Pode soltar minha mão agora
Continuo
sentada na poltrona velha de sempre. As imagens rodam como um filme
frente meus olhos quase úmidos. A lembrança é como um suicídio
involuntário, que vai matando aos poucos, que não consigo evitar.
Saudade incomensurável, desejo absoluto pelo mesmo abraço. Tento buscar
respostas pra entender onde foi que nos desencontramos. É inútil
continuar esperando que as respostas emirjam. Mas é difícil agüentar as
horas passando por mim sem que minhas pernas estremeçam cada vez mais e
mais violentamente. É quase impossível não enlouquecer.Mais imagens, o
filme não pára de rodar. Aquela música, naquela casa que não tinha uma
poltrona como essa, nem lágrimas sentidas, nem mentiras jogadas contra
paredes. Um corpo grudado ao seu e muita coisa a dizer. Os olhares. O
filme, agora pára. Percebo um brilho em seus olhos que jamais havia
notado. Seu sorriso perfeito, carregado de uma felicidade que há muito
eu não soube apreciar. Muito amor ali, e você me parecia mais feliz.
Senti uma pontada no peito. Não era eu do seu lado. O cabelo
encaracolado que você ajeitava pela manhã não eram os meus. Eu estava
na mesma poltrona velha desde então. Agora me afundo ainda mais no meu
egoísmo sem conseguir controlar o pavor de perder você novamente e
agora de uma vez por todas. As lágrimas escorregam na face enquanto
tento desenterrar esse punhal, que eu mesma cravei no peito, em vão. É
mais que egoísmo, meu desespero não é apenas egoísmo. Tudo perde o
sentido se você não estiver por perto, se você não estiver perto de
mim. As quedas serão apenas mais um pretexto pra continuar imóvel.
Porque eu quis tentar esconder, eu quis não olhar pra isso que esteve o
tempo todo sobre meus ombros. Aquilo que sempre desacreditei ser
sincero ou real, ainda que sempre estivesse estampado nos meus olhos,
que nunca souberam te admirar, no meu sorriso que nunca foi tão sincero
quanto a saudade que ficou. Abominei demonstrações de afeto porque
achei que parecer mais forte era essencial. Queima mais que todas as
certezas que formulei durante a vida. Quero que o mesmo sorriso dessa
imagem congelada perdure no seu rosto, e com o mesmo brilho nos olhos.
Mesmo longe, afastado do meu abraço que não fez mais que sufocar. Vou
morrer em silêncio pra não atrapalhar sua festa. Não precisa mais se
preocupar comigo, eu continuo no mesmo lugar. Vou odiar cada pensamento
bonito que as lembranças insistirem em me trazer de volta, vou
amaldiçoar cada segundo de fraqueza. Por que o mais importante agora é
te ver feliz. Eu te amo! E é por isso que nunca mais vai ouvir falar de
mim, porque as coisas não são fáceis quando a gente dá ouvidos ao
coração. Tomara que você não morra primeiro, porque chorar é algo que
eu quero desaprender.