Edição 3

Aos meus Culhões Dourados

MaicknucleaR

saga parte 2) MaicknucleaR Refletido. Sinestésicamente analgésico enquanto mijo e o ódio que percorre minhas tripas como um velocista de vidro moido e rasga, faz carne-moída do longo canal output da minha uretra e suas recentes (em maior parte reincidentes) lembranças de veludo e toda aquela Nina Simone inaudível dentre o caos de dois corpos que nem percebiam as picadas, os baques da agulha no velho bolachão chiado e as taças que não são nossas, lá, jogadas no chão.

"Enfim: casa!". E ela continua lá. Coberta com um fog verde de esmaltes, sapatos, bolsas, números de calças, futuro, filhos, amantes esporádicos, o galã da novela das oito, livros não escritos por mim, contas a pagar e mesmo assim não para de se maquilar com minha porra criadora sórdida passional e desequilibrada.

E eu aqui. Perdendo as melhores narrativas do mundo por não ter aprendido a lembrar o que importa para as folhas em branco, enquanto mijo, analgesicamente sinestésico, pensando em voltar lá e tocar o puteiro numa bandinha de igreja. Revelar no confissionário sem teia anti-moscas que sou um belo dum estelionatário em pele de cordeiro inocente que usa trajes de cafetão barato e tem gana lúdica de literato mundano na manga.

O sortilégio de satã. Palavras que impressionam sem alardear falsas revoluções. A caneta flamejante se perdera em juras de placebo e foi quando a casa veio abaixo, o néon me deixou cego, mas não, não precisei tatear paredes, pois conhecia bem o terreno, as plantas dos meus pés conheciam os tacos frios daquele chão recendendo a mofo, conhecia bem o andar três daquele hotel quatro dentro de um mês sem fim após "Aquela" uma - a esfinge.

Sou um precito indigno. E já fiz um livro naquele quarto escolhido justamente pela presença de um velho toca-discos de madeira embutido na parede. Criei universos teatrais naquela cama redonda, filmes pornô sob aquele espelho que me queimou a retina de tanta, excessiva e profana beleza que jazia com máscara de porra ao meu lado e me cegou a razão com um narcisismo deturpado e feio ao lamber meu suór azedo, não fétido.

O narcisismo feio, cruel e altivo que faz de minh'alma sua vivenda, ambicioso como um cão que baba um "Me importo, mas não ligo se você morrer". Nunca mais fui o mesmo após "Aquela" vadia. Nem após a seguinte. Nem a que veio depois. Nem essa de hoje que me disse: "Você tem um caralho de ouro e os culhões dourados", enquanto tentava não se afogar, caindo de peixinho, do alto de sua própria leviandade.

O chuveiro era quente como meu sangue e calculista como meu cérebro. Todas suas gotas, uma a uma, caindo no momento exato em que a febre me deixava surdo, surdo como se os tímpanos estivessem vomitando ao descerem a serra. "O que foi que você disse?", "Você tem um pau de ouro e as bolas douradas" disse ela.

Não entendi o que ela quis dizer com isso, mas preferi a primeira sentença. Fechei os olhos para voar nas asas do prazer, sublimar o ambiente batendo uma bronha naquela boca de buceta carnuda, grandes lábios da casa do caralho, mas acabei vendo a outra.

"Aquela" vadia. "Aquela" pra quem olhar sem malícia seria uma blasfemia. A que me fez ver lindos navios sobre o asfalto paulistano e que neste momento deve estar chupando alguma pica murcha em algum ponto da cidade, num drive-in sem grandes musicais, esperando que lhe esporrem a garganta para ouvir: "Baby, preciso voltar pra minha família".

Mas foda-se. Que menina nesta cidade não gostaria de se deitar com seu astro de rock favorito? - aliás: o que seria dos camarins sem as groupies? Eu não sou astro do rock - nem mesmo quando fui -. Tô mais pra John Fante, quer dizer, pra Arturo Bandini, pois vivo estragando tudo.

Fazendo das minhas "Grandes oportunidades, catasfrofes faraônicas", como me disse alguma leitora assídua - que queria me dar e perdeu a sua Grande Oportunidade por pura frigidez de sua catastrofe de "Anônima" faraônica -. Não sou nada que desperte cobiça, mas tenho um fígado cheio de bílis de um si mesmo emaconhado que lambe fel com limão, dá tapa na fuça da arte, chama de "minha putinha", cospe na cara e diz o "eu te amo" mais sacana do planeta.

