Pulseiras cor de rosa
lembrou-se de uma vez que sua mãe comprara umas pulseiras cor de rosa. Sentiu vontade apagar o cigarro e pular do oitavo andar. Como gostava de pulseiras! Essas duraram anos e anos. Guardava em seu armário, dentro de uma caixa de chocolate vazia. Vazia de chocolate, lá dentro tinham as pulseiras, duas figurinhas com cheiro de chiclete e uma pequena porção de conchas do mar.
Havia ainda umas canetas sem tinta, mas essas não duravam muito tempo dentro da caixinha, eram sempre substituídas. Toda vez que acabava a tinta de uma caneta de que gostava muito (e gostava muito de canetas), ela deixava guardada por um tempo dentro da caixinha.
Mas havia uma regra: não podia guardar todas, quando entrava uma nova sem tinta na caixinha, uma devia ser descartada do grupo. Dadá então pegava uma das velhas sem tinta, embrulhava-a e colocava com carinho dentro do lixo da cozinha. Sentia uma tristeza imensa quando tinha de fazer isso, mas obedecia a regra.
Não pulou. Claro que não pulou. “Dadá, você conhece meus tios de Franca, não conhece?”. Não, não conhecia ninguém com uma bochecha tão magra e um nariz tão vermelho. “É um prazer revê-los”. Dadá bebia uma batidinha de limão. Estava fraca e doce. “Não, não os conheço.
Muito prazer”. Apagou o cigarro. Mas não pulou. Olhou o anel de ouro em sua mão esquerda. “Você ainda não os apresentou”. Tinha sempre dentro do armário umas cartinhas secretas. Não, não era nada com diário ou com namorados. Eram secretas. Não pulou, não pularia.
Viu o cabelo do pessoal de Marília. Sorriu com prazer. “Vocês não puderam vir ao casamento. Lembro-me muito bem da carta que recebemos”. A cama ficava em frente ao armário. Via-se pelo espelho enquanto sentava-se na cama para amarrar o tênis Tinha tão belas pernas.
“Não, quem mandou a carta foram meus tios de Rio Preto”. As pulseiras a fariam pular. Apagou outro cigarro. Apagou outra batida. Só não pôde apagar tanta gente sorrindo e estendendo-lhe a mão. Olhou para o anel de ouro. Poderia pular e ter de volta as pulseiras, as conchinhas, o espelho.
O segredo. Podia pular e não saber de mais nada de cidade nenhuma. Podia colocar o anel dentro de algum copo de batida e esquecer os cabelos, as bochechas, os sorrisos de Franca e Rio Preto. Se pulasse não precisaria sorrir e dizer “muito prazer”. Mas talvez dissesse.
“Dadá, traga as fotos, ela está linda nas fotos”. A Dadá sorri e vê que está sem as pulseiras. Ao invés das fotos, pega outra batida de limão. A Dadá pula. Sim, ela pula uma parte importante da história. Não se lembra mais dos segredos. “As fotos, querida”.
Um sorriso para o pessoal de Franca, um gesto delicado para os de Rio Preto, talvez o mesmo gesto para os de Marília. Um adeus sincero e desesperado às pulseiras, segredos e conchas. Um muito prazer a todas as cartas, ao anel de ouro, ao armário e ao espelho.
Perdão às canetas descartadas. Um salto. Um sorriso franco e de muito prazer. Um salto alto tão querido quanto as pulseiras cor de rosa. Via pelo espelho. Um destino a salvo e um muito prazer tão secreto quanto suas cartas escondidas dentro armário. Do oitavo andar, sentia o cheiro de chiclete das figurinhas.
Tentou, certa vez, encapar a caixinha com papel de presente. Nunca levou jeito com trabalhos manuais, então desistiu de encapar a caixa. Rasgou o papel como rasgou o sorriso do pessoal de Rio Preto. Foi salto, \u003c/font\>\u003c/p\>\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0pt;text-align:justify\"\>\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\" size\u003d\"3\"\> \u003c/font\>\u003c/p\>\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0pt;text-align:justify\"\>\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\" size\u003d\"3\"\> \u003c/font\>\u003c/p\>\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0pt;text-align:right\" align\u003d\"right\"\>\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\" size\u003d\"3\"\>Bianca Nóbrega.\u003c/font\>\u003c/p\>\u003c/div\>\u003c/div\>\n",0] ); D(["ce"]); //--> em verdade.
Não poderia ser um acidente, menos um pulo. Pular é de uma grosseria desnecessária para Dadá. Saltou com os braços cruzados. A mão esquerda segurando o pulso da direita. Pés bem calçados. Do céu saltara Dadá. Do céu também saltaram duzentas e trinta e seis pulseiras, quinhentas e vinte e duas figurinhas, oitenta e nove conchinhas, sessenta e quatro chicletes e somente um segredo.