Do que elas sempre precisam
Dia
desses reencontrei uma mulher que fora a tempos distantes minha
namorada. Trocamos algumas palavras, relembramos algumas cenas. Me
disse que não sente saudades daquele tempo, que a vida dela melhorou
"horrores" depois que conheceu o tal do Fernando, seu primeiro marido,
e que agora estava mais apaixonada que nunca em seu terceiro casamento.
Me contou das viagens que fez pelo mundo e aproveitou pra dizer que
mora num apartamento bacana numa rua que sei bem onde fica. Antes de ir
ainda jogou os cabelos pelos ombros e sorriu como se estivesse me
provando alguma coisa.
Tenho uma mulher agora. Acho que somos
namorados, ela me olha com ternura. Outro dia ela quase perfurou meu
crânio. Não encontrava as chaves de casa e levei uma multa quando
contornei a via pra tentar encontrar o molho perdido. Tentei conversar
com o guarda que tinha um nariz torto, sem êxito. Quando cheguei na
porta de casa, assim que pus o pé fora do veículo, percebi algo
lamascento. Que dia. Entrei em casa com a cabeça girando na velocidade
da luz e já dentro do meu doce lar senti um vaso de porcelana trincar
na minha nuca. Tudo por conta de uma franja meio centímetro mais curta,
que na ocasião estava penteada pro lado contrário do costumeiro, que
não notei entre o segundo e o terceiro passo, eis que quase deixo este
mundo.
Minha irmã trabalha em uma loja de artigos femininos,
traz de lá ótimas estórias pra divertir nossas noites de
confraternização. As mulheres levam suas vidas a essas lojas e trocam
tudo quanto as fazem sofrer por bolsas, sapatos e 'cacarecos' do tipo,
é o que diz a gerente (minha irmã).
Eu não tenho nada contra
um telefonema fora de hora só pra dizer que faltam poucas horas pro
encontro. Só não dou esse telefonema, é simples. A mulher que me traz
café, sempre nos mesmos horários, usa uma blusa branca com um sutiã que
me parece vermelho nada escondido por baixo, ela deita sobre a mesa pra
me servir uma xícara e fica me olhando enquanto olho seus peitos. Dá
uma volta pela sala e diz que seu noivo não entende que ela precisa de
todas aquelas coisas senão não há como esse casamento acontecer. Volta
até mim pra retirar a xícara e debruça os peitos dentro da blusa branca
sobre a minha mesa. O telefone toca e a voz do outro lado tenta ser
quase simpática. Não entendo como depois de tanto tempo, e de um namoro
quase infantil, ainda haja assunto entre um casal de ex-namorados.
Gosto de continuar amigo das minhas garotas do passado, até me
surpreendo relembrando momentos agradáveis. Mas quando suas vidas estão
bem resolvidas e tudo o mais vai bem, acredito que estejam melhor longe
das minhas velhas e remotas estórias cretinas. É o que tenho pra lhes
oferecer desde sempre. Reencontros, esbarros ao acaso , o telefone
volta a tocar. E de novo cobranças tolas, crises insolúveis, conversas
intermináveis.
Elas gostam disso. Definitivamente. Reclamam o
tempo inteiro quando estamos com elas, quando as deixamos (na maioria
das vezes somos deixados) ficam loucas e mudam completamente e voltam a
ser aquelas do princípio, as que nos fazia perder noites de sono.
Racham nossos crânios, enlouquecem nossa vida e quando tudo parece
finalmente resolvido, voltam pra tentar acabar com algo que ainda
esteja intacto, e algumas vezes conseguem. E dizem que tudo ficou muito
melhor, mais bonito, menos doloroso.
Por que raios elas voltam? Se tudo está "o máximo", por que voltam e tentam reviver as mesmas implicações já empoeiradas?
Posso
arriscar a reposta: porque PRECISAM de nós. Porque mesmo com suas vidas
transformadas, com seus desejos quase sempre realizados e sem motivo
nenhum pra reclamar, vão sentir uma falta tão grande daquilo que
tiveram e deixaram o tempo gastar que vão esperar com seus melhores
vestidos o momento do reencontro, do esbarrão ao acaso e de recomeçar
tudo em novos telefonemas.