Edição 2

Estranhos no Paraíso

Márcio Américo

achei que o conhecimento poderia me levar para algum lugar, ou, pelo menos, me tirar. A segunda parte cumpriu-se. O conhecimento me tirou dum lugar pantanoso em que eu vivia, me tirou daquele atoleiro de fé, de crença na humanidade, me fez reaprender a semântica de alguma palavras que sempre me pareceram imutáveis: amizade, justiça, moral, ética, deus, paz...

O conhecimento me tirou de um lugar que eu sempre pensei ser o paraíso. Hoje olho o planeta e sei que nada faz sentido. Os maus não são castigados, os bons não são recompensados. Sei que não há futuro algum, não há paraíso. Hoje olhando bem, “sei” que a palavra deus não resiste a uma ou duas catástrofes: um sobrevivente sendo devorado no meio da selva, um náufrago morrendo de joelhos, um sujeito sozinho no apartamento aguardando o telefonema que não vem, a garrafa vazia, sábados, uma banheira corroída aguardando um corpo que vai boiar indefinidamente...

deus não resiste a estas imagens... pelo menos o deus que eu comprei e paguei quando tinha 7 anos de idade. Ainda acho que fiz um péssimo negócio, deveria ter comprado um carrinho de rolimã. Foram os livros que me fizeram ver o mundo assim, pessoas perseguindo alguma coisa que quando parece estar próxima das mãos, voa pra mais longe, mais longe....

Parece me restar apenas este pequeno oásis: amigos, família. Dois substantivos resistentes. Parece restar apenas a arte como uma espécie de grito de socorro bem trajado, uma promessa de felicidade. Mas as vezes, nada disto adianta, e aí, quando este vazio enorme ameaça provocar uma erosão monumental na minha alma penada, então eu tento voltar novamente para aquele útero aconchegante de ignorâncias, para o paraíso perdido onde tudo fazia sentido, mas ao chegar lá, constato assombrado que o paraíso foi incendiado...

cinzas, cinzas e minhas pegadas.