O pássaro
Nesta
manhã, um pássaro me visitou subitamente. Perdeu o rumo, atravessou a
janela e ficou na minha sala saltitante. Tratei de abrir as portas,
como se deve fazer com as criaturas que desejam ir. Antes, observei
seus pulos em volta da minha cadeira, o debater das asas, o susto de se
encontrar num ambiente estranho sem aviso e de forma repentina. Também
corri para retirar o gato. Sou avessa a mortes desnecessárias e as
comparo a certos sacrifícios sem motivo, depois da dádiva, depois da
graça, depois da amizade, depois da doação.
Às vezes me sinto
como um pássaro, moldando meu vôo a circunstâncias que não desejo, mas
que acontecem me deixando nada mais que a necessidade de uma adequação.
Nem sempre deixam portas abertas, tampouco respostas. E quando este
vazio é o resultado inesperado de uma plenitude que se esvai sem que
ninguém explique por que, penso na fragilidade das relações humanas,
como um pássaro que se debate. Então, percebo que tenho que me moldar à
realidade, pela falta absoluta de um caminho onde caibam minhas
perguntas. E cumpro o rito, contrariada. São tantas as águas, as
lágrimas, a saliva, os fluidos que se esvaem para deixar seco o leito
do meu imenso afeto. Acho que, no fim de tudo, apenas nos tornamos
mestres na arte de fazer o líquido caber na garrafa. Mas emoções
transbordam.