Emérito estorvo que curte textos em mel e uísque para que a cada canetada o melhor texto do mundo ganhe vida. Doce, ilusória e paliativa cobiça: "melhor texto do mundo"... Ela me diz que sempre serei o melhor em qualquer coisa que faça, e concordo plenamente com um sorriso partido ao meio.

Concordo, pois meu taco é grande e o que o que me difere dessa escória emotizada que faz tudo ou por fama, dinheiro, "sonhinho", ou pra comer umas dessas milhares de interesseiras gostosonas da cidade é que faço tudo com a verocidade de um moribundo arrependido - e um pouco pelas gostosonas também, é verdade -, faço tudo com o desespero voraz de um viciado que rouba pra sustentar a brisa, com a lascividade carente de uma ninfa velha e solitária, com o coração virando churrasco na festa do pijama e, quer saber?

Vou ali me matar e já volto. *** De la rua. Mecenas. Mercenário de palavras mor, como os dissabores da piña colada. Logo eu. Metropólico úrico rimando a rima alheia: I'm walkin' down that long, lonesome road, babe Where I'm bound, I can't tell, But goodbye's too good a word, gal, So I'll just say fare thee well, I ain't sayin' you treated me unkind, You could have done better but I don't mind, You just kinda wasted my precious time, But don't think twice, it's all right.

*** No blog da Paula Klaus eu vi esta frase: "Cerveja quente e mulher sentada na ponta da cama são de fato uma merda". Hum. Essa Paula sim sabe das coisas. Quem dera algumas mulheres soubessem disso, que pau sem movimento não chora. Mas então. Lá estava eu, na oitava garrafa em carreira solo, fruto de uma linda esfinge que não saiu da ponta da cama.

Vendo uns camaradas investindo em umas minas. "Drinks on me, 'cause now i got money, bitch". Tudo pela ciência. A parede do lugar parecia um vestido mexicano extravagantíssimo. Cheio de fotos de idiotas conhecidos país afora. Um bando de otário... Divaguei no ódio remoido, no relógio da heinecken que parecia um pterodactilo.

Sempre um amigo quebra um copo! Pensei em fumaça, mas a sutileza repentina pesou sobre meu ombro e disse: -Você é muito egoísta! -Não é a toa que tô aqui sozinho - respondi checando quem era a ilustre desconhecida. -Bem sua cara: seus amigos se divertindo e você aqui com esse olhar perdido.

-Hum... -Você não se lembra de mim, né, seu egoísta?! -Pra te falar a real, meu amor, há uns quarenta segundos atrás eu confundi aquele relógio com um pterodactilo, acho que não tô em condições de lembrar nada nesse momento tão solene. -Bem sua cara essa frase, seu egoísta.

-Meu, nem te conheço e você já me chamou de egoísta umas trezentos e quarenta e cinco vezes. Quer saber, vai até ali e confirma pra mim se aquilo é mesmo um pterodactilo ou não. -Meu, cê tá loucão, eim! Você não lembra de mim? Da virada cultural, saimos de rolê, a gente fumou um e tal e você veio com aquela história cheia de auto-piedade de uma "garota de amêndoa", coisa assim.

Lembrei no ato. Ela foi a mina mais cinematográfica com quem trombei. Nesse dia aí ela arrumou cigarros, cerveja e outras coistas más, para nós dois, apenas deixando com que uns fulaninhos com cara de palerma, camisetas limpas e jeans socado no rabo lhe encoxassem durante uma dança "nada" sensual.

Ela ganhou um maço de cigarros, uma lata grande de cerveja e veio até mim, sem dar tchau pr'os otários e me deu a cerveja, como mandava o protocolo dos projetos de fodões, atuais vagabundos sem futuro que não sabem o que querem da vida. -Hum, e isso te dá o direito de me chamar de egoísta?

- Geralmente, como não me encaixo nos padrões malhação/rock"tentativa de trash"star de beleza e nem sou um tiozão maneiro que faz poses hardcore ao fumar um cigarro, depois de uma dessas, se a mina não quiser realmente nada, vai embora me achando o cara mais grosso do planeta.

