Edição 16

Do que elas sempre precisam

Paula Klaus

Dia desses reencontrei uma mulher que fora a tempos distantes minha namorada. Trocamos algumas palavras, relembramos algumas cenas. Me disse que não sente saudades daquele tempo, que a vida dela melhorou "horrores" depois que conheceu o tal do Fernando, seu primeiro marido, e que agora estava mais apaixonada que nunca em seu terceiro casamento. Me contou das viagens que fez pelo mundo e aproveitou pra dizer que mora num apartamento bacana numa rua que sei bem onde fica. Antes de ir ainda jogou os cabelos pelos ombros e sorriu como se estivesse me provando alguma coisa.

Tenho uma mulher agora. Acho que somos namorados, ela me olha com ternura. Outro dia ela quase perfurou meu crânio. Não encontrava as chaves de casa e levei uma multa quando contornei a via pra tentar encontrar o molho perdido. Tentei conversar com o guarda que tinha um nariz torto, sem êxito. Quando cheguei na porta de casa, assim que pus o pé fora do veículo, percebi algo lamascento. Que dia. Entrei em casa com a cabeça girando na velocidade da luz e já dentro do meu doce lar senti um vaso de porcelana trincar na minha nuca. Tudo por conta de uma franja meio centímetro mais curta, que na ocasião estava penteada pro lado contrário do costumeiro, que não notei entre o segundo e o terceiro passo, eis que quase deixo este mundo.

Minha irmã trabalha em uma loja de artigos femininos, traz de lá ótimas estórias pra divertir nossas noites de confraternização. As mulheres levam suas vidas a essas lojas e trocam tudo quanto as fazem sofrer por bolsas, sapatos e 'cacarecos' do tipo, é o que diz a gerente (minha irmã).

Eu não tenho nada contra um telefonema fora de hora só pra dizer que faltam poucas horas pro encontro. Só não dou esse telefonema, é simples. A mulher que me traz café, sempre nos mesmos horários, usa uma blusa branca com um sutiã que me parece vermelho nada escondido por baixo, ela deita sobre a mesa pra me servir uma xícara e fica me olhando enquanto olho seus peitos. Dá uma volta pela sala e diz que seu noivo não entende que ela precisa de todas aquelas coisas senão não há como esse casamento acontecer. Volta até mim pra retirar a xícara e debruça os peitos dentro da blusa branca sobre a minha mesa. O telefone toca e a voz do outro lado tenta ser quase simpática. Não entendo como depois de tanto tempo, e de um namoro quase infantil, ainda haja assunto entre um casal de ex-namorados. Gosto de continuar amigo das minhas garotas do passado, até me surpreendo relembrando momentos agradáveis. Mas quando suas vidas estão bem resolvidas e tudo o mais vai bem, acredito que estejam melhor longe das minhas velhas e remotas estórias cretinas. É o que tenho pra lhes oferecer desde sempre. Reencontros, esbarros ao acaso , o telefone volta a tocar. E de novo cobranças tolas, crises insolúveis, conversas intermináveis.

Elas gostam disso. Definitivamente. Reclamam o tempo inteiro quando estamos com elas, quando as deixamos (na maioria das vezes somos deixados) ficam loucas e mudam completamente e voltam a ser aquelas do princípio, as que nos fazia perder noites de sono. Racham nossos crânios, enlouquecem nossa vida e quando tudo parece finalmente resolvido, voltam pra tentar acabar com algo que ainda esteja intacto, e algumas vezes conseguem. E dizem que tudo ficou muito melhor, mais bonito, menos doloroso.

Por que raios elas voltam? Se tudo está "o máximo", por que voltam e tentam reviver as mesmas implicações já empoeiradas?

Posso arriscar a reposta: porque PRECISAM de nós. Porque mesmo com suas vidas transformadas, com seus desejos quase sempre realizados e sem motivo nenhum pra reclamar, vão sentir uma falta tão grande daquilo que tiveram e deixaram o tempo gastar que vão esperar com seus melhores vestidos o momento do reencontro, do esbarrão ao acaso e de recomeçar tudo em novos telefonemas.