Já não aguentava mais a porra daquela cidade
there'll be a cure for pain That's the day I throw my drugs away” (Morphine) Já não aguentava mais a porra daquela cidade, não distiguia mais uma palavra sequer daquele irritante zunido da tv - tinha passado o dia todo ligada - e não havia nada que pudesse fazer para engolir aquele bolo na garganta, que feito pão seco, parecia aumentar a cada instante.
Saiu para varanda buscando o ar gelado da noite. Ao longe a cidade parecia deserta, fantasma. Sabia que não era bem assim, que as ruas estariam entupidas com carros e seus imbecis proprietários. Imbecis com loirinhas ao lado, gostosinhas de tímpanos estourados.
Bimbos piedosamente surdas. Sempre ficava imaginado vê-las passando no carro, o sangue escorrendo pelos ouvidos, empapando aqueles argolões de brinco, vozinha estridente para seu boy ao lado - Aumenta o som, amor... - E eles aumentam, e vc não é capaz de ouvir o próprio cérebro se ousar sair na rua, à noite.
E as ruas são deles, meu bem... E quem disse que eles possuem algum cérebro? Não. De nada adiantava olhar a cidade. Não haveria silêncio possível essa noite. E mesmo que todos os sons calassem, por alguma interferência divina e inexplicável, ainda assim, teria que lidar com o verdadeiro bordel que se instalara entre suas orelhas.
Acendeu um cigarro, um trago longo e desesperado. Soltou a fumaça devagar, pelo nariz. Sorriu ao lembrar de sua aparência quando fazia isso, de como a mãe detestava que o fizesse. Pensou nela. Tão distante, ridiculamente pequena, a tanto tempo perdida em seu próprio deserto que duvidava ser capaz de encontrá-la de novo.
Todos nós carregamos demônios consigo, através dos espaços vazios. Entre as cortinas do tempo. Já fazia um bom tempo desde que havia desistido de lutar contra seus demônios. Os aceitara. Buscava uma solução pacífica, uma trégua possível, entre os demônios e o próprio peito.
Não podia expulsar os bichos, duvidava sériamente que seria capaz de sobreviver na ausência deles. Melhor seria amansá-los, embriagá-los, afagá-los como se afaga uma velha ferida, admirando os contornos de sua cicatriz. Não. Era mais prudente deixar tudo como está.
Seguir assim, errante, desviando dos bueiros destampados nas ruas da maldita cidade. Seguir assobiando um blues baixinho, sonhado com negras que entoam canções em bares úmidos e o cheiro de fritura em um balcão qualquer, mastigando no fundo da boca as sobras das esperanças do dia, aquelas esperanças mortas quew se agarram ao último dente, aquele com a obturação saliente, feito trident velho no verão, daqueles que qd vc abre, tá molhadinho.