Edição 3

Quem come lamparina caga luz?

Cesar Ribeiro

tanto mestre-sala querendo organizar o rebanho que algumas vezes sinto uma dívida com minha pseudogenialidade e pergunto se eu não seria um bom imperador do meu quarto escuro. Lá estariam inúmeros corpos em silêncio, de amigos e inimigos, com mordaças na boca para obrigá-los a absorver a compulsão de minha idiotice, pois este parece ser o grande papel das instituições: fabricar líderes.

A TV, as ONGs, as divindades, os partidos... todos em busca de gerir a individualidade humana que, para se livrar do estigma do egoísmo nesta terra de politicamente corretos, precisa filiar-se a questões sociais para pagar o dízimo mensal e pensar que as portas dos céus serão abertas em um futuro dia do juízo.

Mas, como li em algum lugar, eu não crio juízo porque custa muito caro alimentá-lo. E parece que este é o mote da nova era: criar moralidades fracas para tê-las como objetivo e impedimento de culpa enquanto os atos criam as fortalezas de nossa persona.

É como se o humano estivesse o tempo inteiro a fabricar deuses utilitários que pudessem, em um dia de desgosto, ser jogados nas fogueiras para a criação de um novo deus. É necessário esclarecer que sou contra a religião por princípio: nada mais imbecil do que alimentar santos e anjos que bebem vinho mas não se embriagam.

Mas aqui em terra insanta o problema é que há muita embriaguez para pouco vinho, e se as ideologias entorpecem não é porque os ideais são ruins, mas porque as idéias são precárias. Nas avenidas paulistas circulam o pastor buscando salvar os ímpios, os artistas rapapés vendendo programas para ir ao teatro, homens-cartaz anunciando compra de ouro, tribos diversas indo aos seus passeios, enternados conversando sobre o câmbio e outros gambás programáticos.

O ser virou uma grande mídia, e como tal fala para as multidões enquanto esquece de limpar a sujeira que impede os ouvidos de escutar. Tudo é ruído para afastar o grande silêncio. Nesse precipicio é muito fácil querer estancar o sangue com balas juquinha e lançando pipoca aos macacos, mesmo porque o peso da cura é o sacrifício, essa palavra tão moralizada porque é necessário hoje evitar o outro e o pensamento no outro.

Mas o individualismo não é o natural do ser? Ou seria o humano uma criatura tendente ao coletivo? Não creio. Seguindo essa linha, daqui a pouco o grande salvador da barriga inculta, Mr. Maluf, retorna com todas as suas forças e, em pactos com Bush The Kid, organiza o forró para todo gringo dançar em uma multinação que terá uma estátua com a cara de Maquiavel de braços abertos para a Pequena Maçã como símbolo.

Falta muito pouco. Em Belíndia o Brabudo será reeleito, o que significa a população assumir que os fins justificam os meios e que há enorme tolerância à mutretada que corre solta na rampa carnavalesca desde que ela traga algum benefício à população. Algo tipo Hannah Arendt.

A propósito, também sou Marisco desde criancinha.