Edição 3

Destilado

Lindsey Rocha

ela me disse que um dia quase o atropelou. quando soube que era ele, sentiu-se importante. uma outra me disse que às vezes ele anda com roupas esportivas bem normais e que sempre olha antes pras tuas pernas, depois pra tua cara. e também que se você faz menção de cumprimentá-lo, o rosto dele perde malícia e ganha decepção.

bem comum alguém quase atropelar uma pessoa. quero dizer, acontece, não é? é também muito natural por essas redondezas olharem para nossas pernas e depois para o sorriso ou olhos ou coisa que o valha. esse tipo de papo não vale nada. e há algo de assustador e psicodélico na maneira como as fisionomias têm se desenhado conforme as conversações.

ele escreve pra caralho, mas se destrói. veja bem, não é que eu seja coerente em tudo que digo ou faço, porque senão já teria morrido, já que acredito mesmo nesse funcionamento, nessas entrelinhas místicas da vida de um ser humano. viu, aquele lance de que as energias sexuais às vezes são perigosas e que você está exagerando ultimamente na quantidade de caras que...

tudo aquilo era piração da minha cabeça, sabe? eu não queria realmente dizer tudo isso pra você, mas quando as coisas entram em colapso, é preciso fazer alguma coisa, concorda? porra, como a gente vai poder continuar agora se nunca mais vou olhar pra você sem ver aquela maldita imagem?

oi! tudo bem??? nossa, acontecem coisas na minha vida que me deixam de cara! tava pensando em você agora mesmo. estou aqui no museu. será que vou até aí? sabe o que é, eu tava caminhando no passeio daí pensei em te convidar pra almoçar. claro, guria! vem pra cá.

quando chegar, manda uma mensagem e eu saio pra te encontrar. beleza. o problema é que você pira muito nisso tudo, entende? eu não tô dando conta. não sei o que está acontecendo. fiquei maluca porque olhava pra ele e queria ficar mas não podia porque ia parecer que sou uma oferecida.

o mínimo que ele devia fazer é te agradecer. mesmo se não fosse um texto, sei lá, se fosse um papel de bala com aqueles recadinhos estúpidos, você, corajosa, foi lá e entregou, e olhou, e se ferrou. enfim. quer entrar? não posso, menina. eu tava muito louco ontem, por isso não entrei na tua casa.

não consegui entrar. tinha guardado um pouco, sabe? pra dar um teco. poxa, você ainda nessa, cara? pois é, mas foi horrível. vou parar. aham. aham. não brinca. ei, tô com uns projetos aí de fotografia. fizemos uma revista. ah, aquele pessoal que fez uma revista aí com nome de mulher.

tô ligada. rola um jazz hoje? um e noventa e nove pra entrar? ei, vem cá, essas pessoas que escrevem, o que elas comem? e você, moça? o que vai pedir? não sei. não sei o que eu quero. tá, olha só, você quer carne branca ou vermelha? branca. então traz dois pratos do dia pra nós, bem pouca comida, com um pouco de batatinha pra cada um.

nossa. que silêncio. depois daquele alvoroço todo, deve ser ótimo vir aqui assim de madrugada de vez em quando. aham. meu violão rachou. que merda. pois é. paguei a maior nota nele. violão de folk. corda de aço. esse negócio de violão acho que depende do sentimento da pessoa que trabalha a madeira.

que bonito isso! se cuide. você também. já viu esse filme? a cena em que ele cai da bicicleta e olha para o touro? não. você dá aula de quê mesmo? eu tava lendo kafka esses dias, aí tinha um trecho lá em que o cara dizia que jejuava porque não tinha encontrado comida que lhe satisfizesse.

acho que é isso. larguei. parei com tudo. quase um artista da fome. uma cerveja? você bebe destilado?