Nina
bom copo de Chopp gelado e uma japonesa de óculos escuros são duas coisas muito difíceis de combinar. Principalmente numa tarde nebulosa e fria de um sábado sonolento e sem expectativas feito aquele. Quando cheguei ao Bar do Caveira, o relógio em formato de peixe espada que a anos está estrategicamente posicionado no mesmo lugar ( ao lado de um pôster desbotado do Besouro Verde), marcava exatamente três horas da tarde.
Das não mais que seis cadeiras que rodeavam o balcão, apenas uma estava ocupada, e meio que por acaso, fiz questão de sentar-me ali, justamente ao lado dessa, que estava ocupada por uma cabisbaixa e pensativa Japonesa de óculos escuros. Caveira que até então se mantinha ocupado lavando uma quantidade razoável de louça, ao perceber minha presença enxugou as mãos numa toalha (que um dia havia sido branca, mas que aquela altura era tão ou mais escura que a cor de seu balcão), e antecipando meu pedido abriu uma gelada e me serviu cochichando.
-Demorou hein?Achei que não vinha mais! Fazia mais de dois anos que freqüentava o Bar do Caveira, e confesso que me surpreendi com tal atitude, logo ele que não era de muita conversa, naquele simples ato de cochichar ao pé do meu ouvido tinha quebrado uma escrita que eu nunca achava que fosse possível.
Tanto me assustei que tive uma reação simultânea e sem rodeios. -Qual é, está me estranhando, Caveira? Ele aproximou-se mais ainda e pude sentir seu bafo acebolado na minha cara quando sussurrou. -Essa Japonesa está te esperando faz um tempão! Não fiz questão nenhuma de ser delicado ou transparecer educação.
Virei de supetão e coloquei-me a observá-la de cima em baixo. -Vê mais um Chopp pra mim, Caveira! Quando ela fez o pedido já estava de pé, não era lá muito alta, deveria ter um metro setenta e alguma coisa, se tirasse as botas chegaria a um e sessenta e pouco.
Além das botas estilosas, ela vestia uma calça de couro preta extremamente apertada que era para combinar com o sobretudo, o chapéu ridículo e os óculos escuros. Ela já estava bem próxima à porta do banheiro quando Caveira atabalhoadamente veio em minha direção novamente.
-É o oitavo copo que a Japa vira pra baixo em menos de meia hora, cê acredita? -Sério? Adoro mulheres que gostam de um choppinho! -Ela chegou aqui, sentou-se, e a primeira coisa ela falou assim que abriu a boca foi teu nome? -Ué? -“O Faraco já apareceu por aqui hoje?” -Tá me alugando, Caveira!
-Vai me dizer que você não conhece essa dona? Eu poderia inventar mil e umas desculpas pro velho Caveira, desde a tradicional: ”-Japonesas são todas iguais, é difícil diferenciar uma das outras!”, até uma desculpa esfarrapada tipo: “-Não deu tempo de vê-la direito, nem reparei!” Mas resolvi não dar muito pano pra manga, fazer muito rodeio aquela altura não iria ajudar em nada.
-Nunca vi essa mulher na minha frente! -Mas ela te conhece! Tanto te conhece que sabia que você ia aparecer por aqui! A porta do banheiro abriu-se, não sabia se me concentrava naquele pequeno desfile de moda que a Japonesa fazia questão de dar na passarela que ligava o Banheiro até o balcão, ou se ria da maneira com que Caveira conseguiu se enroscar com o copo de Chopp e por muito pouco não causar um desastre derramando todo aquele líquido precioso pela extensão do balcão.
Concentrei-me numa talagada tamanho família em meu copo de cerveja, que já começava a mornar, e antes que tomasse a iniciativa de puxar assunto com a Japonesa, fui surpreendido por ela que não fez questão nenhuma de fazer rodeios ao me encarar. -Você deve se achar o cara, né não?
Por dentro estava me sentindo o Marlon Brando em pessoa, meu ego havia inflado tanto que por pouco não deixei meu corpo e sai do Bar do Caveira voando. -Olha, pra ser sincero com você, nunca parei pra pensar nessa possibilidade, cê é que você me entende?
Percebi que a Japonesa não havia gostado da brincadeira, ela sentou-se, e não fazendo questão nenhuma de disfarçar seu nervosismo perante a minha pessoa, deu uma longa golada em seu copo de Chopp, e partiu pro ataque. -Sacanagem o que você fez com a Maria Rita!
Boiei. Não conseguia entender o que ela queria me dizer. Derepente se ela estivesse falando em japonês, talvez compreendesse melhor o que estava tentando me explicar. -Cê vai me desculpar, mas ainda não consegui entender aonde você quer chegar! E comecei a rir, de maneira natural e sincera, sem nenhum objetivo de naquele riso singelo e sem culpa, agredi-la ou menosprezá-la, muito pelo contrário.
