Edição 3

As emoções no exílio

Célia Musilli

que nesta manhã acordei sem sentimentos. As marés que subiam e desciam num fluxo de vida latente foram substituídas pela estranha paralisação de um coração sem calor. É como se eu fosse uma pedra na paisagem, uma árvore que perde as folhas sob a ação mecânica do vento.

Sem nenhuma conexão com a alegria ou a dor. Agora sei como vivem os peixes que passam em cardumes intermináveis nas profundezas, sem que isso signifique nada, a não ser um cardume em sucessivas rotas. Os peixes sempre me pareceram frios e de uma beleza estática.

Nascem, se reproduzem e morrem. Mas não amam. Não se comunicam como os gatos que se lambem. Os cães de olhar interessado e terno. Os cavalos obstinados e selvagens. Eu que já fui salamandra provocando o fogo, acordei com a súbita sensação de sentimentos esvaziados e emoções no exílio.

Uma pétala arrancada sob anestesia, sem o perfume dos botões que querem se transformar em flor. Isso aconteceu de forma súbita nesta manhã. Perplexa, penso que isso possa ser ilusionismo, como acontece quando nos deparamos com espelhos que distorcem nossas imagens e aparecemos gordos, altos ou magros, quando na verdade nada mudou.

O tempo dirá se me transformei numa enguia por encantamento. Num peixe de olhar vítreo. Numa sereia inexistente. Só sei que amanheci sem sentimentos e não desejo de buscá-los entre os achados e perdidos.