Edição 16

RDI cb BECKA

Daniel Faria

 Blues

            na escuridão de cobre. Velas com as chamas vermelhas. 
 

      Luz, lâmina fria no cabelo preto da arquiteta noiva fora de hora. 
 

      Joga-se ouro do terraço do Altíssimo 

                  prédio e caem pedaços de carne podre numa marmita (cobertores pretos, brancos, amarelos). 
 

      Castelos góticos de areia. Cristais de sangue brotando como cicatrizes na cidade degradada. 
 

      Dois santos brincam de cabo de guerra. Outro esmaga um pássaro com o pé. O silêncio dos infames é comprado pela bagatela de 2 reais. 
 

      A luz oblíqua do inverno sobre o letreiro vermelho que conta em centésimos de segundo o dinheiro desperdiçado é a mesma (democrática) que acende o sorriso do jeito de andar da cidade repleta de noivas. Eu me casaria com a arquiteta ao som de canto gregoriano. Eu seria o amante sentado na última fileira no dia do casamento, rindo por dentro do noivo corneado minha incompetência pra canalhice. Eu morreria e renasceria como o Anjo Exterminador parado em frente à Igreja. Eu sopraria o vento em direção contrária, saindo pelas janelas do Edifício São Vito e dinamitando o Martinelli. Eu voltaria pra casa arranhando a janela do ônibus. 
 

      A única beleza espontânea desse dia foi aquela que aumentou sua solidão.