Edição 16

Zoobwerghetan Pholynaryus Hestypulathus

Cesar Ribeiro

Hoje o tempo parou. Na fresta da janela há espiões. Eles espreitam o último suspiro. Darão graças quando o livro estiver terminado. Talvez o sol, ou a chuva, alguém deve cair. Iluminado por um néon verde toda fruta é abacate. O homem em suas preces. A cruz na mão esquerda e o seio na mão direita. Bebe o líquido e ora um pouco. Todos somos crianças na hora do desatino. Quando ela fala de amores, ele finge surdez. A lágrima cai e nasce um espinho. Somos todos cães em busca de ossos. Mas o cemitério está distante. Um ou outro cadáver dança Thriller. Michael Jackson sem os irmãos. Você conhece a Latoya? Conhece o Vesgo? O filho da Xuxa? Você conhece os papiros que diziam que somos todos deuses astronautas? A nave estacionou no centro da cidade. Mendigos foram queimados pela turbina. O memorial carrega os nomes. Como carregar nomes se são todos anônimos. Na televisão se olha a população sentada diante do último capítulo da novela. E todos foram felizes para sempre. O que quer dizer que morreram no minuto seguinte. Se você olha para trás, o que você enxerga? As costas talvez. É a nossa máxima visão. E o futuro é nariz, com dois buracos cheios de algodão. Ela pára ao lado do sinal, a luz está vermelha, mas ela é gostosa, top de linha. Os carros param. Ela atravessa rebolando. Eu paro diante do sinal. O farol está vermelho. Tento o mesmo movimento. Os carros atropelam e levam alguns dedos do pé. Nas mãos havia uma carta. Acho que algum tipo de original de Goethe. Ou as cartas ao pai. Helicópteros cruzam os céus. Na avenida o samba começa. Serpentinas e confetes. Cantam a Amazônia. A extinção da espécie. Um uísque paraguaio embebeba uma boneca Barbie. A boneca consegue 15 milhões de indenização na Suprema Corte. Seduzida pelo álcool, transou com 15 Playmobill e vai dar à luz uma coleção de facas Ginsu. Faça academia. Coma a cada duas horas. Trepe sem camisinha, pois o coito é só para procriação da espécie. O corpo e o sangue de Cristo. O dízimo para a construção do templo e da piscina. O budismo é harmonia. A religião é a seringa do povo. Me dá um abraço, e Cristo se estende sobre a Guanabara. Fala Caetano. Fala Gil. A tropicália é o axé invertido. Somos igualmente bons e perfeitamente belos. Após a cirurgia plástica. E a modelete agora tem cara de bunda porque o botox não deu certo. Clodovil um dia será deputado, e Maluf um dia será rei. E o Pelé samba em uma nota só. E os cientistas da Nasa descobriram que espaguete na Lua tem sabor de carne de sol e baixo nível de colesterol. Somos todos vítimas da úlcera. E do câncer no cérebro. Mas o papagaio que denunciou o pirata foi assassinado enquanto o pirata continua desfilando na Casa Branca. Eu queria somente um amor, um amor com gosto de fruta madura que trouxesse recordações do que nunca vivi. A felicidade nos livros de auto-ajuda e nas cartilhas de filosofia e nos romances franceses na cabeça de cada um. E então descobriram que o mundo é novo, e o homem é velho. Velho como seus ideais. Em breve morrerão. Faça sol ou chuva, falar ao celular combate a cárie. E todos teremos belos sorrisos para contemplar o cadáver. O cadáver da história. Qual história você conta? A sua infância foi feliz? Você teve uma vida triste? Se sente sozinho? Quando deita na cama teu travesseiro fica molhado de suor, baba e choro. Quem dorme contigo? Quem acorda contigo? Quem passa o dia contigo? Você é um cara bacana? Você é um cara profundo? É apenas um chato? Olha pela janela do apartamento os pés que vão e vêm enquanto os seus estão parados? Ela te pede para sair? Você quer ir dançar? Quer ir ao shopping? Ao cinema? Ao teatro? Uma viagem no feriado até Santos? E teu trabalho de alegra quando você percebe que sem você tudo continuaria do mesmo jeito? Jogue na loteria e consiga seu milhão. Tenha uma vida feliz. Ajude a família, ajude os amigos, doe uma parte para a caridade. Responsabilidade social. Abra uma empresa e seja senhor do seu destino, talvez uma consultoria de marketing. Ligue o telefone. Faça sua rede social. Comunique-se. Internet, celular, carta, mesa de bar. Happy hour na hora do rush. Esperar a multidão de carros que voltam para suas casas para o jantar, a trepada e o sono. Quem escuta seu choro durante as madrugadas? Quem escuta seu choro durante as madrugadas? Quem escuta seu choro durante as madrugadas?
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