Edição 2

Menina de bruços

Mão Branca

o caso nos jornais antes de ser contratado pelo tio da menina. Ele quis vender um chevete para me pagar. Quando soube, cobrei apenas a estadia e o rango. - As balas ficam por minha conta. – Disse, com um sorriso mal-humorado. A menina de catorze anos estava em casa lavando a louça.

A mãe trabalha como doméstica e passa o dia no serviço. A irmã mais velha havia saído para fazer um curso no Sesi e deixou a irmã em casa. - Não abra a porta para ninguém. – Alertou. De repente, às dez e meia da manhã, a casa foi invadida. Um homem negro e sem camisa agarrou a menina com uma gravata e a jogou no chão.

Segurou-a de bruços, prendendo sua cabeça com o pé. Tirou as próprias calças e arrancou a roupa da menina. Estuprou-a por vinte minutos. Depois vestiu-se e foi embora. A menina chorou até ser encontrada pela irmã ao meio dia, desamparada e nua no piso da cozinha.

Está em choque até hoje. - O que a polícia descobriu sobre o canalha? – Perguntei ao tio da vítima. - Nada. – Abaixou os olhos, inconsolável. – Minha sobrinha não viu o rosto do estuprador. Foi atacada pelas costas... - Difícil ... mas não impossível.

Hospedei-me numa pensão no bairro da garota. Investiguei durante dias mas nada descobri. Parecia, até, que o estuprador havia desaparecido. Normalmente os crimes sexuais eram cometidos por conhecidos das vítimas, que atacavam de tocaia, em dias e horários determinados.

O negão que eu estava procurando não devia pertencer àquele bairro. Desisti depois de uma semana. Não havia descoberto nada, estava na mesma situação que a polícia. Informei ao tio da garota que continuaria pesquisando, mas talvez não conseguisse vingar a coitada.

- Não desista, moço, por favor. – Ele pediu. – A minha sobrinha era uma menina de ouro, alegre e muito prestativa. – Vi o brilho de ódio nos olhos do homem. – Ela era um doce. Agora acha que tudo foi culpa dela, que nenhum homem irá querê-la pois foi desvirginada num estupro.

– Ele apertou os olhos com força. – Ela diz que a vida acabou. Uma menina de catorze anos. - Uma menina. – Repeti. Passei meses tentando encontrar alguma pista, algum vestígio, que pudesse me levar ao criminoso. Não achei nada. A única coisa que eu sabia era que o homem era negro, estava sem camisa quando atacou a menina e que era muito forte, pois ela nem pôde se mexer.

Essa última informação podia ser contestada, pois para uma garota magrela de catorze anos qualquer adulto pareceria forte. Anos se passaram; nunca me conformei por não dar cabo daquele monstro. Sempre investigava os casos na esperança de encontrar alguma pista.

Nosso encontro, contudo, deu-se de forma imprevisível. Eu jogava bola num sábado de tarde. No time adversário entrou um negão magro e ágil. Na primeira dividida ele me acertou a panturrilha. Cai de peito na grama. - Caiu de bruços. – Falou o negão. – Do jeito que eu gosto.

– E sorriu com sua dentição branca e perfeita. Ele estendeu a mão e me levantou. Sorri. - De bruços? - Adoro derrubar atacantes. – O homem tinha mãos firmes e cascudas. – E adoro mulheres de bruços. - Eu também. – Falei amistosamente. – Principalmente bem novinhas.

- Quanto mais novinha, melhor. – Saiu correndo atrás da bola. Esperei uns segundos para traduzir o olhar que ele deu antes de voltar ao jogo. Ele parecia pensar no passado com prazer. Um prazer malicioso. Tratei de fazer amizade com o cara. Bebemos cervejas após os jogos, falamos sobre antigos casos amorosos, comemos o mesmo torresmo.

Em poucas semanas já éramos amigos. Chamei-o para beber umas e outras num boteco em frente a um colégio de adolescentes. - Olha aquela garota. – Apontei com o nariz uma moça de cabelos longos, seios estufando a blusa e longas pernas musculosas. – Que delícia.

– Comentei. - Prefiro aquela. – Mostrou uma menina bem nova, com pequenos caroços no lugar dos seios e andar de criança. – Virgem, infantil e bem fraquinha. - Fraquinha? – Indaguei sorrindo, porém por dentro queria arrancar a cabeça do canalha. - As fraquinhas são mais fáceis de segurar.

- Segurar para quê? – Eu conversava olhando as garotas. Fingia que o papo era casual, pouco me interessando. - Para botá-las de bruços e mandar ver! Olhei de soslaio meu colega de mesa. Ele estava absorto em lembranças. - Vai mais uma? – Ofereci. – Tô pagando!

- Claro. Desce mais. Pedi uma cerveja atrás da outra. Sempre que dava, empurrava uma dose de cachaça para meu parceiro. - Acho que tô ficando bêbado. Vou parar com a pinga. - Garção! – Chamei. – Meu amigo não quer mais cachaça. Traga uma cerveja e um uísque.

