Flashback em black tie
Alguns crimes estão incrustados na minha epiderme e se manifestam pelo corpo como uma célula junkie e amaldiçoam noites e dias. Aterrorizam meu coração na mesma hora em que desejo decepar minha cabeça numa guilhotina escutando Morphine no escuro do meu quarto. O dia me persegue como um gângster obstinado. Obtenho habeas corpus pra manter minha liberdade condicional. Não ouço conselhos. O sono é uma cautela necessária que desprezo por mero desequilíbrio. Meu abismo é meu bunker. Leio algumas canções de Whitman enquanto os desertores passeiam pela minha porta e isso me fortalece. Nunca tive amigos imaginários na infância e sim um velho circo de horrores com mulheres barbadas cortando minha garganta enquanto eu apenas sentava na beira da cama e as assistia. Acumulei um bocado de flashbacks em black tie. Acumulei crimes e olhares desesperados das minhas vítimas. Depois de chorar durante horas em tardes chuvosas, bastava deixar que os fantasmas caminhassem lentamente pela noite. Bastava ficar calado e eles respeitariam o silêncio de um moleque de dez anos.