Edição 14

Pode soltar minha mão agora

Paula Klaus

Continuo sentada na poltrona velha de sempre. As imagens rodam como um filme frente meus olhos quase úmidos. A lembrança é como um suicídio involuntário, que vai matando aos poucos, que não consigo evitar. Saudade incomensurável, desejo absoluto pelo mesmo abraço. Tento buscar respostas pra entender onde foi que nos desencontramos. É inútil continuar esperando que as respostas emirjam. Mas é difícil agüentar as horas passando por mim sem que minhas pernas estremeçam cada vez mais e mais violentamente. É quase impossível não enlouquecer.Mais imagens, o filme não pára de rodar. Aquela música, naquela casa que não tinha uma poltrona como essa, nem lágrimas sentidas, nem mentiras jogadas contra paredes. Um corpo grudado ao seu e muita coisa a dizer. Os olhares. O filme, agora pára. Percebo um brilho em seus olhos que jamais havia notado. Seu sorriso perfeito, carregado de uma felicidade que há muito eu não soube apreciar. Muito amor ali, e você me parecia mais feliz. Senti uma pontada no peito. Não era eu do seu lado. O cabelo encaracolado que você ajeitava pela manhã não eram os meus. Eu estava na mesma poltrona velha desde então. Agora me afundo ainda mais no meu egoísmo sem conseguir controlar o pavor de perder você novamente e agora de uma vez por todas. As lágrimas escorregam na face enquanto tento desenterrar esse punhal, que eu mesma cravei no peito, em vão. É mais que egoísmo, meu desespero não é apenas egoísmo. Tudo perde o sentido se você não estiver por perto, se você não estiver perto de mim. As quedas serão apenas mais um pretexto pra continuar imóvel. Porque eu quis tentar esconder, eu quis não olhar pra isso que esteve o tempo todo sobre meus ombros. Aquilo que sempre desacreditei ser sincero ou real, ainda que sempre estivesse estampado nos meus olhos, que nunca souberam te admirar, no meu sorriso que nunca foi tão sincero quanto a saudade que ficou. Abominei demonstrações de afeto porque achei que parecer mais forte era essencial. Queima mais que todas as certezas que formulei durante a vida. Quero que o mesmo sorriso dessa imagem congelada perdure no seu rosto, e com o mesmo brilho nos olhos. Mesmo longe, afastado do meu abraço que não fez mais que sufocar. Vou morrer em silêncio pra não atrapalhar sua festa. Não precisa mais se preocupar comigo, eu continuo no mesmo lugar. Vou odiar cada pensamento bonito que as lembranças insistirem em me trazer de volta, vou amaldiçoar cada segundo de fraqueza. Por que o mais importante agora é te ver feliz. Eu te amo! E é por isso que nunca mais vai ouvir falar de mim, porque as coisas não são fáceis quando a gente dá ouvidos ao coração. Tomara que você não morra primeiro, porque chorar é algo que eu quero desaprender.