Rejeitada
é primeiro e último diário de uma menina-mulher angelical. Pois é, estou aqui, logo aqui. No último andar do edifício Copam. Estou n o parapeito, em pé, parecendo um bebê que acabou de sentir o sabor de ficar em pé pela primeira vez. A sensação é horrorosa, mas é o quero.
Pular deste edifício. Aí você se pergunta: Nossa?! Porque u ma mulher tão angelical e cheia de energia positiva vai tirar a vida assim?!. Aí te respondo: nunca fui angelical, nunca tive um corpo e um rosto perfeito. Tenho os meus motivos. Viver para quê?!
Tiraram a minha vida quando me aliciaram aos 4 anos de idade. Desde aí, nunca fui uma criança normal. Tiraram meu futuro, minhas metas. Apenas vegetei durante esses anos luz . Olho para o chão. Acho que isso acontece com qualquer pessoa que se atira de um edifício e passa aquele famoso filme chamado insight pela mente.
Pois é. É isso que está acontecendo neste momento, tudo acelerado por momentos que fizeram eu ter esta proeza. Álcool, cocaína e dor. A dor , dói. É dói. Só depende da intensidade que dou a ela. Mas neste momento, não, não dói. Qual o filme que passa acelerado?!
A primeira vez que sofri o famoso bullying, o medo que tive dos meus pais e sustentei uma mentira porque perdi uma bolsa de estudos numa escola de inglês aonde eu era uma criança, eu tinha 12 anos e não ia bem e carreguei esta mentira até meus 13 anos.
Fui rejeitada por um tempo. Aliás, não sou a filha que todo pai gostaria de ter. Enfim, a primeira vez que fui o centro da atenção, na fase do ginásio, para zoar com a minha pessoa, arranjaram o cara mais feio da escola e iniciaram a pior decepção que tive na minha vida.
Mas também apareceu a fase mais legal : a do colégio. Ah! Primeira trepada aonde quase fui atijolada por que a irmã do cara chegou antes e a janela do quarto ficava próxima ao corredor. Tocava Van Hallen : Dreams . Foi tenso. Foi delicioso. Aquela rola pequena foi meu deleite.
Foi excitante e ainda como era tudo a primeira vez gozei feito uma cascata ansiosa em descarregar águas num lugar qualquer. De primeira experimentei dar o cú . Delicioso! Logo vem a primeira experiência com a cocaína. Nossa! Aí sim a minha ansiedade acalmava com esta maledeta .
Ela traduzia exatamente o gosto amargo desde do estupro que sofri e desde então, faz dois meses que não uso essa merda. E agora não posso mais usar por que estou aqui neste prédio, onde já tem várias pessoas, jornalistas sensacionalistas, helicópteros monitorando se vou me jogar ou não (e um caminhão de bombeiros ali embaixo).
Já, já chegam os policiais para falarem todo aquele blá blá blá . Estou consciente do que faço. Estou aqui e tudo isso que declaro e testemunho é que não quero deixar nenhuma dúvida de mim. Lembro dos momentos que passei aqui perto, na galeria do Rock.
Minha aborrecência toda. Muitos amores sugiram até minha primeira aliança de noivado, foi neste lugar. Eu tinha apenas 18 anos. Meu primeiro noivo. Nos conhecemos num consultório psicológico e depois de dois anos nos reencontramos e assistimos Pulp Fiction .
Assistíamos Transporting , Seven , entre outros que são considerados clássicos. Então, um belo dia, descobri que estava grávida e ele acabou com este nosso desejo: me deu um soco na barriga por ciúmes. Estávamos num sítio em Atibaia e como tinha bebido muito começou a discutir comigo e me arremessou numa parede chapiscada com pedras.
Era noite. Não tinha como eu pedir socorro. Apenas sentia aqueles socos no meu ventre e dizia que parasse, mas não foi o nosso destino. Meu e daquele bebê. Estava completando quatro meses. Agora me diz: Para que preciso viver?! Hoje não consigo engravidar mais.
Estou fazendo tratamento, aliás, fazia. Depois um ano com casa alugada ele teve um caso com a chefa e ele me confessa tudo no momento mais critico da minha vida, desempregada com minha avó morinbundando num hospital e com o casamento marcado. Bom, sobrevivi.
Desde então, só atraí homens pelo sexo. Não pelo que sou ou fui. Sexo atrai todos os tipos de homens. Pelo menos soube escolher bem. Uns com uma pica média, grande. Atraí as orgias mais sortidas e tenras: trepei como Calígula. Só faltou com animais. E quem olha para minha carinha angelical jamais imagina a depravada, a perversa.
Ah! Lembro das cenas de aborrecente quando eu furtava lojas, bares e batia carteira na 24 de maio. Momentos alucinógenos. Adorava ir nas Lojas Americanas que havia na rua Direita e furtar coisas. Eu fui furtada com quatro anos de idade e por que não furtar agora?!
Tem um asfalto esperando ali embaixo e eu aqui com este filme acelerado na minha mente. Pra que viver?! Viver dói. Apenas quero acabar com esta dor. Tive empregos que qualquer um gostaria de ter, mas estou aqui. Quando comecei a ganhar grana todos faltavam cagar o meu escroto.
Aí, quando surgiu a internet brasileira, onde apenas existia as conexões UOL e Zap eu conheci um fantasma. Pois é, fantasmas existem! E ele ficou pendurando a minha vida por três anos. Era o meu sapo encantado. Nunca o conheci fisicamente. Sempre mandava um intermediador .
Se o banco do estacionamento do Center Norte e o bairro de Santana falassem quantas vezes sentei ali com este intermediador e sempre aguardando ansiosa a presença dele... só eu sei. E novamente fui estuprada financeira, sentimental e sexualmente. Eu tirava fotos nua praticando orgias avassaladoras.
Ele nunca apareceu. E novamente fiquei num parapeito, mas, decidi recomeçar. E lá vai trabalhar novamente porque por ele parei de trabalhar para abrirmos um escritório. E pela primeira vez passei a cuidar de “mim”. Foi um bom período. Só dediquei a mim: academia, caminhada, aulas de dança, não bebia e não sentia mais o gosto amargo da vida.
Depois de quatro anos apareceu outro estrume. Não aprendi a me defender corretamente, sei lá. Não, não aprendi a me defender. O relacionamento com o estrume foi ótimo nos primeiros anos e chegamos a morar juntos. E como sempre, tudo no meu nome: apartamento, contas, etc.
Quando estava “tentando” engravidar novamente fui chamada de irresponsável. E quando houve o final do relacionamento fui a puta , a vaca e a culpa de não ter dado certo era minha. Depois de alguns meses que consegui tirar meu nome do aluguel, antes de vencer o prazo de entregar o apto e descobri que ele tinha um relacionamento com outra e hoje ele tem uma filha deste relacionamento.
E estou aqui, sentindo o vento sussurrando nos meus ouvidos, o calor do sol transcendendo meu corpo e alma. Alma que alma?! Não tenho alma. Apenas eu estou aqui. O que vivi? Vivi muito mais do que isso, mas estou realizada. Mas, não quero mais.