- Uísque? – Perguntou o sacana. - Claro. Não é sempre que encontro uma pessoa como você. – O negão sorriu envaidecido, não sabia o que eu planejava fazer. – Mas, diga-me, você já pegou muitas garotas novinhas? - Uma ou outra. – Respondeu. – A maioria era puta.

- Qual foi a melhor? - A melhor? – Coçou o queixo, tentando ativar a memória. – A melhor foi uma menina que nem viu minha cara. Fugi sem problemas. - Como assim? – Fingi não entender o que ele falava. - Entrei na casa ... de uma amiga. Tinha uma menina na cozinha.

Eu a agarrei por trás e a safada logo começou a rebolar. Tentou fugir mas eu sei que ela estava querendo pica. Segurei a putinha e mandei brasa. Ela ficou gemendo e chorando. Um tesão. - E depois? – Enchi os copos de cerveja. - Depois fui embora. Nunca mais a vi.

Uma garota passou ao lado de nossa mesa. Era novinha, usava o uniforme do colégio. A saia ondulava em suas nádegas juvenis no ritmo do seu caminhar. Seguimos seus passos com os olhos. - Que tal a gente catar umas putas? – Perguntei. - Por que a gente não pega essa daí?

– Empurrou os olhos em direção à menina de saia. Refleti o mais rápido que pude. Eu deveria tomar conta da situação para conseguir cumprir meu intento, acabar com o sujeito, porém não queria me arriscar numa briga com o negão. Nunca fui bom em brigas, quase sempre mais apanhei que bati.

Nem queria me arriscar a ser pego pela polícia ou desmascarado. - Pegar como? – Fingi, mais uma vez, não entender. - A gente a segue e, quando der, a colocamos no carro. – Ele lambeu os beiços. – Daí pra frente é festa. Ele gostava de estuprar. Divertia-se assim.

Achava, até, uma coisa alegre e interessante. Nunca deve ter pensado em como se sentiam as meninas. - Certo. Vamos só tomar mais uma! – Conclui. Servi seu copo, enchendo-o até a boca. Pedi ao garçom outra cerveja e duas doses duplas de uísque. Bebemos e falamos sobre amenidades.

Eu sabia que o álcool iria fazê-lo esquecer o crime. Eu também estava embriagado, mas havia me preservado desde que chegamos no bar. Minha bebedeira era bem menor que a dele. Saímos do bar com uma garrafa de conhaque debaixo do braço. Conversávamos como velhos amigos.

Tropeçamos em calçadas e entornamos no gargalo. Percebi que logo ele iria chapar. Convidei-o para beber em minha casa, entramos no meu carro e em alguns minutos meu companheiro dormia profundamente o sono dos bêbados. Quando acordou, estava nu, amarrado com as mãos nas costas e escorado no capô do meu carro.

Olhou para os lados e me viu. Eu acendia o baseado que acabara de apertar. - Finalmente a Cinderela acordou. – Traguei a fumaça e a segurei no pulmão. – Tá desconfortável? - O que houve, cara? Por que eu tô amarrado? - Preste muita atenção! – Soltei a fumaça.

– Não vou falar duas vezes. O homem olhou para todos os lados, tentando imaginar onde estava. Nunca descobriria; eu o havia levado para outro município e estávamos numa estrada de chão que chegaria a alguma fazenda da região. Naquela hora da noite ninguém passaria por ali.

- Tá prestando atenção? – Perguntei e ele respondeu afirmativamente. – Ótimo. – Apontei para um grande monte de terra marrom. – Tá vendo esse formigueiro? São saúvas da espécie Louca, que vieram da África e comem carne, entre outras coisas. Pelo tamanho do formigueiro, deve ter uns três anos ou mais.

Imagino que exista mais de um milhão de formigas ali. Ele olhou o formigueiro sem atenção. Estava tentando soltar as mãos. Acertei sua cabeça com a coronha do meu revólver. - Continuando: se um homem se jogar de bunda sobre o formigueiro e sair pulando e correndo, as formigas não o picarão.

Mas se ele não conseguir se levantar, em poucos minutos estará coberto de saúvas. – Traguei novamente o baseado. – As picadas de saúva não têm veneno, é a força da mandíbula da formiga que corta a pele e a infecta com micróbios. Se um homem ficar preso num formigueiro, demorará umas cinco horas até morrer de hemorragia pelos cortes das picadas.

- Você vai me prender no formigueiro? – Perguntou o estuprador. - Não. Você ficará livre para fugir. – Ele soltou o ar, estava apreensivo. – Mas não será moleza. Primeiro você deve me responder uma pergunta. Depende da sua resposta o futuro que lhe reservo.

- Que pergunta? - Você já pegou alguma menina sem que ela deixasse? - Claro que não, doutor. - Doutor? Você já puxou cadeia? - Foi bobagem, Doutor, apenas 171. O cara era um mala de presídio. Apertei os dentes ao pensar que se a Justiça fosse correta, canalhas como ele não estariam nas ruas.

