Camellia
tava te dizendo um monte de coisas que eu sempre quis falar e não tinha dito. Daquele sonho em que a gente tinha uma caixinha com todas as nossas coisas, cartas, bilhetes trocados, poemas rabiscados, e até um desenho que eu tinha te dado da ponte da sorte da Mata de São João.
Eu te expliquei da casa, dos demônios de cima do meu ombro, das pilhas de cadernos, das coisas em baixo da cama. Você fez um dos seus silêncios de morte. Me olhou com aquela carinha de sei lá o que. Aquela cara que me dá um nó no estomago. E eu fiquei quieta com os meus suspiros pra variar.
Que nem eu estou agora. Eu, os meus suspiros e as minhas lembranças. E a minha espera. Eu e meu copo de uísque esperando os gelos derreterem pra abafar o gosto do amargo. Do nó. Do gorfo. Meu vídeo cassete e Eternal Sunshine of the Spotless Mind num final de domingo.
I need your love... like the sunshine. Quatro paredes fechadas. Eu me queimando no chuveiro e gritando pra você me ajudar. Você pegando a toalha da minha mão pra secar meu cabelo. Seu perfume no meu corpo inteiro. Você ali lindo tocando e eu discretamente respirando seu perfume em mim, na minha roupa, nas minhas mãos, nos meus cabelos.
Eu com as unhas nas tuas costas, cócegas, sangue, arroubos. Um pouco de mim em você, mas só um pouco. Eu tenho pavor do seu medo do perigo, my dear. Eu, minha caneta sem tampa e umas letras no braço na porta do Consolação ás 04:00 am. Minha ansiedade - come hear, baby.
Now. Hug me. Try me. Keep me... and hear me. Eu quase disse que te amo, enquanto você se perdia nos seus diálogos com os amigos. Quase disse. Não teria sido uma boa hora. Mas tava pulando da minha boca. Mas eu não disse. Queria ter dito, mesmo sabendo que não era a hora.
E tem outra coisa que você não soube. Tudo que eu esperava que você fosse capaz naquele mesmo dia, era daquele beijo que você me deu (por que?) brincando com sua língua na minha de um jeitinho rápido. E eu não pude deixar de abrir meu sorriso bobo de Amélia.
Era só aquilo. E então você saiu, foi brilhar mais, de novo, pequeno Chopin. Não se cansa de brilhar aos olhos dos outros, meu homem. Meu lado vazio da cama. Minha corda de resgate. Minha lágrima escondida e meu sorrisinho de menina besta. Meus olhos inchados de manhã.
O barulho das teclas do meu computador. O meu homem professor. O homem que se encontrou antes de mim, em outro lugar, com outras pessoas, com outras metas. E eu vou ficando aqui. Por pura covardia de achar o meu lugar nesse planetinha ridículo. Acabo ficando naquelas madrugadas frias com o cabelo molhado na janela e o meu cigarro like a hurricane pedindo pro vento me deixar ocupar o lugar dele no lado direito da cama essa noite.
Eu com as costas moídas, com os nossos pecados, as nossas culpas, o teu perfume nos quadris. Eu e os meus farelos caindo pra fora da mala. Eu e as minhas olheiras, socos da tua ausência. E uma bolsa de gelo. Mas gosto de viver embora minha vida ao dê certo.
Falta tudo nela, falta você, querido, falta mais sol. Eu quero acordar com a tua voz no meu ouvido, bom dia, bonequinha dorminhoca, e num salto pular da cama, ver o sol brilhando na minha janela e deitar com você no meu casaco preto sobre a grama e ver o lago e te escutar falando sobre qualquer coisa, só que dessa vez vou te olhar bem fundinho, daquele jeito que eu tinha perdido a prática, e vou falar um monte de coisas que você não vai estar esperando mas que você sempre leu.
E eu vou te explicar o que você ainda não pegou no ar. Eu deitada na grama na primeira hora do dia amarelando as páginas, e dizendo pro teu ouvido surdo “I fell in love one day”...