - (DÁ UM TAPA EM LETÍCIA, QUE CAI NO CHÃO HUMILHADA) Vai se foder...
(CAMINHA PISANDO DURO. PASSA POR ALEX E SAI. O RAPAZ ESTRANHA A ATITUDE DO IRMÃO. LETÍCIA CHORA)
ALEX - O que aconteceu?
LETÍCIA
- Esse estúpido do seu irmão... esse animal.... E ainda teve a coragem
de me dizer que ia atrás de uma vagabunda. Ia procurar na rua o
que não encontrava em casa.
ALEX - Ele tava de cabeça quente. Eu
conheço o meu irmão. Ele não vai fazer nada disso não. Ele só foi
esfriar a cabeça. Vai voltar manso como um cordeirinho e te pedir mil
desculpas, quer apostar quanto?
LETÍCIA - Apesar de tudo, eu amo esse desgraçado...
ALEX - (DEPOIS DE UM TEMPO) Vocês... (O SUBTEXTO DEVE PASSAR SE ELES FIZERAM AMOR)
LETÍCIA - Claro que não. Com que cabeça eu ia fazer isso se não consigo tirar você do meu pensamento.
ALEX - Eu também não consigo parar de pensar em você. Um fogo me consome, arde em brasas dentro de mim...
LETÍCIA - (PÕE OS DEDOS NOS LÁBIOS DELE) Psiuu! Não fala mais nada.
(ALEX
SE APROXIMA E BEIJA A GAROTA COM VIOLÊNCIA. ELA TENTA RESISTIR, DANDO
TAPAS NELE, MAS VAI CEDENDO. DEITAM NO TAPETE E FAZEM AMOR).
CENA 10
(DEBAIXO
DO VIADUTO DA AVENIDA 9 DE JULHO. TIAGO ESPERA REBECA. FUMA,
IMPACIENTE. ADRIANO ENTRA COM UMA GARRAFA DE VINHO. BEBE. ESTÁ UM
POUCO EMBRIAGADO. SENTA-SE NO MEIO FIO. REBECA APARECE)
TIAGO - Até que enfim
REBECA - Desculpe o atraso. E então, deu certo?
TIAGO - Tudo certo. (MOSTRA ADRIANO) Olha só o estado do rapaz...
ADRIANO
- (NA SUA FILOSOFIA DE BÊBADO) O mundo é uma bosta. A vida é uma bosta.
Ninguém presta. O ser humano é um caso perdido. O mundo só é sujo
porque as pessoas que vivem nele são sujas... Todas as mulheres são
falsas, nenhuma presta. São todas vagabundas, todas mentirosas... Menos
uma: Letícia. A minha Letícia. (COMO UM SONÂMBULO, CAMINHA NO MEIO DA
AVENIDA, DESVIANDO DOS CARROS QUE PASSAM A TODA VELOCIDADE E GRITANDO,
ALUCINADO) Eu te amo Letícia. Amo, amo... E sei que você não me traiu.
(SAI CAMBALEANTE)
TIAGO - Já fiz o serviço. Você viu o showzinho do
corno aí. Ele já descobriu tudo. (ESTENDE AS MÃOS) Agora eu quero a
outra parte da grana.
REBECA - Depois.
TIAGO - Já fiz o serviço, porra!
REBECA - Como posso ter certeza? (VAI SAINDO)
TIAGO - (SEGURA-A PELO BRAÇO COM VIOLÊNCIA) O resto da grana...
REBECA - Você ta me machucando...
TIAGO - Não brinca comigo que você pode se dar mal. A outra parte. Vai, me dá logo antes que eu perca a paciência...
REBECA - Me solta, eu vou em casa buscar...
TIAGO - Pensa que eu vou cair nessa?
REBECA - Eu juro. Deixa eu ir. Agora me solta.
(ELA
TENTA SAIR CORRENDO. SÓ TENTA, PORQUE TIAGO SEGURA-A, FICANDO FRENTE A
FRENTE COM ELA. ELE TIRA UM PUNHAL DO BOLSO E DÁ VÁRIAS ESTOCADAS NO
ABDOMEN DA MOÇA QUE GEME E ESCORREGA NELE. ENQUANTO ESCORREGA, TIAGO
ESBOFETEIA-A, ATÉ ELA CAIR NO CHÃO).
REBECA - (GEME) Canalha!
TIAGO - Tá paga a dívida!!!
(TIAGO COSPE NA MOÇA, QUE TENTA SE LEVANTAR, MAS MORRE. BLACK-OUT)
CENA 11
(APÊ DE ADRIANO. ALEX E LETÍCIA SE ACARICIAM. DE REPENTE A GAROTA ESTREMECE).
ALEX - O que foi?
LETÍCIA - Um calafrio! Uma sensação estranha! Não sei te explicar...
ALEX - (ABRAÇA-A) Passou?
LETÍCIA
- Tenho medo que o Adriano faça alguma besteira quando souber.
Precisamos prepará-lo para que o choque da descoberta não seja tão
grande. Não queria que ele sofresse...
ALEX - Mas ele vai sofrer.
LETÍCIA - Me ajude a encontrar uma saída...
ALEX
- (PAUSA) Vamos nos separar. É o único jeito. Eu volto pra minha casa
lá no interior e você fica sozinha aqui com o Adriano como se nada
tivesse acontecido... Precisamos nos separar. Foi muito bom o que houve
entre a gente, mas não podemos continuar vivendo assim. Pensa que é
fácil pra mim? Mas é assim que temos que agir. Eu amo meu irmão e sei
que você também o ama. E é em nome desse amor que eu lhe peço: tente me
esquecer o quanto antes. Vai ser melhor assim. O que você sente
por mim é só desejo. É passageiro. Só não quero que você abra mão da
sua felicidade com ele... É a única saída para não machucarmos o
Adriano... E quanto ao pacto, abriremos uma exceção... Vamos guardar o
que houve como se tudo não passasse de um sonho. Os sonhos são só
nossos e ninguém tem acesso à eles. Foi muito legal. Acredite. Amanhã à
noite, depois do nosso picnic, vou arrumar minhas coisas e voltar pro
interior.
