Edição 3

O senhor do sol

Marcelo Ariel

1
O SENHOR DO SOL :

Para Sophia & Valdineide

Yukio Mishima possuía como um 'Dibuk' o corpo de Kimitake Hiraoka

e tinha o hábito de caminhar dentro do jardim de crisântemos em sua memória

onde um vapor amarelo se desprendia do cadáver de sua mãe...

Com o tempo a possessão se converteu em fusão

e Mishima decidido a ser uma espécie de Ícaro

fabricou para si um par de asas com espadas

e tentou voar até o Sol no interior do corpo

onde o tempo pode ser vencido dentro de um sonho...

Ao tocar com suas mãos cheirando a crisântemos neste Sol

ele caiu e suas asas feitas com espadas ao se soltarem de seu corpo

deceparam sua cabeça...

Mas Mishima ainda teve tempo de gritar seu verdadeiro nome para o Sol

que por sua vez estendeu seus braços infernais até ele e disse;

" Entre !" .

2.

UMA PUTA CHAMADA G.H.

Lá estava Farnese,

Lá estava a Vila Socó: Libertada,

Lá estava o cachorro da metafísica;

Daí eu disse...

De ovo à ovo chega-se ao cú do mundo,

mas prefiro o teu...

Daí passou um sonho

deixando fiapos de merda;

Será que Barthes usava camisinha?

O que? Ela disse enquanto

eu olhava para as costas de um deserto,

no final li para ela um soneto do Dante traduzido pelo Faustino...

( O Sol não explode de uma vez, eis o enigma.)

No dia seguinte,

almoçamos no 1REAL

( Isso não é um poema...Para que se esquivar do vazio?..ou é um poema exatamente por isso.)

3.

EM 'ALMÁDENA' DE MARIANA IANELLI :

Os 12 poemas do livro formam uma tessitura de silêncios que são como uma película que recobre a idéia-síntese que atravessa a obra de Mariana . A idéia do poema como veículo dos sentidos e da urgência do Sagrado, de um sagrado laico que atravessa as coisas e os fatos e é de um modo sutil 'pescado' pela rede de palavras & contemplação de poetas como ela. ( E Rilke, Jorge de Lima e Saint John Perse antes dela)
Mariana consegue neste Almádena estabelecer um diálogo com o centro da crise do nosso tempo, os poemas do livro são costurados por excertos do Padre Antônio Vieira e isso a meu ver reforça o caráter de urgência deste diálogo entre o sagrado e esta crise que têm na Alma, identidade inominável do ser para além das fronteiras, seu núcleo. Marco Lucchesi na orelha do livro escreve: ' Mariana terá que se haver com os limites do silêncio..' Ora nos limites do silêncio dormem a loucura, o absurdo e o caos incubados no cotidiano e na natureza, desde seu primeiro livro ' Trajetória do antes', Mariana tem enfrentado estas novas Parcas com a delicada força deste silêncio soprado em seu ouvido pela mesma interioridade secreta que constrói dentro destes silêncios a música do Poema, esta música que ecoa em nossa atualidade e continuará ecoando na atualidade do amanhã como o som daquele sino do filme Andrei Rublev de Tarkovski .

4.

PARA ALEJANDRA PIZARNIK :

A vaporização e centralização do eu

em tudo

é o limite

para o pássaro esquartejado

constantemente

pelo 'poder oceânico' da noite

estávamos 'fora do corpo' o tempo todo

esperando...

Aquela criança cantarolando no escuro

para tentar impedir os enforcamentos.