Mas não foi o caso. -Não, não dá. -Então?... -É que li seu último texto - franzi, não os olhos, mas a cara toda num grande ponto de interrogação, ela continuou - É um que tem nome de remédio, hotel, sei lá. Aquela parte do slupt, slupt. Voltei minha atenção ao copo, como belo aprendiz de bebado que ando me tornando e disse: -É só um texto.

Não me confunda com a primeira pessoa. - Ah é? Que pena!, por que eu queria repetir a cena ali no banheiro. "Hummhummhummmm, não é toda noite que se escuta uma dessas". Nem Sheakspeare imaginaria o fim , como diria a música. Levantei da cadeira com a agilidade de um ninja revoltado diante o inimigo que pretende matar em vingança, fazendo a cadeira dobrável de madeira deslizar ao longe, matei a cerveja, gelada como "Aquela" incógnita na ponta da cama, e disse, mal se equilibrando: -Isso muda toda a perspectiva desse nosso diálogo hipócrita, imperialista, cheio de cinismo a la J.D.Salinger.

Chega de falso moralismo, digamos sim aos seios amostra em shows fuleiros... -Quê??? -Vamos ao banheiro, baby - o baby foi efeito dramático lá na hora - Vou lhe mostrar os culhões dourados. *** "Dilacera meu caralho com seus dentes branquinhos, meu bem, eu não me importo", adoro mentir pra mim mesmo, mas ali não dava.

Nem minha banda favorita atravessando a portícula em ondas sonoras do seu som mais pop, nem todo aquele álcool fluindo no tanque do meu fígado zero bala, diminuía o incomodo daqueles dentes branquinhos de classe média mais pra alta que me arrasava a lingüiça.

Tem quem reze o "Padre nosso que estais no céu" em situações dolorosas, quase de vida ou morte, como essa, mas meu mantra espiritual é outro. A dor não findava jamais, só restava aquele velho mantra pra salvar a pele. Parar não pode, pois "Hai que endurecer, pero perder lá ternura jamás".

E como era a única forma de sanar meus pecados da carne, comecei a recitar, mentalmente, o meu mantra diário: " A mi me gusta las muchachas putanas. A mi me gustan las muchachas putanas... aquelas que não conhecem Nina Simone " (1). Fui mais longe no mantra analgésico, comecei a me imaginar espancando a Ivete Sangalo com um exemplar autografado de "Meninos de Kichute" (2) até a morte.

Me imaginei lendo trechos demoníacos do "Azul do Filho Morto" (3) num retiro espiritual católico-carismático, mas nem essas doces elucubrações psicóticas me sanaram a dor. Pensei em repetir pela milésima vez: " Nas bolas, amor, nas bolas, pois baixaria mesmo é nascer brasileiro ", mas se ela já estava dilacerando meu caralho com os dentes, imagina o estrago que faria nas bolas.

Só me restava comer-lhe o cu, comer-lhe-ei o cu então. É a segunda vez no mês em que escrevo algo na parede de um banheiro durante uma foda maluca. "Aos meus culhões dourados", foi o que escrevi. Mal sabia eu a saga daquele fim de semana. Da gringa de Orleindawl dentro de algumas horas, de apartamento roxo com uma janela no meio da sala que logo surgiria e o que viria depois.

mas foda-se. Embaixo de "Arlete profunda, garganta de veludo, afrodita. Tel....", lugar mais que propício para se pixar "Aos meus culhões dourados". *** -Eu também escrevo - ela disse em tom de confissão enquanto prostrava um copo à mesa. -É. Eu sei - respondi olhando o pterodactilo.

-Sabe? Como você sabe? -Como? Simples! Acabei de te sodomizar no banheiro podre dessa joça nojenta e você já tá subindo no pedestal, fazendo pose de quem me usou unicamente pro seu bel prazer. Ela fez boca de palhaço triste e disse num tom de "você não tem jeito": -Cê é foda, eim!

-Eu sei - mentira minha, eu não sabia de porra nenhuma, ela havia me mostrado seu diarinho de merda e sua escrita de bosta no dia da virada cultural. Só não lembra de ter me mostrado. (Fim, por enquanto, pois a saga continua). (1) Poema de Mário Bortolotto (2) Livro de Márcio Américo (3) Livro de Marcelo Mirisola.