Um pensamento disperso
à parte, vi e ouvi coisas que bem sei, nelas nenhum de vocês acreditaria: a voz antes do reverberar, o zero e seu negativo, a imagem sem o pontilhismo. Com todos eles me defrontei, bastasse antecipar forma e cor no aroma; o antes e o depois, inicio, fim e entremeio e seja lá quantas dimensões mais houvesse nesses meus recônditos paradisos!
Quando subconsciente - vodu do destino, dum tempo que aqui não mais se utiliza de cordas a dissimular -, toquei o número e a razão, metafísico que adorna a divina inspiração. Quanto leva uma palpitação, o microssegundo me foi suficiente; tempo este em que desvaneceram as funções orgânicas e regrediram a meu ser.
Matéria mais que insólita, esta cama atravessa, estrado e piso; quando frente a frente fico com pinturas monocromáticas, faces disformes e destituídas de liberdade, perco-me então entre respingos, a que não sei discernir bondade e maldade, se querem fugir das telas ou lá permanecer por toda eternidade.
Que ampulheta é esta cuja imagem tenho fixa nos sonhos, que me hesita medir as palavras, como se as fosse revelar de todo, temendo que se desdobrem em ardis e terroristas; no mais, uns nauseabundos? Quando me fiz - simultâneo talvez a um quê ainda maior -, no que recuperei a consciência, cá estava neste corredor, decepado; e pelo pouco que me lembrei, nunca mais recuperei rosto, memória, ou nenhum de meus tantos nomes.
De fato, esqueci-me inclusive se o desabafo o dedilho de bom grado ou indelével e dissimulado. Se devoras ou me alimentas, assim perecer ao meu próprio entorpecimento e vicio, neste continuum, jamais saberei. Mas... Amorfo, aqui levitando, cada um de meus globos oculares - um para a cognição, outro para a sabedoria, emoção, asco; nem sei quantos mais - separados, nada são; ajuntados, fazem de mim este observador.
Eis que os tenho aqui em mãos, olhando para esta persona quando a mim mesmo vejo em paradoxo, divagando entre pensamentos oníricos [supérfluos?]. Entre o futuro egoísta e o amanhã incerto, quem ousará... O passado renegado e aquele que em cada uma das juntas permanece impregnado - um pó que escorre aos dedos quanto mais se lhe tente encarcerar -, nas quinas dos móveis, objetos e vontades despedaçadas, o que resta esfacelado nos pisos...
Adivinhar meu nome? Tudo aqui range e as portas batem sem ruído algum emitir; nada se move, a não ser umas baratas e ratazanas, vez em quando resolvem aglomerar-se por entre umas saboneteiras, o cobalto assim irradia um brilho visceral e oscilante. Pode ser que eu seja um pensamento sem dono [me quer?]...
A vontade de uma criança por um bilboquê; ficou para trás porque não suportou vê-la operante a um sistema escolar, trabalho e panóptico... Vai saber se o ruído volta a mim ou se inexisto; se sou o meandro que você tem e tanto me carece... Consciência humana, imperfeita, contraditória, ambivalente, culpada.
Ou quem sabe, numa remota possibilidade, no exato momento em que vos falo, talvez esteja ao seu lado, invisível, zombando destas tuas vicissitudes. Talvez me ouça, pois é assim que me faço transitar: uma assombração.