Edição 14

Filme

Marcelo Montenegro


Você pede para eu apertar o pause

E vai ao banheiro

Deixando ao meu lado

Seu cheiro quente

No travesseiro amassado.

Penso por um segundo

No texto que fiquei de escrever

Para uma revista de literatura.

“Se é possível conciliar experimentalismo formal

E lirismo na poesia”.

Ouço sua bunda

Desgrudar-se da tampa

Que bate seca

E levemente na privada.

A descarga, a torneira ligada,

Imagino uma grande seqüência.

– A preguiça tem algo de comovente nos dias úteis.

Você volta ao quarto dizendo

Tá me dando uma fome

Enquanto rimos da pose engraçada

Que o ator parou.

Antes de apertar o play

Chego a esboçar que algumas pessoas

São incapazes

De tirar a poesia do sério.

 

(in Hemingway Hotel, a sair)