Edição 16

Papagaio come milho, piriquito leva fama

Nicole Louise

-- Tia, você continua escrevendo muito?

-- Sim, todos os dias.

-- Você acha que vai ficar famosa?

-- Háá-há... não sei Helena, não sei mesmo.

-- O que você escreve?

-- No trabalho ou em casa?

-- Nos dois...

-- No trabalho escrevo textos para anúncios de revistas, jornais, outdoors... e em casa escrevo contos, crônicas, artigos...

-- Você não escreve poemas?

-- Ah, é! Poemas também.

-- Então você vai morrer de tuberculose...

-- Quêê?!

-- Você-vai-morrer-de-tu-ber-cu-lo-se.

-- De onde diabos você tirou isso menina?

-- Eu não... ele.

-- Ele quem?

-- O meu professor de redação lá da escola...

-- Ele disse que eu vou morrer de tuberculose?

-- Nãão tia! Ele disse que todos os poetas morrem de tuberculose.

-- Hãã?! Ele disse isso?

-- Disse sim... falou de Gonçalves Dias e até de um tal de Buko... Bukoysky...

-- Bukowski.

-- ÉÉ... esse mesmo. Meu professor falou que quanto melhor o poeta, pior a morte.

-- Mas que absurdo!!!

-- Será mesmo? Ou você tá com medo de morrer de tuberculose, tia?

-- Escuta Lívia, escuta direitinho. Primeiro: o Bukowski morreu de Leucemia, nãão de tuberculose; segundo: ainda que ele tivesse morrido de tuberculose, muitos outros poetas sequer tiveram essa doença ao longo da vida.

-- Pode ser... Mas ele falou que os que não morreram de um jeito horroroso se mataram.

-- ÉÉ verdade sim que alguns poetas tiveram mortes horríveis, mas não são só eles, o que acontece com eles, acontece com todo o tipo de gente. Todo dia alguém morre atropelado, afogado, queimado ou de alguma doença grave, e nem metade deles são escritores... O seu professor está exagerando. Ele deve ser um escritor enrustido, reprimido, ou pior: nada talentoso e falido para falar tantas bobagens...

-- Mas eu já ouvi falar sobre um monte de gente que escreveu livros e que se matou.

-- Deve ter ouvido mesmo... se matar é uma das coisas que, infelizmente, muitos deles decidiram fazer, mas repito: isso não tem a ver com ser escritor ou com o fato de eles terem publicado livros, Lívia.  Alguns se mataram porque se sentiam muito sozinhos, ou incompreendidos; eram pessoas solitárias, carentes demais que não encontraram do lado de fora, às vezes nem mesmo dentro de suas casas, o que os fizesse sentir melhor, então acabaram se entregando ao isolamento e durante esse isolamento escreveram muito sobre como se sentiam... Grande parte desses escritores só teve seu talento reconhecido depois de terem morrido. Então eles não morreram porque eram escritores famosos, ou porque escreviam poemas; outros tantos escritores famosos morreram depois de serem contaminados por diversas doenças simplesmente porque nãão conseguiam viver bem só com o que ganhavam escrevendo. Morreram de tuberculose, pneumonia ou coisa parecida porque moravam em lugares muito humildes, sujos... Lugares onde as chances de contraírem alguma doença eram bem maiores do que a nossa, por exemplo, porque eu e você temos água potável, energia elétrica, banheiro com descarga, faxineira para manter tudo limpinho, entende? Mas ainda sim corremos o risco, apesar de ser um risco menor, de pegarmos uma tuberculose... Entendeu?

-- Ah, hãn...

-- Então quando seu professor fala que muitos escritores tiveram mortes terrííveis, é verdade sim, mas não foram só eles, pode acontecer com qualquer pessoa, ok?

-- Ok...

-- Entendeu mesmo?

-- Entendi.

-- Agora vamos almoçar porque estou faminta...

-- Táá. 

     Sentamos à mesa e confesso ter adorado a sensação de ver aquele frango assado enorme, estatelado no meio de todos nós... Duas décadas se passaram desde o meu nascimento e minha mãe ainda insiste na macarronada com frango assado aos domingos. Faminta, tratei de colocar um pedaço de peito bem grande e bem carnudo (e um outro mais magro pra eu curtir os ossinhos), três colheres grandes do arroz temperado e uma concha cheinha de feijão no prato; comecei a comer com a ânsia de quem não comia há dias: enchendo a boca, mastigando e engolindo, mastigando e engolido, tudo bem rápido...  repeti o movimento várias vezes até que: ”Uham, uham... cof-cof-coof-coooof!!!” - uma vontade insuportável de tossir tomou conta de mim bem na hora em que eu me deliciava com o osso da asa do frango. 

     Quanto mais o osso bifurcado descia rasgando a minha garganta, mais eu fazia mímicas implorando por um copo d`água; o papai ficou tão aflito ao me ver ficar roxa que nem conseguiu se mexer, a Helena deu a volta na mesa e levantou os meus braços - o que apesar da boa intenção, não adiantou NADA.  Eu já estava pensando em como seria triste morrer sem dizer as tais das últimas palavras, até que a Jô deu um tapa tão forte nas minhas costas que finalmente pude ver o maldito osso assassino saltar pra fora de minha boca e ir parar do outro lado da cozinha, perto da geladeira. 

     Quando eu finalmente pude sentir o oxigênio chegando aos meus pulmões novamente, percebi que todos, menos a Lívia, haviam parado de comer e me olhavam preocupados... Minha mãe me ofereceu um copo de suco, passou as mãos nas costas do meu pai sussurrando: “está tudo bem, querido, foi só uma tossezinha” e enquanto eu tomava tudo em gute-gute, ouvi a Lívia dizer baixinho: 

- Ou tuberculose...