O senhor do sol
1
O SENHOR DO SOL :
Para Sophia & Valdineide
Yukio Mishima possuía como um 'Dibuk' o corpo de Kimitake Hiraoka
e tinha o hábito de caminhar dentro do jardim de crisântemos em sua memória
onde um vapor amarelo se desprendia do cadáver de sua mãe...
Com o tempo a possessão se converteu em fusão
e Mishima decidido a ser uma espécie de Ícaro
fabricou para si um par de asas com espadas
e tentou voar até o Sol no interior do corpo
onde o tempo pode ser vencido dentro de um sonho...
Ao tocar com suas mãos cheirando a crisântemos neste Sol
ele caiu e suas asas feitas com espadas ao se soltarem de seu corpo
deceparam sua cabeça...
Mas Mishima ainda teve tempo de gritar seu verdadeiro nome para o Sol
que por sua vez estendeu seus braços infernais até ele e disse;
" Entre !" .
2.
UMA PUTA CHAMADA G.H.
Lá estava Farnese,
Lá estava a Vila Socó: Libertada,
Lá estava o cachorro da metafísica;
Daí eu disse...
De ovo à ovo chega-se ao cú do mundo,
mas prefiro o teu...
Daí passou um sonho
deixando fiapos de merda;
Será que Barthes usava camisinha?
O que? Ela disse enquanto
eu olhava para as costas de um deserto,
no final li para ela um soneto do Dante traduzido pelo Faustino...
( O Sol não explode de uma vez, eis o enigma.)
No dia seguinte,
almoçamos no 1REAL
( Isso não é um poema...Para que se esquivar do vazio?..ou é um poema exatamente por isso.)
3.
EM 'ALMÁDENA' DE MARIANA IANELLI :
Os 12 poemas do livro formam uma tessitura de silêncios que são como uma película que recobre a idéia-síntese que atravessa a obra de Mariana . A idéia do poema como veículo dos sentidos e da urgência do Sagrado, de um sagrado laico que atravessa as coisas e os fatos e é de um modo sutil 'pescado' pela rede de palavras & contemplação de poetas como ela. ( E Rilke, Jorge de Lima e Saint John Perse antes dela)
Mariana consegue neste Almádena estabelecer um diálogo com o centro da crise do nosso tempo, os poemas do livro são costurados por excertos do Padre Antônio Vieira e isso a meu ver reforça o caráter de urgência deste diálogo entre o sagrado e esta crise que têm na Alma, identidade inominável do ser para além das fronteiras, seu núcleo. Marco Lucchesi na orelha do livro escreve: ' Mariana terá que se haver com os limites do silêncio..' Ora nos limites do silêncio dormem a loucura, o absurdo e o caos incubados no cotidiano e na natureza, desde seu primeiro livro ' Trajetória do antes', Mariana tem enfrentado estas novas Parcas com a delicada força deste silêncio soprado em seu ouvido pela mesma interioridade secreta que constrói dentro destes silêncios a música do Poema, esta música que ecoa em nossa atualidade e continuará ecoando na atualidade do amanhã como o som daquele sino do filme Andrei Rublev de Tarkovski .
4.
PARA ALEJANDRA PIZARNIK :
A vaporização e centralização do eu
em tudo
é o limite
para o pássaro esquartejado
constantemente
pelo 'poder oceânico' da noite
estávamos 'fora do corpo' o tempo todo
esperando...
Aquela criança cantarolando no escuro
para tentar impedir os enforcamentos.