(AMBOS SE BEIJAM. NESSE EXATO MOMENTO APARECE ADRIANO QUE FICA PERPLEXO AO VER A CENA. ALEX E LETÍCIA AO VÊ-LO, EMPALIDECEM)
ADRIANO - (CHOCADO) Alex... Letícia...
ALEX - Adriano...
LETÍCIA - Olha Adriano, a gente pode explicar...
ADRIANO - Explicar o quê?
ALEX - Não é nada disso que você tá pensando, meu...
ADRIANO - (NA SUA FÚRIA CONTIDA) E o que é isso, então? Um presentão de Natal? Vocês acham que eu sou o quê? Burro?
LETÍCIA - Adriano, imagino como você está se sentindo...
ADRIANO - (DÁ UM TAPA EM LETÍCIA) Cala a boca, sua piranha!
ALEX - A gente ia contar tudo pra você, eu juro.
(ADRIANO DÁ UM SOCO NA CARA DO IRMÃO, QUE CAI NO CHÃO. ADRIANO VAI SAIR E ALEX A SEGURA).
ALEX - Espera, mano. A gente precisa conversar.
(ADRIANO BATE NOVAMENTE NELE. LETÍCIA TENTA SEGURÁ-LO)
ADRIANO
- Me solta, vagabunda... Bem que me alertaram... E eu acreditei em
vocês. Vocês me apunhalaram pelas costas e enfiaram o nosso pacto no
cu... Nunca me senti tão sujo...
(O RAPAZ CONTINUA BATENDO EM ALEX, QUE SE SENTE IMPOTENTE PARA REVIDAR)
ADRIANO - Levanta, seu moleque. Me bate também. Vamos, anda. Aja como homem e me apunhale pela frente.
(LETÍCIA TENTA SEPARÁ-LOS, SEM ÊXITO. ADRIANO SEGURA NO PESCOÇO DE ALEX COM FORÇA)
ALEX - Você tá me sufocando...
(ALEX
VAI FICANDO VERMELHO. SEUS OLHOS VÃO SE ESBUGALHANDO. ADRIANO PARECE
ESTAR POSSUÍDO PELO DEMÔNIO E ADQUIRE UMA FORÇA SOBRENATURAL. APERTA O
PESCOÇO DE ALEX COM MAIS FORÇA ATÉ ESTRANGULAR O IRMÃO)
ALEX - Me perdoa. (MORRE)
(ADRIANO QUANDO VOLTA A SI PERCEBE O QUE FEZ)
ADRIANO
- (DESESPERADO, PÕE A CABEÇA DE ALEX EM SEU COLO) Alex... Mano... Reage
pelo amor de Deus. Não brinca comigo. Eu te perdôo sim. Essa vagabunda
que te seduziu. Ela eu não perdôo, mas você, sim. Eu te amo... (GRITA
AO PERCEBER QUE ALEX ESTÁ MORTO) Alex... Mano... Fala comigo... Fala
comigo, Alex... Nããããããoooooooooo!!!! (LEVANTA-SE CAMBALEANDO) Eu sou
um monstro. (LETÍCIA CHORA DESESPERADAMENTE. ADRIANO VAI ATÉ ELA)
ADRIANO
- (AGITADO) Liga pra polícia. Rápido! (AO VER QUE A GAROTA NÃO SE MEXE,
EMPURRA-A) Vai, sua vagabunda! Diz que cometi um crime e que preciso
pagar por ele. E que façam o que quiser comigo: me prenda, me torture,
me mate, mas que não me deixe solto...
(LETÍCIA MUITO ABALADA VAI ATÉ O TELEFONE. SEM QUE ELA VEJA, ADRIANO PEGA UMA FACA NA COZINHA).
LETÍCIA
- Alô... da Polícia?... Aconteceu uma tragédia aqui na Martiniano
de Carvalho, em frente à Igreja do Carmo, no edifício...
(ADRIANO
VIOLENTAMENTE ENFIA A FACA NA BARRIGA E CAI MORTO AO LADO DO IRMÃO.
LETÍCIA, AO VER A CENA, JOGA O TELEFONE E CORRE ATÉ ADRIANO).
LETÍCIA - (GRITANDO) Adrianooooo. Nãããããooooo...
(CORRE
ATÉ O LUGAR ONDE O RAPAZ SE SUICIDOU E O ABRAÇA COM FORÇA. SUAS MÃOS SE
MANCHAM DE SANGUE. ELA DEPOSITA AS CABEÇAS DE ADRIANO E ALEX EM SEU
COLO E ABRAÇA A AMBOS. UM GEMIDO GROSSO VEM DE SUAS ENTRANHAS
PREENCHENDO O AMBIENTE. OUVE-SE AO LONGE UMA SIRENE DE POLÍCIA. A
GAROTA FICA ALI, IMÓVEL, SENTINDO-SE A CRIATURA MAIS SOLITÁRIA DO
MUNDO. UMA TÊNUE LUZ VERMELHA ILUMINA OS TRÊS. OS SINOS DA IGREJA
COMEÇAM A REPICAR DESORGANIZADAMENTE. LUZ DESCE EM RESISTÊNCIA ATÉ O
BLACK-OUT FINAL).
FIM