- Você conhece bem a cidade? - Ele afirmou com a cabeça. Perguntei se ele conhecia o bairro da menina que havia sido estuprada de bruços na cozinha. - Conheço, mas nunca fiz nada com nenhuma menina de lá. Entregou-se, pensei. A resposta dele já justificava minha vingança, era um estuprador em série, porém eu ainda precisava saber se ele era meu alvo original.

- Se você me responder a verdade, juro que não te jogo no formigueiro por causa disso. – Traguei o resto do baseado e prendi a fumaça no pulmão. Demorei alguns segundos para soltar, dando o tempo necessário para assustar meu prisioneiro. – Você pegou uma menina nesse bairro, na cozinha de sua casa, e depois fugiu?

O homem me olhou nos olhos. Eu estava sereno. Ele deve ter visto minha sinceridade. - Peguei. – Ele manteve o olhar. – Nem machuquei a menina. Ela gostou. Caminhei até o homem e o amparei para descer do capô. Ele me olhou agradecido. Conduzi-o pelo ombro até o foco do farol do carro e o derrubei.

- Hei. – Ele tentou se desvencilhar. Bati em sua cara com a mão aberta. O estalo do tapa foi tão alto que ficamos nos olhando por segundos. – Você disse que não iria me machucar. - Balbuciou. - Preste atenção novamente. – Respirei fundo. – Eu disse que não iria te jogar no formigueiro por causa daquele crime.

– Deitei o homem no chão, de bruços. – Vou te jogar no formigueiro porque você é um estuprador filho da puta. Ele tentou lutar, mas prendi sua cabeça com meu pé. - Você tem uma chance de fugir. – Peguei do bolso da jaqueta uma bomba de festa junina. Tinha uns quinze centímetros de comprimento e quatro de largura, o maior cabeção que já vi.

Enfiei a bomba no rabo do homem, que esperneou, gritou e rosnou de raiva. – Vou acender o cabeção. Ele demora uns quinze segundos para explodir. – Sorri. Eu me regozijava com a vingança. Sentia um prazer quase físico por devolver àquele ser desprezível a dor e o medo que ele infringira à moça.

– Se você conseguir correr até o formigueiro e se jogar de bunda sobre ele, apagará o cabeção. Bastará, então, se levantar e fugir das saúvas que estarão subindo em suas pernas. – Levantei o homem e o virei de costas. A bomba enfiada em sua bunda me deu ânsia de riso.

– Se prepare, babaca. Vou acender e depois entrarei no meu carro. Se você se livrar da bomba e das formigas, basta seguir o caminho que eu tomar e você viverá. Se não se livrar, sua bunda explode em cima das saúvas e elas devorarão toda sua carne. Acendi o isqueiro.

Olhei o homem e vi seu terror. Não me compadeci, ele já havia feito coisas piores. Encostei a chama no pavio do cabeção que começou a chiar. O homem saiu correndo em direção ao formigueiro, para se jogar de bunda sobre a terra e apagar a chama. Corri atrás dele e passei uma rasteira.

Ele caiu de boca no chão de terra seca. Segurei-o pela testa e beijei seu pescoço. - Cumprimenta o capeta por mim. - Senti o calor do pânico saindo pela garganta do estuprador. Empurrei o cabeção com meu joelho até quase sumir no meio das carnes da bunda.

Afastei-me antes da explosão e vi pedaços de traseiro voarem pelo ar. Apesar da cena ter sido assustadora, o ferimento não era tão sério. O homem apenas havia perdido o cu. Estava meio desmaiado pela dor e pelo susto, mas logo conseguiria andar. Cuspi no buraco de sangue e bosta no meio da bunda.

Agachei-me e cochichei ao seu ouvido. - Tá gostando de ficar de bruçus? Arrastei-o pelos cabelos até o meio do formigueiro. As saúvas subiram pelas minhas calças, mas não sai até ver o homem abrir os olhos. Ele olhou ao redor e viu as centenas de saúvas que andavam sobre seu corpo.

De repente, tremeu com todos os músculos. Parecia sentir a dor de todas as picadas. Ou a ausência do próprio cu. Pulei fora do formigueiro e bati as mãos nas pernas. O homem gritava e chorava, levantando poeira. Sua luta durou uns quarenta e cinco minutos.

Ao final era uma massa inchada de sangue e barro. As formigas adoraram. No outro dia liguei para o tio da menina. Ele já havia morrido, contou a mulher que atendeu. Perguntei sobre a garota. A mulher disse que ela havia se mudado para o interior e haviam perdido o contato.

- Eu tenho notícias sobre o estuprador. - Falei. - Ah, ele foi preso há anos. - Interviu a mulher. - Ficou preso um tempo e morreu na prisão. Fiquei em silêncio. - Teve o que merecia. - Comentou a mulher. - É, - Concordei. - tiveram o que mereciam.