Mas pelo visto ela não tinha entendido o ponto de vista do meu sorriso. -Vai rindo, vai rindo que você não sabe o que te espera. A japonesa só podia estar fora de si, o choppe aquela altura já havia feito sua parte, e a pobre coitada não estava falando mais coisa com coisa, e pela maneira como ela começou a me encarar só havia uma conclusão a se tirar: Presepada na certa, e não ia demorar muito.
O telefone do Bar tocou como que por milagre (se havia uma coisa impossível de acontecer no Bar do Caveira, era seu telefone tocar, o aparelho que jazia morto debaixo de um punhado de jornais era daqueles modelos tão ou mais ultrapassados que seu dono, eu mesmo em todos esses anos de freqüentador assíduo, nunca havia presenciado tal cena) feito um gongo estridente e repugnante, o velho telefone soava.
Até o velho Caveira se assustou ao ouvi-lo. -Puta merda, hoje está acontecendo cada uma nesse lugar, que se não estivesse aqui pra presenciar, ia duvidar até a morte. A japonesa não parava de me encarar. Não é que a pequena a essa altura havia tirado os óculos escuros e como que fazendo questão de me mostrar seus olhos de fúria bebia seu chopp e riscava o ar com sua fúria feito faca.
Eu apenas sorria para ela, não conseguia encarar aqueles dois olhinhos de pantera ninja como que de ódio. Pra ser bem sincero, tive até a impressão que ela estava mais próxima de mim, quando, feito eu, levou um susto ao ser chamada por Caveira. -Ei moça, seu nome é Nina?
-É, por que? -Tem uma mulher aqui querendo falar com você! A japonesa levantou-se irritada e entrou para o lado de dentro do balcão e simplesmente transformou-se ao começar a conversar no aparelho, parecia outra pessoa. -Quem mandou você ligar aqui! -.....
-Cala essa boca, deixa que eu resolvo isso. Quer ficar calma! Caveira e eu apenas observávamos a cena. -Fica calma, só vou mostrar pra esse cara o que dá mexer com o que é dos outros! -..... Enquanto discutia ao telefone, o rosto da japonesa ficava pouco a pouco verde, vermelho, roxo, aquela altura comecei a ficar preocupado com o que via.
-Não esquenta a cabeça, eu vou resolver isso e vai ser já! E bateu o aparelho sem dó. Assim que colocou o telefone no gancho veio em minha direção. -O negócio é o seguinte seu fila duma puta... E foi tirando um revólver da bolsa, nem fiz questão de prestar muita atenção em que tipo de arma era aquela, só pensei em me defender.
Levantei da cadeira, e não pensei em outra coisa, senão em dar o fora do Bar. Pena que fiquei apenas na tentativa. -Nem mais um passo, seu covarde! Congelei. Confesso que até respirei com um pouco de dificuldade. A japonesa encostou o berro na minha nuca e foi me empurrando em direção do banheiro feminino.
-O que você fez com a minha amiga, não se faz nem com cachorro! -Tua amiga? Quem é essa tua amiga? Levei uma coronhada na nuca que pela dor que senti, e pelo volume que levantou na hora, ia me acompanhar por mais de uma semana, se é que eu ia sobreviver pra sentir dor.
A japonesa me empurrou pra dentro do banheiro, fechou a porta e apontou a arma para minha testa. Ela suava bicas, estava nervosa e decidida a dar cabo de minha vida. -Ajoelha! -Que? -Ajoelha e tira a roupa! -Espera ai, acho melhor a gente conversar um pouco...
Negativo. Outra coronhada, dessa vez no rosto. Cuspi sangue e não tive outra alternativa. Tirei toda a roupa e entreguei a ela, que me ridicularizava com comentários que eu fazia questão de ignorar. -Ela só pode estar louca, se apaixonar por um punhado de pele branca e ossos defeituosos feito você!
-Que foi que você disse? -Eu disse que você não passa de um monte de merda. Gosto é algo cada vez mais difícil de compreender! Ela já estava com minhas roupas em mãos, prestes a abrir a porta e me deixar mais pelado que recém-nascido tremendo de frio naquele maldito azulejo cor de rosa.
Não não tinha mais nada a perder mesmo. Arrisquei. -Posso saber o porque dessa palhaçada toda? A japonesa me encarou, fez questão de dar uma cuspida no chão antes de dizer. -Você deve se achar o gostoso, não?! E saiu. Fiquei sem entender nada do que estava acontecendo, mas de certa forma estava contente de aquela altura do campeonato permanecer vivo.
Ainda estava ajoelhado no chão quando Caveira entrou de supetão. E fez questão de não me poupar de seus comentários tão ou mais desagradáveis que minha situação. -Deus que me perdoe, que visão do inferno! -Cadê minhas roupas, Caveira? -Eu é que sei! -E a Japa, cadê?
-Vazou embora, antes dela sair pediu pra te entregar esse cartão! Caveira me entregou um cartão vermelho, que continha apenas uma frase tão ou mais sutil que aquela atitude da Japonesa: “Não se meta mais com a minha namorada, dá próxima vez não vou ter dó!