Maria Flor
e não sou rosa, margarida, destemida, solpicada, beija-flor-cheirada, embora talvez seja pouco mais do que a alvorada. Sou Flor de sobrenome, e sobre é do que se trata, ou o que está acima: sobremesa, sobrecarga, sobre nada, desde sempre fui assim. Sei lá de como.
Talvez minha vida limite-se aos desejos da autora, sabe quem, não é? A autora do texto, a narradora, que aqui não narra, mas está presente, ou estaria, se isso fosse uma narração. Mas não é. E não tem primeira pessoa. Nunca fui a primeira de minha vida.
Maria Flor, não a primeira filha. Só, a Maria anda, e a Flor bebe água fazendo fotossíntese. Nem em pensamentos posso ser a primeira, porque sou duas, e quando uma pensa adiantada, a outra fica para depois, antecedo e me atraso ao mesmo tempo, nem por isso sou bipolar.
A Flor é mais... bem, você sabe como são as flores. Uma flor que murcha com muito sol, ou com bastante chuva. Uma flor que se protege, por não gostar de aproximação. Acredito que a característica principal de uma flor seja a timidez. A timidez falha. Que não gosta de contato, que teme tanto e sente-se tão frágil, que tem quase a pretensão de se isolar, mas uma vez nascida, faz-se notar.
A timidez que não consegue esconder. A timidez que floresce beleza, que faz a diferença sem perceber. A timidez repetida inúmeras vezes num texto. Por quê? Vai saber. A Maria eu sei que sabe. Essa menina sabe, e não sabe, ela sabe sem saber que sabe, porque na verdade ela não quer saber.
De nada. De verdade. Ela que é força, que é vida batalhada, que é o que é a muito custo, porque o dia não nasceu para ser fácil, que foi andando sem entender onde tinha se perdido, ou se encontrado, sem ter noção do que estava fazendo ali, e que foi, e que sou, e que sorrio ao escrever isso.
Sei algumas coisas do mundo. Tenho certeza de que há beleza em esquinas cinzas, e que as coisas não são unicamente as dificuldades. São coisas. Devem ser tratadas como coisas. Respeitadas e amadas. Aprendidas e recicladas. Devem ser lavadas, ou varridas, e conservadas na memória.
Nunca se esqueça da graça da menina, e então os dias não terão fim. Só continuação.