Edição 16

Carta ao fim da estrada

Karina Abramovich

Esta tarde retirei, brilhante de dentro da caixa de correio, uma carta sua manchada de amor. E todo aquele amor envolto em lágrimas me fez (quase) sentir o seu desespero. Desespero esse no qual (quase) me embalo pra conseguir dormir á noite. Você me pergunta como tenho ido. Tenho ficado, minha pepita. Tudo que faço é olhar pro teto e andar de um extremo a outro da casa sem lareira. Pego meu baralho e tento jogar comigo mesma, bato minha cinza no chão e escrevo uma ou duas folhas de papel, que ninguém vai ler – por que não quero que ninguém leia, não enquanto eu não puder olhar meu caixão de frente, a madeira preta e as flores lilases escorrendo. Assistir na primeira fila um enxoval de pêsames constrangidos enquanto eu grito sozinha envolta nas minhas lágrimas que “eu estou aqui”. Por que Pérola, você sabe que eu não quero morrer. Eu quero conquistar umas estrelas ali daquele céu, ó, que, mesmo que todo mundo fosse rir da minha cara, eu juraria em palanque alto que são minhas. Depois podia te dar mil delas de presente, pra enfeitar o teto do teu quarto que era tão vazio. Pra honrar as minhas promessas de te fazer enxergar aquele monte de coisas que você sabia que existia mas que nunca tinha visto. Pra te dizer que quando você quis conquistar o mundo, a culpa de você não ter conseguido pode ter sido minha. E que eu sofri ao ver o brilho dos seus olhos perderem um pouco da força. Os seus olhos em preto e branco. Os olhos que imploram e merecem outros olhares. Pérola rainha. A carta amassada nas minhas mãos trêmulas de ansiedade. Eu acabei roubando tudo que era teu e não soube o que fazer depois. O teu brilho era forte demais pra mim, e eu achava que eu era mais forte que qualquer coisa. Agora, meu último ato desse teatro sem fim, foi esse: escrever meu nome junto ao teu, ali na tua assinatura da carta.