Edição 16

O pássaro

Célia Musilli

Nesta manhã, um pássaro me visitou subitamente. Perdeu o rumo, atravessou a janela e ficou na minha sala saltitante. Tratei de abrir as portas, como se deve fazer com as criaturas que desejam ir. Antes, observei seus pulos em volta da minha cadeira, o debater das asas, o susto de se encontrar num ambiente estranho sem aviso e de forma repentina. Também corri para retirar o gato. Sou avessa a mortes desnecessárias e as comparo a certos sacrifícios sem motivo, depois da dádiva, depois da graça, depois da amizade, depois da doação.

Às vezes me sinto como um pássaro, moldando meu vôo a circunstâncias que não desejo, mas que acontecem me deixando nada mais que a necessidade de uma adequação. Nem sempre deixam portas abertas, tampouco respostas. E quando este vazio é o resultado inesperado de uma plenitude que se esvai sem que ninguém explique por que, penso na fragilidade das relações humanas, como um pássaro que se debate. Então, percebo que tenho que me moldar à realidade, pela falta absoluta de um caminho onde caibam minhas perguntas. E cumpro o rito, contrariada. São tantas as águas, as lágrimas, a saliva, os fluidos que se esvaem para deixar seco o leito do meu imenso afeto. Acho que, no fim de tudo, apenas nos tornamos mestres na arte de fazer o líquido caber na garrafa. Mas emoções transbordam.